quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Viva Galípolo, ofendido por Vorcaro: “esse cara é um merda”

 Presidente do Banco Central recebe um troféu com revelações de nos grampos; ao resistir à ofensiva do fraudador, Gabriel Galípolo foi insultado

Gabriel Galípolo e Daniel Vorcaro - Crédito: Saulo Cruz/Agência Senado | Reprodução

 Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro mostram que o banqueiro reagiu com irritação à resistência do Banco Central em aprovar a venda do Banco Master ao BRB e discutiu com seu advogado, Walfrido Warde, uma ofensiva judicial contra a autoridade monetária. As conversas foram reveladas pela coluna de Malu Gaspar, no jornal O Globo.

Vorcaro tentava pressionar o BC a dar aval ao negócio de R$ 12 bilhões com o banco estatal de Brasília, operação que acabou vetada definitivamente em 3 de setembro. Em 17 de julho de 2025, às 22h13, Vorcaro escreveu a Warde: “Vamos precisar entrar na Justiça contra Bacen entre amanhã e segunda”. Na sequência, afirmou: “Galípolo acabou reunião agora. Inventou nova desculpa. Que agora tem erros contábeis. Falou pro Hugo [possível referência ao presidente da Câmara, Hugo Motta]. Não dá mais. Eles não vão fazer”.


Naquele dia, a agenda oficial do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, registrava “despachos internos” e uma reunião com o ministro-chefe da Controladoria-Geral da União, Vinícius Carvalho. A coluna informou, porém, que Galípolo também se reuniu com sua equipe para tratar da compra do Master pelo BRB.

A reação de Vorcaro veio em meio ao avanço das restrições do Banco Central ao Master. Dois dias antes, em 15 de julho, a autoridade monetária havia comunicado ao Ministério Público Federal no Distrito Federal que identificara, no primeiro semestre de 2025, “cessão de créditos inexistentes ao BRB, adquiridos pelo Banco Master S.A. de empresa terceira”. Para o BC, o episódio indicava possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional.

Nas mensagens, Warde reagiu dizendo: “Ele não tem coragem”, em referência a Galípolo. Vorcaro respondeu com insultos ao presidente do Banco Central: “Temos que ir pro embate. Esse cara é um merda. Agora chega, não dá mais”. O advogado então orientou: “Vamos pra cima. Mas façamos do meu jeito. Primeiro notificação”. Vorcaro concordou: “Do jeito que quiser. Avise presidente amanhã e vamos pra guerra”.

A coluna relata que Warde afirmou em seguida: “Já fiz isso. Tem que notificar e tomar medidas”, ao encaminhar a Vorcaro o print de uma conversa com um interlocutor não identificado.

Outro ponto das mensagens envolve Renato Gomes, então diretor de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central. Segundo O Globo, enquanto a área de supervisão resistia a uma intervenção e trabalhava pelo aval à venda do Master ao BRB, Gomes se opunha ao negócio e defendia a intervenção na instituição.

Às 23h16 do mesmo dia, Vorcaro escreveu a Warde: “Temos que entrar com suspeicao dó [sic] Renato em funcao do inquerito mpf. Essa e a notificação. Que ele ta obstruindo transação”. Warde respondeu: “Eu mesmo vou escrever. To com ódio desse cara. Ele vai sentir o peso da minha mão”.

Vorcaro acrescentou: “[Renato] Engoliu o Galípolo. Cara tá indo contra você, STF, Câmara, Senado, Presidente”. Warde, que segundo a coluna se divertia com o apelido de “pitbull”, respondeu em terceira pessoa: “Esse pessoal todo é moleza. Vamos ver se ele aguenta 5 minutos de Warde”.

No dia seguinte, 18 de julho, Warde voltou a procurar Vorcaro e disse que pretendia preparar duas notificações: uma dirigida a Galípolo e ao Banco Central, e outra a Renato Gomes. Um dia depois, em um sábado, Vorcaro foi recebido por Galípolo na sede do BC, em reunião da qual também participou Augusto Lima, sócio do banqueiro.

À época, fontes do Banco Central disseram à Folha de S.Paulo que o encontro teve o objetivo de acelerar a análise dos documentos da transação com o BRB e que novas reuniões ocorreriam em 21 e 22 de julho.

Em 23 de julho, Warde disse a Vorcaro que havia se encontrado com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O advogado encaminhou ao banqueiro uma mensagem recebida de uma pessoa não identificada: “Descobri o seguinte aqui: o PR falou com Guido ontem por telefone, Guido informou que está em Londres. PR disse que vai chamar assim que retornar. Vamos dar outro jeito”.

O “Guido” citado nas mensagens é Guido Mantega, ex-ministro de Lula e consultor do Master. “PR”, no jargão político de Brasília, costuma ser usado como referência ao presidente da República. Após receber a mensagem, Vorcaro respondeu: “Alexandre”. Warde retrucou: “Sim. Vou pavimentar”.

Segundo a coluna, em nenhum momento dessas conversas é citado o nome de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Ela havia assinado, em janeiro de 2024, um contrato de R$ 3,6 milhões com o Master, com duração de três anos, que previa atuação em uma série de órgãos, inclusive no Banco Central.

A ofensiva jurídica discutida nas mensagens, de acordo com O Globo, não aparece novamente na sequência de conversas obtidas pela coluna e não se concretizou.

Foi nesse mesmo período, segundo a apuração, que Alexandre de Moraes procurou Gabriel Galípolo ao menos quatro vezes para tratar de assuntos relacionados ao Banco Master. Ainda conforme a coluna, ao menos três contatos ocorreram por telefone, e em uma ocasião Moraes se encontrou presencialmente com o presidente do Banco Central.

A coluna afirma que Moraes pediu a Galípolo que ajudasse na aprovação do negócio entre Master e BRB. Galípolo, segundo a apuração, teria respondido que isso não seria possível porque já havia uma investigação de fraude em curso.

Em nota divulgada à imprensa à época, Moraes afirmou que se encontrou com Galípolo para tratar das implicações da Lei Magnitsky, sanção aplicada pelo governo de Donald Trump no fim de julho, e disse que não tratou com o presidente do BC de questões referentes ao Banco Master. O Banco Central também informou que Galípolo “manteve reuniões com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, para tratar dos efeitos da aplicação da Lei Magnitsky”.

O Banco Central vetou definitivamente a venda do Master ao BRB em 3 de setembro. Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro, e a liquidação do Banco Master foi anunciada no dia seguinte.

Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo via coluna da Malu Gaspar

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