
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou o pedido de credenciamento do grupo espanhol Eurolat Global Democracy Forum para atuar como missão internacional de observação das eleições brasileiras de 2026. Entre os integrantes da delegação estava o brasileiro Maurício Galante, vereador da cidade de Arlington, no Texas, e um dos aliados de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
A Corte concluiu que a entidade não atende aos critérios exigidos para atuar como observadora internacional. Segundo o TSE, esse tipo de missão deve ser composto por organismos de reconhecida credibilidade e experiência na área eleitoral, como universidades, centros de pesquisa, organizações multilaterais e instituições especializadas.
O Eurolat Global Democracy Forum se apresenta como uma organização da sociedade civil voltada à promoção de “eleições livres, transparentes e confiáveis”. Técnicos da Diretoria Internacional do TSE, porém, entenderam que a entidade não possui legitimidade institucional nem se enquadra no conceito técnico de organização internacional previsto pela Resolução nº 23.678/2021.
Além disso, o grupo utiliza um nome muito semelhante ao da Assembleia Parlamentar Euro-Latino-Americana (EUROLAT), organismo oficial criado em parceria entre o Parlamento Europeu e parlamentos latino-americanos, embora não mantenha qualquer vínculo com essa instituição.
Quem é Maurício Galante
A presença de Maurício Galante chama atenção por sua estreita ligação com o bolsonarismo e com a articulação internacional golpista liderada por Eduardo Bolsonaro.
Empresário brasileiro radicado nos Estados Unidos, Galante tornou-se o primeiro brasileiro eleito vereador de Arlington, cidade localizada na região metropolitana de Dallas-Fort Worth, no Texas, onde vive Eduardo numa mansão de R$ 3,6 milhões. Sua trajetória política foi construída em torno do conservadorismo americano, do trumpismo e do apoio à família Bolsonaro.
Nos Estados Unidos, Galante preside o Instituto Harpia, organização cujo braço brasileiro é comandado pelo ex-deputado federal Major Vitor Hugo e que tem Jair Bolsonaro como presidente de honra.
Nos últimos anos, ele passou a atuar como um dos principais defensores, em território americano, das pautas promovidas por Eduardo. Em entrevistas, eventos públicos e redes sociais, defende as tarifas impostas pelo governo Donald Trump ao Brasil, apoia a aplicação da Lei Magnitsky contra ministros do Supremo Tribunal Federal, especialmente Alexandre de Moraes, e reproduz a narrativa de que Bolsonaro seria vítima de perseguição política.
Sua atuação ganhou ainda mais destaque durante a escalada das tensões entre Brasil e Estados Unidos. Em uma publicação recente, Galante afirmou que o Alto Comando do Exército brasileiro estaria “a serviço do narcoterrorismo” após mudanças nas operações militares de combate ao crime organizado nas fronteiras.
“O governo corta bilhões da Defesa e a primeira atitude do Alto Comando do Exército é cancelar o combate ao narcotráfico nas fronteiras Norte e Oeste. Em vez de cortar a própria lagosta ou o expediente administrativo nos grandes centros, eles escancaram as portas para o crime organizado. Enquanto o Brasil abandona o seu posto, tropas e inteligência americanas já monitoram as fronteiras nos países vizinhos para fazer o trabalho que o Estado brasileiro se recusa a fazer”, escreveu em suas redes.
Texas virou centro da articulação bolsonarista
A ligação entre Galante e Eduardo Bolsonaro vai além da afinidade ideológica.
A região de Dallas-Fort Worth transformou-se em um dos principais polos da articulação internacional do bolsonarismo. Eduardo Bolsonaro mantém interlocução frequente com empresários, influenciadores e lideranças conservadoras instaladas no Texas, onde também vivem brasileiros ligados ao movimento e até ex-integrantes de órgãos de segurança simpáticos ao ex-presidente.
Galante integra esse núcleo político e tornou-se uma das principais vozes da campanha internacional contra o STF e em defesa de sanções dos Estados Unidos ao Brasil.
Em reconhecimento ao seu ativismo, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou, no início de 2026, a concessão do título de cidadão honorário ao vereador.
Missão era liderada por ex-vice-presidente condenado
Outro integrante da missão rejeitada pelo TSE era Ahmed Adeeb, ex-vice-presidente das Maldivas, condenado em seu país a 20 anos de prisão por corrupção.
Segundo a Justiça Eleitoral, cada pedido de credenciamento é analisado individualmente para garantir que relatórios sobre as eleições brasileiras sejam elaborados por organizações independentes, técnicas e com reconhecimento internacional.
Enquanto o Eurolat Global Democracy Forum teve seu pedido rejeitado, o TSE já credenciou missões de organismos como a Organização dos Estados Americanos (OEA), a União Europeia (UE), a União Interamericana de Organismos Eleitorais (Uniore) e a Rede dos Organismos Jurisdicionais e de Administração Eleitoral da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Rojae-CPLP).
Fonte: DCM
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