quinta-feira, 30 de julho de 2026

Extrema direita usa IA, perfis anônimos e Flávio Bolsonaro para atacar Lula, diz PT ao TSE

 Segundo a representação, teia de desinformação que envolve Flávio Bolsonaro e funciona também como modelo de negócios

Lula e Flávio Bolsonaro

Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil | Lula Marques/Agência Brasil

O esquema funciona em camadas. Uma rede coordenada de perfis apócrifos produz, de forma massiva e com uso de inteligência artificial (IA), conteúdos sistematicamente ofensivos, voltados a degradar a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do PT. Esse material é então disseminado por meio de collabs com parlamentares e figuras públicas da extrema direita com grande audiência — em especial o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro —, além de parlamentares e pré-candidatos como Gustavo Gayer, Mário Frias, Gilvan Costa e André Marinho.

O PT informou nesta quinta-feira (30) que os partidos da Federação Brasil da Esperança, protocolaram no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma representação eleitoral contra esses atores, pedindo providências imediatas: remoção de todos os URLs citados, seja de jingles do TikTok, seja de publicações do Instagram; identificação dos proprietários dos perfis e suspensão de monetizações.


De acordo com o partido, o ataque político potencializado por IA é também um modelo de negócios: a estrutura inclui uma escola que ensina a produzir vídeos com a tecnologia, arrecadação direta via PIX e criptomoeda. Completando o ecossistema, há ainda postagens massivas de jingles gerados por IA no TikTok, com o mesmo objetivo central: manipular a opinião pública pela destruição sistemática da imagem de Lula e do PT.

Esse ecossistema coordenado e complexo foi mapeado pelo departamento jurídico da pré-campanha do presidente Lula ao longo de sucessivas etapas de apuração, e envolve milhares de publicações e milhões de interações nas redes sociais.

“Essa rede reúne ao menos 32 perfis, 1.464.245 seguidores compartilhados e 23.828 publicações — ou seja, somados aos números das pessoas públicas representadas, as publicações chegam a mais de 10 milhões de seguidores”, aponta a representação assinada pelo jurídico da campanha.


Gabinete do ódio em ação

Entre os perfis que atuam de forma coordenada contra Lula, a representação destaca Léo Índio — primo de Flávio Bolsonaro, sobrinho de Jair Bolsonaro — que vive foragido na Argentina. Ao menos 139 publicações do perfil de Índio são listadas no documento, descritas como altamente abjetas e intoleráveis, pelo caráter machista, misógino, degradante e inverídico do conteúdo — características que violam as próprias regras estabelecidas pelo TSE.

Léo Índio integrou o chamado “gabinete do ódio”, grupo responsável pela estratégia de comunicação digital de Jair Bolsonaro, cujo modus operandi era o ataque sistemático a adversários políticos. Ele se tornou réu no Supremo Tribunal Federal por participação nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. Após ter o passaporte apreendido, deixou o país.

Segundo o documento, teia de desinformação amplifica seu potencial lesivo por três vias simultâneas. Primeiro, figuras públicas como Flávio Bolsonaro emprestam alcance e credibilidade institucional aos conteúdos produzidos pelos perfis apócrifos. Segundo, há uma coordenação explícita entre os perfis para compartilhamento de material — “um padrão observável, que configura, por si, comportamento inautêntico de dominação de fração do debate público na arena digital”. Terceiro, a estrutura transforma o ataque político em fonte de renda, com venda de cursos e arrecadação por PIX.

Os conteúdos contra Lula e o PT — deepfakes, vídeos, desenhos, imagens estáticas e memes — se espalham em velocidade brutal com um único objetivo: “distorcer a percepção do eleitorado sobre a autenticidade e a espontaneidade do que se apresenta como reação popular ao pré-candidato Lula”, alegam os partidos signatários.

“A publicação desses materiais por pessoas públicas de grande envergadura no ambiente digital assume papel importante para a consolidação do conteúdo na audiência. O material artificial recebe a chancela da credibilidade pública e institucional dessas autoridades”, alerta a representação.

A representação nomeia o fenômeno já reconhecido pela literatura especializada: astroturfing — um fluxo informativo paralelo com “lógica de guerra informacional, na qual memes, hashtags e campanhas coordenadas são utilizados para construir narrativas artificiais de apoio”. Em outras palavras: os conteúdos se multiplicam artificialmente entre um grupo identificável de contas, sem que isso corresponda a qualquer manifestação espontânea da população nas redes.

A rede de perfis, majoritariamente apócrifos ou anônimos, aliada a figuras públicas da extrema direita com alta visibilidade, opera “produzindo uma percepção de rejeição generalizada ao pré-candidato que não corresponde a um fenômeno espontâneo do debate público, mas a uma operação deliberadamente construída para dominar uma fatia da atenção e da audiência disponíveis nas redes sociais”, denuncia o documento.

Ao Federação Brasil da Esperança pede que as plataformas sejam notificadas e removam todos os URLs impugnados na representação; que os dados de registro de conexões de cada perfil sejam preservados para identificação e responsabilização de seus proprietários; e que sejam suspensas as monetizações concedidas pelas plataformas às contas envolvidas.

Fonte: Brasil 247

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