Coaf identificou 26 repasses de Fabiano Zettel à Lagoinha Belvedere, valor que representa mais de dois terços dos créditos analisados
Fabiano Zettel - Crédito: Reprodução/YouTube/PrimoCast
Cunhado do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, o pastor Fabiano Zettel transferiu R$ 19,2 milhões para a Igreja Batista da Lagoinha Belvedere em 26 operações identificadas em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Os repasses ocorreram no período analisado pelo órgão e deixam o religioso como principal origem individual de recursos enviados à conta examinada.
Os dados constam de relatórios do Coaf que vieram a público nesta segunda-feira (14) após decisão do ministro André Mendonça. O Relatório de Inteligência Financeira (RIF) nº 140515 registra exatamente R$ 19.205.000 em transferências feitas por Zettel à Igreja Batista da Lagoinha Belvedere.
O documento analisou movimentações financeiras compreendidas entre 24 de dezembro de 2024 e 8 de dezembro de 2025. Nesse intervalo, a conta relacionada à igreja registrou R$ 57,1 milhões em movimentações, com aproximadamente R$ 28,49 milhões em entradas e R$ 28,61 milhões em saídas.
O Coaf classificou a movimentação como atípica diante das informações financeiras disponíveis sobre a entidade. O relatório aponta faturamento anual presumido de R$ 950 mil, valor muito inferior ao volume que circulou no período considerado pela análise.
⦾ Zettel respondeu pela maior parcela dos recursos
As 26 transferências atribuídas a Fabiano Zettel somaram R$ 19,205 milhões. O montante corresponde a mais de dois terços dos cerca de R$ 28,6 milhões recebidos pela igreja no conjunto de créditos mencionado na documentação, incluindo movimentações provenientes de outras contas ligadas à própria instituição religiosa.
A diferença para os demais remetentes identificados no relatório é ampla. Lucas Fernandez Novais Cabaleiro, descrito como vendedor, aparece com o segundo maior volume. Ele realizou 18 transferências que alcançaram, juntas, R$ 843 mil.
O relatório também registra pagamentos realizados por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário” e apontado como pessoa próxima a Daniel Vorcaro. Identificado no documento profissionalmente como “do lar”, Mourão efetuou 11 transferências, no total de R$ 22 mil.
O material não detalha individualmente outros remetentes responsáveis por quantias menores.
⦾ Cunhado de Vorcaro também financiou campanhas em 2022
Zettel mantém ligação familiar com Vorcaro. O empresário também teve participação no financiamento eleitoral de candidatos ligados à direita nas eleições de 2022.
Naquele pleito, Zettel figurou como o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro (PL) à Presidência da República e de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo de São Paulo, segundo os dados citados na reportagem.
A divulgação das transferências para a Lagoinha ocorreu dentro do conjunto de documentos relacionados à apuração de operações financeiras associadas a Vorcaro e pessoas de seu entorno. Os relatórios de inteligência financeira detalham fluxos considerados relevantes ou incompatíveis com os parâmetros econômicos informados às instituições financeiras.
Há uma inconsistência cronológica nas informações fornecidas sobre a conta: o material afirma que o relatório abrange movimentações desde dezembro de 2024, mas também informa que a conta bancária teria sido aberta em outubro de 2025. Sem acesso ao documento integral, não é possível determinar se as duas referências tratam da mesma conta ou se uma delas corresponde a outro registro bancário.
⦾ Esquema do Master
Lançada em 2024, a Operação Compliance Zero apura suspeitas de que instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional tenham emitido títulos de crédito fraudulentos. Segundo a investigação, essas empresas teriam registrado operações de crédito inexistentes, simulando empréstimos e outros recebíveis. Depois da aprovação contábil pelo Banco Central, os créditos e títulos de dívida suspeitos eram trocados por outros ativos sem a realização da análise técnica adequada.
O Banco Master captava recursos por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), investimentos de renda fixa com remuneração estabelecida previamente. Esse tipo de aplicação costuma ser considerado seguro porque conta com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A instituição controlada por Daniel Vorcaro oferecia rendimentos muito superiores aos praticados normalmente pelo mercado. Enquanto bancos costumam disponibilizar CDBs remunerados em torno de 100% da taxa de juros de referência, o Master chegou a prometer retornos de até 140%. A estratégia elevava a exposição dos credores ao risco e fazia com que parte de um eventual prejuízo recaísse sobre o FGC.
Nesse modelo, o cliente entrega recursos ao banco e, no vencimento, recebe o dinheiro aplicado acrescido da remuneração contratada. O Master colocou no mercado R$ 50 bilhões em CDBs com taxas superiores às oferecidas por outras instituições, sem demonstrar que dispunha de liquidez suficiente para honrar esses compromissos no futuro.
Para transmitir uma imagem de solidez financeira, o banco teria contabilizado investimentos em ativos que não existiam e adquirido créditos de uma empresa sem condições de quitar suas obrigações. Posteriormente, esses créditos teriam sido vendidos ao BRB, que pagou R$ 12,2 bilhões sem a documentação necessária. As investigações apontam que essa operação contribuiu para reforçar de maneira artificial o caixa do Master.
Fonte: Brasil 247
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