Deputado saiu de cerca de R$ 36 mil declarados em 2022 para R$ 3,8 milhões em 2026; imóvel financiado concentra a maior parcela dos bens apresentados à Justiça Eleitoral
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) parece ter descoberto uma fórmula particularmente eficiente de multiplicação patrimonial. Em apenas quatro anos, entre a eleição de 2022 e a disputa de 2026, os bens declarados pelo parlamentar saltaram de aproximadamente R$ 36 mil para R$ 3,8 milhões, uma expansão de cerca de 8.850%.
Os números foram revelados por O Globo, a partir das declarações de bens apresentadas à Justiça Eleitoral e tornadas públicas nesta semana. Considerado o efeito da inflação, os R$ 36 mil informados por Nikolas em 2022 corresponderiam atualmente a aproximadamente R$ 43,5 mil — ainda assim uma distância extraordinária dos R$ 3,8 milhões declarados agora.
Não há, apenas a partir desses dados, indicação de irregularidade. Mas a velocidade da ascensão patrimonial chama atenção e coloca a evolução financeira do deputado sob o escrutínio natural que acompanha as declarações obrigatórias de candidatos a cargos públicos.
⦾ De R$ 36 mil para R$ 3,8 milhões
Quando disputou uma vaga na Câmara dos Deputados em 2022, Nikolas Ferreira declarou um patrimônio bastante modesto. Quatro anos depois e após seu primeiro mandato como deputado federal, o cenário mudou de forma radical.
A variação nominal chega a 8.850%, segundo os números apresentados por O Globo. Mesmo corrigindo o valor de 2022 pela inflação, o salto continua sendo de outra ordem de grandeza.
É uma performance patrimonial que dificilmente passaria despercebida em qualquer balanço financeiro. No caso de um agente público, ganha interesse adicional justamente porque a legislação eleitoral obriga candidatos a tornar públicos seus bens.
⦾ Imóvel financiado responde pela maior parte do patrimônio
O principal componente do patrimônio declarado por Nikolas é um imóvel financiado avaliado em R$ 2.231.664,61.
O bem representa a maior parcela dos R$ 3,8 milhões informados à Justiça Eleitoral. O fato de se tratar de um imóvel financiado também é relevante para a leitura dos números: a declaração eleitoral registra o bem informado pelo candidato, mas sua existência no patrimônio não significa necessariamente que todo o valor tenha sido integralmente quitado.
Além do imóvel, Nikolas declarou aproximadamente R$ 1,6 milhão em aplicações financeiras, ações e participações empresariais.
A carteira patrimonial, portanto, tornou-se consideravelmente mais diversificada do que aquela apresentada pelo parlamentar em eleições anteriores.
⦾ Em 2020, patrimônio era ainda mais enxuto
A transformação fica ainda mais evidente quando se recua ao início da trajetória eleitoral de Nikolas Ferreira.
Em 2020, quando disputou sua primeira eleição, para vereador de Belo Horizonte, ele declarou apenas depósitos bancários, aplicações de renda fixa e valores em poupança, sem apresentar um conjunto relevante de bens.
Dois anos depois, na campanha para deputado federal, o patrimônio declarado estava em torno de R$ 36 mil.
Agora, após quatro anos de mandato na Câmara, a declaração atinge R$ 3,8 milhões.
A sequência ajuda a dimensionar a velocidade da evolução: de uma declaração praticamente restrita a ativos financeiros de pequeno valor para um patrimônio milionário composto por imóvel, aplicações, ações e participações empresariais.
⦾ Um crescimento de 8.850%
O número de 8.850% funciona quase como um índice próprio do desempenho financeiro do deputado.
Em termos proporcionais, a valorização patrimonial declarada por Nikolas supera com enorme folga índices convencionais de inflação, rendimento do trabalho ou crescimento da economia no período.
Isso, isoladamente, não constitui evidência de ilegalidade. Pessoas podem acumular patrimônio por meio de salários, investimentos, atividade empresarial, valorização de ativos, financiamentos e outras fontes lícitas.
Mas é precisamente para permitir que a sociedade acompanhe transformações dessa magnitude que candidatos são obrigados a apresentar suas declarações à Justiça Eleitoral.
⦾ Zema declara R$ 178,7 milhões
Os dados divulgados nesta semana também permitem comparar a dimensão patrimonial dos candidatos que entram na disputa eleitoral.
O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema declarou patrimônio de R$ 178,7 milhões, crescimento de aproximadamente 15% em relação ao valor apresentado na eleição de 2022.
O montante de Zema é muito superior ao de Nikolas em termos absolutos. A diferença está na taxa de crescimento: enquanto o patrimônio do ex-governador avançou 15%, o declarado pelo deputado cresceu milhares por cento no mesmo intervalo eleitoral.
Outro nome citado nos registros, Renan Santos, informou patrimônio de aproximadamente R$ 795 mil.
Os números ilustram perfis econômicos bastante distintos entre candidatos que participam do processo eleitoral de 2026.
⦾ Transparência permite acompanhar evolução dos políticos
A divulgação das declarações de bens cumpre uma função importante de transparência eleitoral.
Mais do que estabelecer uma competição para saber quem possui mais ou menos patrimônio, esses registros permitem ao eleitor acompanhar como a situação financeira de agentes políticos se modifica durante o exercício dos mandatos.
Um aumento patrimonial, por si só, não comprova qualquer prática irregular. Da mesma maneira, a ausência de crescimento não constitui certificado de virtude.
O dado relevante para o debate público é a possibilidade de comparar as informações apresentadas em eleições sucessivas e, quando necessário, verificar sua compatibilidade com rendimentos e atividades econômicas declaradas.
⦾ A política e a multiplicação dos bens
No caso de Nikolas Ferreira, o contraste é inevitável.
O parlamentar que chegou à eleição de 2022 declarando cerca de R$ 36 mil reaparece quatro anos depois com um patrimônio de R$ 3,8 milhões.
No mundo das finanças, seria uma valorização excepcional. No mundo da política, é também um lembrete de por que declarações patrimoniais de candidatos devem permanecer públicas, acessíveis e submetidas ao escrutínio dos eleitores.
Afinal, em uma democracia, milagres financeiros podem até existir. Mas transparência continua sendo a melhor maneira de entendê-los.
Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo
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