sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Com cenário acirrado, estabilidade nos indicadores pode favorecer a campanha de Lula na reta final

 Resiliência do presidente diante do noticiário político e consolidação de cenário polarizado contra Flávio Bolsonaro transforma 2026 em um “terceiro turno de 2022”

Lula e Flávio Bolsonaro - Crédito: Ricardo Stuckert/PR | Agência Senado

Diante de um cenário eleitoral altamente acirrado e com a polarização cristalizada no país, a manutenção da estabilidade nos indicadores das pesquisas de intenção de voto surge como um sinal positivo para a campanha do presidente Lula (PT) nesta reta final da disputa presidencial, aponta análise do Labop FESPSP (Laboratório de Pesquisas de Opinião e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).


Mesmo diante do cenário de empate técnico com o senador Flávio Bolsonaro (PL), no qual o atual mandatário aparece com 47% das intenções de voto no segundo turno contra 45% do parlamentar, Lula sustenta uma liderança numérica que ganha fôlego extra com a recente redução na avaliação negativa do seu governo.

Segundo o balanço divulgado pelos analistas políticos do Labop FESPSP com base na última rodada da pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira (24), os resultados trazem boas e más notícias para ambos os candidatos na liderança. Contudo, confirmam a consolidação de um quadro de estabilidade que evoca a reedição do pleito de 2022 — ocasião na qual Lula alcançou uma vitória apertada, com margem de apenas 1,8% dos votos a mais do que Jair Bolsonaro (PL). A constância dos números revela ainda que, mesmo após semanas marcadas pela intensa exposição do noticiário sobre a crise no Supremo Tribunal Federal (STF), não foram registradas alterações nas intenções de voto dos principais candidatos.

Para o cientista político e professor do Labop FESPSP, Hilton Fernandes, divergindo de outros institutos, o levantamento do Datafolha sinaliza uma vantagem estratégica para o comitê governista ao evidenciar a resiliência e a capacidade de resistência da candidatura de Lula diante do noticiário político recente. Fernandes destaca que o incumbente se mantém “consistentemente à frente de Flávio Bolsonaro, ainda que empatados na margem de erro no cenário de segundo turno (47% contra 45% de Flávio) e no limite da margem de erro no primeiro turno (40% contra 36%)”.

Outro aspecto ressaltado pelo especialista refere-se à percepção da administração federal. Mesmo com uma melhora discreta, a queda de dois pontos percentuais na avaliação negativa do governo — que passou de 42% para 40%, enquanto a avaliação positiva se manteve em 34% — trouxe fôlego técnico para o atual mandatário. Na avaliação do cientista político, em uma eleição em que cada ponto pode ser determinante para a vitória, a diminuição da rejeição à gestão não deixa de ser uma boa notícia para a campanha de Lula, demonstrando que a cristalização das intenções de voto típica da reta final faz com que os eleitores mantenham suas posições a despeito de novas informações.

Metodologias diferentes e resultados diversos

A estabilidade observada no levantamento do Datafolha, que caminha na contramão de pesquisas divulgadas por outros institutos nesta mesma semana, acende o debate sobre as diferentes metodologias de amostragem empregadas pelas empresas de opinião pública.

Conforme explica Hilton Fernandes, o desenho amostral adotado pelo Datafolha, que realiza entrevistas presenciais em pontos de fluxo nas cidades, pode ser o fator explicativo para a manutenção da vantagem lulista, ainda que sejam aplicadas ponderações para calibrar a amostra na apuração final.

A última pesquisa Datafolha registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-00304/2026 foi realizada entre os dias 22 e 24 de setembro, ouvindo 2.002 eleitores. Seus resultados apresentam margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos e nível de confiança de 95%.

Quem decidirá a eleição

Com a rejeição de ambos os postulantes também empatada rigorosamente em 45%, a definição do pleito deve caminhar para segmentos específicos do eleitorado, segundo o analista político Beto Vasques, coordenador do Labop FESPSP.

Vasques observa que a diferença de dois pontos percentuais no segundo turno — Lula com 47% contra 45% de Flávio — mantém o cenário de estabilidade total observado nas últimas quatro rodadas e coincide quase exatamente com a média das onze rodadas do Datafolha ao longo de todo o ano, na qual o presidente registra 46,4% e o senador 43,9%, uma diferença de 2,5 pontos percentuais.

O analista reitera a similaridade do quadro atual com o resultado do segundo turno de 2022, quando Lula teve 1,8% a mais do que Jair Bolsonaro, confirmando a tese de que o pleito funciona como uma espécie de “terceiro turno de 2022” ou um “tira-teima entre os sobrenomes Lula da Silva e Bolsonaro”.

Vasques ressalta ainda que a rejeição voltou a registrar empate pela terceira rodada seguida em 45%, patamar próximo à média de 46% mantida por ambos ao longo do ano. Já na pesquisa espontânea, registrou-se uma queda expressiva do número de indecisos, que despencou de 44% para 18% nesta rodada — uma retração de 26 pontos percentuais. No mesmo período, os dois primeiros colocados cresceram juntos 27%, absorvendo a totalidade dos eleitores que definiram sua opção no intervalo.

Diante disso, Vasques avalia que eventuais mudanças nesse cenário acirrado estarão concentradas nas mãos dos chamados “eleitores pendulares” — aqueles cidadãos sem posição ideológica rígida, altamente sensíveis ao noticiário e que alternam preferências —, além de dependerem diretamente do perfil e da taxa de abstenção no dia da eleição.

Fonte: Brasil 247

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