Movimentação da Entre Investimentos para a Quimicolor consta em denúncia da Operação Carbono Oculto sobre fraude com metanol
A empresa Entre Investimentos, de propriedade do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, efetuou o repasse de R$ 620 mil para a Quimicolor, apontada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) como uma firma fictícia utilizada no esquema de adulteração de combustíveis. De acordo com os promotores, a empresa de fachada servia para ocultar os reais pagadores do metanol que era posteriormente desviado para ser misturado irregularmente em postos de combustíveis, informa o G1.
A movimentação financeira de R$ 620 mil foi detalhada em uma denúncia formalizada pelo Gaeco em 18 de agosto. O mapeamento dos dados foi alcançado após a quebra do sigilo bancário de contas mantidas pela Quimicolor na BK Instituição de Pagamento, entidade investigada no âmbito da Operação Carbono Oculto.
Antônio Carlos Freixo Júnior é o delator que fechou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). Em seus depoimentos à PGR, Freixo confessou ter movimentado aproximadamente R$ 1,3 bilhão, entre os anos de 2020 e 2025, com o objetivo de gerar recursos em espécie para Daniel Vorcaro, proprietário do extinto Banco Master.
Segundo as declarações do colaborador, o dinheiro vivo era entregue pessoalmente a Vorcaro, ao seu cunhado, Fabiano Zettel, ou a motoristas vinculados a ambos. Os repasses ocorriam por meio de malas carregadas com valores que variavam entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão em cada entrega.
Apesar de detalhar a transferência, a denúncia do MPSP não esclarece a data em que os repasses da Entre Investimentos à Quimicolor foram efetuados, quem formalizou o pedido ou qual transação comercial justificaria a movimentação dos R$ 620 mil. A peça acusatória também não estabelece nexo direto entre essa transferência específica e os esquemas confessados por Freixo no acordo com a PGR. Tanto o empresário quanto a Entre Investimentos não figuram como denunciados na ação penal sobre a fraude do metanol.
⦿ A estrutura de fachada e o desvio do metanol
Segundo os dados apresentados pelo MPSP, a Quimicolor movimentou um total de R$ 25,84 milhões por meio de sua conta na BK Instituição de Pagamento. A Entre Investimentos aparece listada na apuração como uma das fontes dos recursos remetidos à empresa. O Ministério Público aponta que o montante acumulado na conta da Quimicolor tinha origens diversas, incluindo transferências feitas por postos de combustíveis, lojas de conveniência, empresas de transporte, companhias sob investigação e outras pessoas jurídicas de fachada criadas especificamente para encobrir a identidade dos compradores do metanol.
A Quimicolor, cadastrada oficialmente no município de Atílio Vivácqua, no Espírito Santo, teve suas atividades encerradas em 2025. O Gaeco apurou que o quadro societário da empresa esteve registrado sucessivamente em nome de dois moradores de Osasco, na Grande São Paulo, sem qualquer vínculo comercial com o estado capixaba ou capacidade financeira para gerir o empreendimento. Um dos sócios formais atuava como operador de máquinas, recebendo salário de R$ 2,7 mil, enquanto o outro possuía histórico profissional como servente de obras e trabalhador de manutenção.
Para os promotores do Gaeco, a dupla atuava como grupo de “laranjas” para beneficiar Admar de Carvalho Martins, conhecido como Dema, além de outros integrantes da organização criminosa investigada.
Os documentos apontam que, apenas no mês de agosto de 2023, a Quimicolor adquiriu formalmente 1,87 milhão de litros de metanol. Do total recebido, 560.943 litros foram fornecidos pela GPC Química e 1.309.635 litros pela Quantiq Distribuidora. O produto, contudo, jamais era entregue no endereço fiscal da empresa no Espírito Santo; a carga era desviada para postos de combustíveis localizados majoritariamente na Grande São Paulo, onde era incorporada ilicitamente à gasolina e ao etanol.
Dos R$ 25,8 milhões movimentados pela Quimicolor por meio da BK, os principais destinatários foram a GPC Química, que recebeu R$ 15,4 milhões, e a Quantiq Distribuidora, que obteve R$ 7,7 milhões. A denúncia anexa ainda capturas de mensagens de aplicativo demonstrando que o CNPJ da Quimicolor era repassado diretamente a compradores para servir de chave Pix na quitação do combustível adulterado.
⦿ Rede de financiamento e desdobramentos da delação
A apuração do MPSP explicita que a Quimicolor integrava um núcleo do esquema do metanol sob o comando de Admar de Carvalho Martins (Dema) e Everton Felipe de Barros, conhecido como Soró. A empresa não era vinculada diretamente a Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, ou a Mohamad Hussein Mourad, o Primo.
Beto Louco foi denunciado por atuar no financiamento da estrutura criminosa por meio de suas empresas, com destaque para a Aster Petróleo. Segundo o Gaeco, a Aster repassou R$ 88 milhões para a Ipê Combustível, outra firma de fachada utilizada na aquisição de metanol. A promotoria destaca que o grupo responsável pela gestão do metanol operava como uma célula autônoma, cabendo a Beto Louco o papel de financiador do esquema.
Mohamad Hussein Mourad não foi incluído nesta denúncia. No entanto, o Ministério Público destaca que investigações anteriores apontam para a atuação conjunta entre ele e Beto Louco no controle das distribuidoras Copape e Aster, comandando uma organização criminosa no setor de combustíveis associada ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Paralelamente, a delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior encaminhada pela PGR ao Supremo Tribunal Federal (STF) revela o modus operandi da geração de dinheiro vivo para a cúpula do extinto Banco Master. Freixo relatou que os pedidos de dinheiro em espécie eram feitos por Vorcaro e Zettel. Após ser acionado, o empresário transferia recursos para empresas indicadas por operadores, que obtinham o montante em espécie através de intermediários situados no setor de combustíveis e na região do Brás, no centro da capital paulista.
As operações eram simuladas por meio de contratos de empréstimo (mútuo) celebrados com a Entre Investimentos. Pelo serviço, Freixo declarou que retinha 1% dos valores movimentados, cabendo 4% aos operadores. Para comprovar suas declarações no acordo assinado em 8 de agosto — que aguarda homologação do ministro André Mendonça —, o colaborador entregou à PGR contratos, extratos bancários, planilhas, diálogos via aplicativo, vídeos do manuseio de dinheiro e comprovantes de compra das malas utilizadas nos transportes.
Procurados pelo G1 para manifestação sobre as revelações e a denúncia do Ministério Público, Freixo, a Entre Investimentos e a defesa dos responsáveis pela Quimicolor não haviam emitido posicionamento até o fechamento da reportagem. O advogado de Freixo, Marco Petrelluzzi, declarou que não pode fornecer comentários sobre a delação em razão do sigilo imposto ao acordo.
Fonte: Brasil 247 com informações do G1
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