Jornal britânico analisa reação tímida da direita e aponta erosão da força política do clã Bolsonaro após início da pena de 27 anos
Bolsonaristas em frente a sede da Polícia Federal em Brasília (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
A cena que marcou os primeiros dias de Jair Bolsonaro (PL) atrás das grades foi bem diferente das manifestações que marcaram sua trajetória nos últimos anos. Em reportagem publicada nesta sexta-feira (28), o jornal britânico The Guardian descreve a solidão que cerca o ex-presidente neste início de cumprimento da pena de 27 anos por tentativa de golpe.
Segundo a análise do The Guardian, apenas algumas dezenas de apoiadores apareceram diante da base da Polícia Federal em Brasília, onde Bolsonaro ocupa uma pequena sala usada como cela. Entre eles estava Arley Xavier, de 21 anos, que insistia em negar o fim do ciclo bolsonarista: “Não acabou. Ainda há muito que Jair Messias Bolsonaro precisa fazer no Brasil … Não, não acabou”, declarou o jovem, conclamando conservadores a irem à capital em protesto.
Durante seu governo, entre 2019 e 2023, Bolsonaro mobilizava multidões em cidades como Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Mas a energia que antes impulsionava sua militância não apareceu desta vez. Com chuva e clima frio no Centro-Oeste, o ambiente ao redor do ex-chefe do Executivo refletiu desânimo e desarticulação.
A prisão de Bolsonaro e de cinco aliados — enquanto o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) fugiu pela Amazônia rumo aos Estados Unidos — não encerra a extrema direita brasileira, segundo a análise britânica. Seus seguidores ainda alimentam a esperança de um eventual indulto, sobretudo se um conservador vencer as eleições presidenciais do próximo ano. Apesar disso, o jornal destaca que a reação quase inexistente ao encarceramento surpreendeu até analistas experientes.
Um dos trechos centrais da reportagem cita o cientista político Christian Lynch, que avalia que o domínio da família Bolsonaro sobre a direita perdeu força: “Eu diria que a liderança da família Bolsonaro na direita está chegando ao fim e você poderia dizer que o bolsonarismo está chegando ao fim”, afirmou. Ele comparou a cena atual com o momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se entregou à polícia em 2018, recebido por uma multidão de apoiadores que o carregou nos ombros. Para Lynch, a diferença está na capacidade histórica do PT de organizar uma base sólida, algo que Bolsonaro nunca construiu de forma consistente. “O bolsonarismo é como espuma que se desfaz… A direita vai permanecer. Mas o bolsonarismo vai passar”, completou.
A análise também lembra que aliados próximos enfrentam seus próprios dilemas. O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) vive nos Estados Unidos desde fevereiro e pode ser preso se retornar ao Brasil, por causa de uma investigação sobre interferência no julgamento do pai.
Brian Winter, editor-chefe da Americas Quarterly, afirmou ao Guardian que a atual fase é “muito perigosa” para a família. Segundo ele, Bolsonaro e seus filhos teriam cometido um “erro crítico” ao concentrar sua comunicação na ideia de perseguição política e ao pressionar Donald Trump — presidente dos Estados Unidos — a impor sanções ao Brasil. “A comunicação deles tem sido tão focada na própria vitimização … que fica a dúvida se deixaram de falar o suficiente sobre os desafios enfrentados pelos brasileiros. Talvez, como resultado, tenham perdido o contato com o povo”, avaliou.
A reportagem recorda ainda que prognósticos sobre o fim de lideranças políticas no Brasil costumam falhar. Lula, por exemplo, foi tido como politicamente morto após sua prisão injusta, mas retornou ao Planalto em 2022. O jornalista e escritor Bernardo Mello Franco destacou casos como o de Getúlio Vargas, deposto em 1945 e eleito novamente cinco anos depois. Mesmo assim, ele ponderou: “Não estou comparando Bolsonaro com Getúlio ou Lula, porque acho que ele é uma figura politicamente menor, em todos os sentidos”, observou, lembrando que as regras de progressão de pena podem permitir que Bolsonaro deixe a prisão em seis ou sete anos — ainda mais jovem que Lula hoje.
Já o comentarista Octavio Guedes, da GloboNews, avalia que o retorno político de Bolsonaro é improvável. Para ele, a “reação zero” à prisão mostra que o país vive uma fase “pós-Bolsonaro”, embora as ideias que marcaram o movimento permaneçam vivas e possam ser canalizadas por novas lideranças. Ele citou uma frase atribuída a Benito Mussolini: o líder fascista dizia não ter criado o fascismo, mas apenas extraído as ideias já presentes no inconsciente coletivo italiano — analogia que Guedes enxerga no bolsonarismo.
Dois dias após o início da pena, a promessa de uma reação expressiva se desfez tão rápido quanto a “espuma” que inspirou o título da análise britânica. Apenas um manifestante tentou se acorrentar a uma pilastra do Congresso — e acabou preso, numa cena que sintetizou o esvaziamento da força popular que um dia acompanhou o ex-presidente.
Fonte: Brasil 247
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