quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Compras em sites estrangeiros sobem 67% após o fim da ‘taxa das blusinhas’

 Aumento de importações gera reação da indústria têxtil nacional, que relata perda de empregos e queda na produção

     Crédito: Freepik | Reprodução

 A importação de pequenas encomendas efetuadas por meio de plataformas digitais e sites estrangeiros registrou uma alta de 67% nos meses de junho, julho e agosto deste ano, em comparação com o mesmo período de 2025, impulsionada pela edição da medida provisória que extinguiu a chamada “taxa das blusinhas”, segundo levantamento da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) feito com base em dados da Receita Federal e divulgado pela Folha de São Paulo.

No trimestre analisado, os consumidores brasileiros movimentaram US$ 1,61 bilhão (aproximadamente R$ 8,2 bilhões) em compras de mercadorias adquiridas em plataformas de comércio eletrônico internacional, como Shein, Shopee e AliExpress. No mesmo período do ano anterior, quando a tributação federal de 20% sobre essas remessas ainda estava em vigor, o volume registrado havia sido de US$ 867 milhões (cerca de R$ 4,9 bilhões em valores corrigidos).


Ao analisar isoladamente o mês de agosto de 2026, o crescimento no volume de itens importados chegou a 74%. No total, ingressaram no país 26,5 milhões de mercadorias no mês, contra 15,2 milhões de unidades contabilizadas em agosto de 2025. O levantamento estatístico contempla não apenas as encomendas com valor de até US$ 50 (cerca de R$ 260) — atualmente isentas do imposto de importação federal —, mas a totalidade das remessas processadas por meio do Programa Remessa Conforme, mantido pela Receita Federal.

A federação patronal do setor têxtil se opõe enfaticamente à revogação da taxa, sustentando que a alíquota zero aprofundou a desvantagem tributária e competitiva da indústria nacional. “Se não querem aumentar o imposto de importação, que zerem os impostos federais que afetam a competitividade da indústria”, afirmou Fernando Pimentel, presidente da Abit, citando especificamente a necessidade de isenção de tributos como PIS e Cofins. “Nós não temos medo da concorrência”, pontuou o dirigente.

O setor têxtil é apontado pela associação como a cadeia produtiva mais impactada pela medida, representando cerca de 40% de todas as remessas importadas por consumidores finais no Brasil. A insatisfação com a alíquota zero também se estende a outros segmentos produtivos, como a indústria calçadista.

Conforme os dados apresentados pela Abit, o mês de julho acumulou uma retratação de 6,8% na produção têxtil e um recuo de 8,2% no segmento de confecção, em comparação com o mesmo mês do ano anterior. Até o mês de junho, a cadeia produtiva já registrava o encerramento de mais de 13 mil postos formais de trabalho.

Pimentel pondera, contudo, que o encerramento do tributo sobre encomendas internacionais não é o único fator de pressão. Segundo o presidente da entidade, o setor enfrenta o aumento das importações convencionais realizadas diretamente por grandes varejistas, aliado à retração do consumo no mercado interno. Soma-se a isso a elevação dos custos com frete e a manutenção da taxa de juros em patamares elevados no país. “Estamos vivendo uma tempestade perfeita”, avaliou.

⦾ Histórico da cobrança

A cobrança sobre compras internacionais de baixo valor entrou em vigor em agosto de 2024, após a aprovação do projeto de lei pelo Congresso Nacional com o apoio do Executivo e posterior sanção do presidente Lula (PT). A legislação estabelecia uma alíquota de 20% de imposto de importação sobre encomendas de até US$ 50 compradas em sites do exterior, visando proteger a indústria e o comércio varejista nacionais diante dos produtos de baixo custo provenientes do mercado asiático. Na ocasião, os estados também aprovaram legislações para aplicar alíquotas do ICMS variando entre 17% e 20% sobre essas operações.

Considerada impopular entre os consumidores, a tributação federal foi revogada pelo presidente Lula em maio deste ano por meio de medida provisória, a poucos meses das eleições. Em setembro, o Congresso Nacional aprovou o texto, que foi sancionado pela Presidência da República a 24 dias do pleito eleitoral sob protestos de empresários, restabelecendo formalmente a isenção tributária federal para as encomendas de até US$ 50.

O Ministério da Fazenda foi procurado para se manifestar sobre os dados divulgados pela Abit, mas não enviou resposta até a publicação da reportagem.

Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo

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