Ensaísta afirma que apenas a vitimização do ex-presidente poderia reacender a extrema direita
A crise provocada pelo episódio em que Jair Bolsonaro afirmou ter entrado em “transe” ao tentar manipular a tornozeleira eletrônica desencadeou uma análise contundente do ensaísta João Cezar de Castro Rocha. A entrevista foi concedida ao jornalista Luis Nassif e publicada em seu canal no YouTube, que serve de base para esta matéria.
Logo no início da conversa, Nassif relembra o histórico de atuação de Bolsonaro “nas sombras”, mencionando suas ligações com porões da ditadura, milícias e o chamado “escritório do crime”. Segundo o jornalista, esse passado ajuda a explicar o estado de descontrole atual: “Ele foi um chefeito que sempre atuou nas sombras, cometeu os piores crimes que alguém já pode ter cometido nas sombras”.
⊛ O derretimento do bolsonarismo e a perda de relevância da família Bolsonaro
Para João Cezar, o que o país presencia hoje é a confirmação de um cenário que ele próprio havia antecipado meses atrás: o desaparecimento precoce do bolsonarismo. “Eu sugeria como um cenário possível um desaparecimento precoce do bolsonarismo”, afirmou.
Ele aponta sinais inequívocos desse colapso:
- fugas “patéticas” de aliados como Eduardo e Flávio Bolsonaro;
- ausência de liderança real na extrema direita;
- perda do simbolismo patriotista que antes mobilizava multidões.
Como símbolo maior desse esvaziamento, ele cita a cena diante da Polícia Federal: “Foi uma coisa ridícula”, lembrando a falta de manifestações relevantes e o fracasso das ameaças de paralisação dos caminhoneiros.
⊛ Altivez de Lula e fragilidade de Bolsonaro
Castro Rocha estabeleceu um paralelo entre Bolsonaro e o presidente Lula, destacando a diferença simbólica entre eles. Ele lembrou a declaração literal de Lula ao recusar voltar para casa com tornozeleira quando esteve preso:
“Eu não troco a minha liberdade pela minha dignidade. Eu ficarei até o dia que eu provo que sou inocente.”
Segundo o ensaísta, a crise atual expõe de forma definitiva a fraqueza de Bolsonaro:
“O Bolsonaro revelou da forma mais explícita possível que é um sujeito medroso, é um poltrão, é um sujeito sem nenhuma dignidade.”
Ele afirma que nenhum líder messiânico se sustenta sem estar disposto ao sacrifício — algo que Bolsonaro jamais demonstrou.
⊛ A única via de sobrevivência política: a vitimização
Apesar do diagnóstico de extinção, João Cezar faz um alerta, repetindo várias vezes que escolhia “as palavras com muito cuidado”.
Ele afirma que existe apenas um cenário capaz de reanimar o bolsonarismo e tornar imprevisível a disputa presidencial de 2026:
“A única possibilidade que isso aconteça é a vitimização do Bolsonaro.”
O ensaísta recorda episódios históricos, no Brasil e no mundo, em que a transformação de um líder desacreditado em mártir produziu convulsões políticas profundas.
Ele cita o suicídio de Getúlio Vargas, que alterou o rumo do país, e lembra uma advertência clássica de Shakespeare, mencionando como a construção de uma narrativa de perseguição pode despertar massas incontroláveis.
⊛ Risco controlado e tendência ao isolamento
João Cezar observa, contudo, que até o momento o governo tem adotado postura correta e discreta, evitando alimentar qualquer narrativa de perseguição. Ele destaca a fala equilibrada do presidente Lula — “Cabe à justiça decidir” — e a ausência de manifestações precipitadas de ministros.
Para o ensaísta, o desfecho mais provável é que Bolsonaro tenha uma passagem breve — ou até inexistente — pela Papuda, com conversão rápida para prisão domiciliar. Nesse cenário, afirma, não há espaço para a construção do martírio, exceto entre o núcleo mais fanatizado.
“O núcleo que permanecerá com Bolsonaro é um núcleo muito fanatizado que se tornará cada vez mais irrelevante.”
A conclusão de João Cezar é clara: o bolsonarismo, tal como existiu, está se extinguindo — e apenas uma vitimização concreta poderia alterar esse rumo.
Fonte: Brasil 247
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