domingo, 2 de agosto de 2026

Violência contra mulheres explode em São Paulo: feminicídios crescem 70% desde 2022

Estado registra alta de assassinatos de mulheres, agressões e estupros no primeiro semestre de 2026

Violência contra a mulher - Crédito: Marcos Santos/USP Imagens

 São Paulo vive uma escalada da violência contra mulheres. No primeiro semestre de 2026, o estado registrou aumento dos feminicídios, das agressões físicas e dos casos de estupro, enquanto os crimes patrimoniais apresentaram queda.

O dado mais alarmante é o avanço dos feminicídios. Foram 141 mulheres assassinadas por razões de gênero entre janeiro e junho deste ano, contra 124 no mesmo período de 2025 — uma alta de 13,7%. Na comparação com 2022, último ano antes do início da gestão do governador Tarcísio de Freitas, o crescimento chega a 70%.

O levantamento foi elaborado pelo Instituto Sou da Paz a partir de dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) e revela um cenário de agravamento contínuo da violência de gênero no estado.

A situação paulista também destoa do restante do país. Entre 2022 e 2025, o número de vítimas de feminicídio no Brasil cresceu cerca de 8%, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em São Paulo, o avanço foi quase nove vezes maior no período.

Os números colocam em xeque a capacidade do governo estadual de enfrentar uma violência que, segundo especialistas, não começa no feminicídio, mas se manifesta antes por meio de agressões, ameaças, violência sexual e falhas na rede de proteção.


⦾ Interior concentra quase 70% dos feminicídios

A explosão dos casos ocorreu principalmente fora da Região Metropolitana. O interior paulista concentrou aproximadamente 69% de todos os feminicídios registrados no estado no primeiro semestre de 2026.

O número de vítimas na região saltou de 71 para 86 em apenas um ano, uma alta de 21,1%. O crescimento contrasta com a redução observada na capital e na Grande São Paulo.

Na cidade de São Paulo, os feminicídios caíram de 31 para 24. Na Grande São Paulo, passaram de 27 para 20. A redução regional, porém, não foi suficiente para conter a alta estadual.

Para o Instituto Sou da Paz, os dados revelam a necessidade de investigar possíveis vazios na estrutura de proteção e as desigualdades no acesso a serviços de atendimento às mulheres, especialmente nos municípios do interior.

“O feminicídio é a expressão mais evidente de violências que se acumulam e, por vezes, não são observadas até que a mulher se torne uma vítima fatal. A proteção da vida de meninas e mulheres deve ser uma política consolidada no estado e não somente uma responsabilidade das forças policiais”, afirmou Malu Pinheiro, coordenadora de projetos do Instituto Sou da Paz.

⦾ Agressões disparam quase 40% na capital

Antes de chegar ao assassinato, a violência costuma deixar sinais. Em São Paulo, esses sinais também se intensificaram.

Na capital, os registros de lesão corporal dolosa contra mulheres passaram de 8.079, no primeiro semestre de 2025, para 11.301 no mesmo período de 2026. O aumento foi de 39,9% em apenas um ano.

Na comparação com 2022, o número mais que dobrou: eram 5.156 ocorrências e passaram a ser 11.301 — crescimento superior a 119%.

Os dados reforçam o alerta de que o enfrentamento à violência de gênero não pode se limitar à resposta policial após a ocorrência de um crime. A prevenção depende de uma rede capaz de identificar situações de risco, acolher vítimas, garantir medidas protetivas e impedir que agressões recorrentes evoluam para casos de violência letal.

⦾ São Paulo registra cerca de 42 estupros por dia

A violência sexual também avançou no estado. Foram registrados 7.691 casos de estupro no primeiro semestre de 2026, uma alta de 6% em relação ao mesmo período do ano passado e de 23% na comparação com 2022.

A média é de aproximadamente 42 notificações por dia.

A maior parte dos casos envolve pessoas vulneráveis. Dos 7.691 estupros registrados, 5.936 foram classificados como estupro de vulnerável, o equivalente a 77% do total.

Os registros desse tipo de crime cresceram 7% em relação ao primeiro semestre de 2025 e 24,2% na comparação com 2022.

O interior concentrou 4.624 ocorrências, ou seis em cada dez casos registrados no estado. A capital apresentou o maior crescimento proporcional, com 1.648 notificações — alta de 10,8%.

Na cidade de São Paulo, os bairros com maior número de registros foram Grajaú, Sapopemba, Jardim Ângela, Brasilândia e Cidade Tiradentes. A concentração das notificações em áreas periféricas reforça a necessidade de ampliar a atuação conjunta das áreas de segurança, saúde, educação e assistência social.

⦾ Roubos caem, mas violência de gênero avança

O aumento da violência contra mulheres ocorre em um contexto de redução dos crimes patrimoniais.

Entre janeiro e junho de 2026, o estado registrou 70.198 ocorrências de roubo, queda de 16% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os furtos recuaram 5%, totalizando 263.002 registros.

A diferença entre os indicadores evidencia um desafio central para a segurança pública paulista: enquanto roubos e furtos seguem uma trajetória de queda, os crimes que atingem mulheres continuam avançando.

O levantamento do Instituto Sou da Paz aponta que a proteção de mulheres e meninas precisa ocupar posição permanente na agenda do estado, com investimentos em prevenção, atendimento especializado, integração entre os serviços públicos e ampliação da capacidade de resposta.

Os números do primeiro semestre de 2026 deixam um alerta: a redução de alguns crimes não pode encobrir o agravamento da violência de gênero. Em São Paulo, mais mulheres estão sendo agredidas, vítimas de violência sexual e assassinadas — e a resposta do poder público precisará ir além da atuação policial para impedir que a violência continue avançando. 

Fonte: Brasil 247

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