Natasha Niebieskikwiat sustenta que viagem do presidente argentino a São Paulo rompeu protocolos diplomáticos, interferiu na campanha presidencial brasileira e não pode ser comparada à visita de Lula a Cristina Kirchner em 2025
Crédito: Brasil 247 / Dall-E
A jornalista Natasha Niebieskikwiat, especializada em política internacional e colunista do jornal argentino Clarín, afirmou que a viagem do presidente Javier Milei a São Paulo para apoiar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva representa um episódio sem precedentes nas relações entre Brasil e Argentina.
Em publicação nas redes sociais, a jornalista contestou as tentativas de equiparar a visita de Milei ao encontro que Lula manteve com a ex-presidente Cristina Kirchner durante sua prisão domiciliar, em julho de 2025.
Segundo ela, os dois casos ocorreram em contextos completamente distintos.
“Lula visitou Cristina quando a Argentina não estava em campanha eleitoral, ela não era candidata e o encontro aconteceu durante uma viagem oficial para a cúpula do Mercosul”, observou.
⦾ Itamaraty desaconselhou encontro com Cristina
Natasha lembra que, na ocasião, o próprio Itamaraty tratou a visita de Lula como uma atividade privada e chegou a desaconselhá-la, marcando distância institucional do encontro.
Além disso, ressalta que o presidente brasileiro manteve discrição durante a viagem.
Já a passagem de Milei por São Paulo, afirma, teve caráter muito mais oficial. O presidente argentino foi recebido pelo governador Tarcísio de Freitas com honras de chefe de Estado, recebeu a Medalha da Ordem do Ipiranga e contou com a presença de integrantes da diplomacia argentina, entre eles o secretário de Relações Exteriores, Pablo Quirno, e o cônsul-geral em São Paulo, Luis Kreckler.
⦾ Milei coleciona intervenções eleitorais
A jornalista também observa que Milei acumula uma série de intervenções em processos eleitorais de outros países.
Ela recorda que o presidente argentino apoiou Donald Trump nos Estados Unidos, Rodrigo Paz na Bolívia, José Antonio Kast no Chile, Keiko Fujimori no Peru e Abelardo de la Espriella na Colômbia.
Segundo Natasha, Lula desejava a vitória de Sergio Massa nas eleições argentinas de 2023, mas nunca promoveu ataques públicos contra Milei nem realizou gestos semelhantes aos do presidente argentino durante campanhas eleitorais.
Ela acrescenta ainda que campanhas de esquerda e de direita na América do Sul frequentemente compartilham consultores e estratégias, lembrando que setores ligados ao PRO e ao partido A Liberdade Avança também recorreram a especialistas como Fernando Cerimedo e Javier Negre.
⦾ “Brasil joga em outra liga”
Na avaliação da colunista, Lula ocupa hoje um espaço muito mais relevante na geopolítica mundial do que Milei.
Ela observa que o presidente brasileiro mantém interlocução frequente com líderes como Donald Trump e Xi Jinping, enquanto o Brasil exerce um peso internacional muito superior ao da Argentina.
“Brasil joga em outra liga”, resume a jornalista, argumentando que, apesar da importância econômica da Argentina, o país ocupa posição muito menos central nas disputas geopolíticas globais.
⦾ Críticas aos insultos de Milei
Natasha Niebieskikwiat também condena o tom adotado pelo presidente argentino em relação a Lula.
Ela lembra que, mesmo durante períodos de forte tensão política, Alberto Fernández e Jair Bolsonaro nunca chegaram ao nível de agressividade verbal demonstrado por Milei.
Por fim, a jornalista manifesta surpresa com a reação da sociedade argentina diante dos ataques do presidente.
Segundo ela, causa espanto que parte dos argentinos aceite que seu chefe de Estado utilize insultos contra o próprio povo e também contra o presidente de um país vizinho com a importância estratégica, econômica, cultural e afetiva que o Brasil possui para a Argentina. Ela conclui afirmando que esse comportamento reflete uma espécie de “Síndrome de Estocolmo” na política argentina.
Fonte: Brasil 247
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