Pesquisas eleitorais podem apresentar números diferentes para os mesmos candidatos porque cada instituto define a própria amostra, forma de entrevista e método de ajuste estatístico. A divergência ficou clara após levantamentos divulgados na segunda (21) apontarem percentuais distintos para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno.
A BTG/Nexus indicou 37% das intenções de voto para Flávio, enquanto a Quaest registrou 33% no mesmo cenário. Diferenças desse tipo não significam, por si só, que uma pesquisa esteja errada: elas refletem escolhas metodológicas feitas antes, durante e depois das entrevistas.
O primeiro ponto é a amostragem, ou seja, a seleção do grupo que responderá ao questionário. Institutos precisam escolher rigorosamente um grupo de 2 mil a 5 mil pessoas capaz de representar o conjunto do eleitorado.
Amostra, coleta e acesso aos entrevistados alteram os resultados

Os institutos não usam necessariamente o mesmo caminho para chegar aos entrevistados. A Quaest sorteia municípios, setores censitários do IBGE e aplica cotas sociodemográficas nos domicílios selecionados. A AtlasIntel, por sua vez, utiliza recrutamento digital aleatório, com respostas captadas durante a navegação de usuários em computadores e celulares.
As entrevistas também podem ocorrer presencialmente, por telefone ou pela internet. Cada modalidade produz desafios específicos: a conversa presencial tende a permitir respostas mais completas, a telefônica precisa ser mais curta e a digital alcança o entrevistado com mais facilidade, mas pode atrair pessoas que respondem rapidamente ou participam de pesquisas em busca de remuneração.
Entrevistadores presenciais ainda enfrentam o chamado “problema do porteiro”, quando barreiras físicas, sociais ou de segurança impedem o acesso a uma parcela dos eleitores. Condomínios com entrada restrita, prédios fechados e áreas dominadas pelo crime podem deixar lacunas na coleta, enquanto telefone e internet oferecem outras formas de contato.
Uma amostra maior reduz a margem de erro estatística, mas não elimina vieses de seleção nem corrige dificuldades de campo. El-Dash aponta que cerca de 2 mil entrevistas nacionais, distribuídas proporcionalmente entre os estados, costumam bastar para atingir margem de erro inferior a três pontos percentuais; o resultado depende de quem foi ouvido e de como o conjunto representa o eleitorado.
Após a coleta, os institutos aplicam ponderações para aproximar a amostra do perfil registrado pelo IBGE e pelo Tribunal Superior Eleitoral. Se houver menos mulheres entrevistadas do que a proporção feminina no eleitorado, por exemplo, as respostas desse grupo recebem peso maior no cálculo final.
As empresas podem dar pesos diferentes a fatores como idade, escolaridade, renda, região e voto declarado na eleição anterior. A AtlasIntel inclui essas variáveis em sua pós-estratificação, e a ausência de uma regra única sobre quais critérios devem entrar no cálculo ajuda a explicar variações nos percentuais divulgados.
Para acompanhar a disputa sem tomar um levantamento isolado como retrato definitivo, a recomendação do especialista é observar tendências ao longo do tempo e consultar agregadores de pesquisas. Esses modelos procuram considerar os desvios sistemáticos de cada instituto e estimar a evolução geral das intenções de voto.
Fonte: DCM
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