domingo, 19 de julho de 2026

O inquérito sobre a morte de Jango nunca foi encerrado e a busca por verdade desafia o tempo, diz João Vicente Goulart

Em entrevista ao programa Cessar-Fogo, da TV 247, filho do ex-presidente detalha a reabertura de investigações no MPF, os bastidores da resistência trabalhista ao lado de Getúlio Vargas e as costuras históricas da Frente Ampla contra a ditadura militar

João Goulart Filho: os autores do golpe de 64 e 2016 são semelhantes
Crédito: Brasil247

Meio século após o desaparecimento de uma das figuras mais emblemáticas da história republicana brasileira, a busca por respostas sobre as reais circunstâncias da morte do ex-presidente João Goulart ganha um novo e contundente capítulo. Em entrevista concedida ao jornalista Alex Solnik, no programa Cessar-Fogo, da TV 247, João Vicente Goulart (João Goulart Filho) revelou em primeira mão que o inquérito conduzido pelo Ministério Público Federal (MPF) sobre o suposto assassinato de seu pai permanece aberto e sob nova condução no Rio Grande do Sul.

Escritor, poeta e um dos fundadores do PDT, João Vicente trouxe à tona detalhes dos bastidores institucionais, a complexidade da Operação Condor no Cone Sul e defendeu o legado de pacificação nacional de Jango.

A Trincheira Contra o Tempo: O Inquérito no MPF

A morte de João Goulart, oficialmente registrada como ataque cardíaco em 6 de dezembro de 1976, na Argentina, sempre foi cercada de desconfianças e indícios de envenenamento por agentes da repressão. Embora a exumação realizada em 2013 tenha apresentado um resultado quimicamente inconclusivo devido à degradação temporal, o avanço do caso no âmbito jurídico não parou.

Segundo João Vicente, o inquérito ganhou um novo fôlego com a designação de um novo procurador da República no Rio Grande do Sul, além do suporte político da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, presidida pela deputada Alice Portugal.

“Nós tivemos uma reunião há dois dias atrás […] O inquérito do Ministério Público Federal sobre a morte de Jango nunca foi encerrado. O procurador assumiu recentemente o inquérito e nós já tivemos duas audiências com ele. […] Nós estamos vendo como vamos agir diante desses novos fatos que estão surgindo, porque temos certeza que em nível de governo isso não funciona.

O grande entrave para o desfecho do caso, aponta o entrevistado, reside na falta de reciprocidade internacional, especialmente por parte do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Em 2016, uma cooperação oficial foi enviada a Washington via Itamaraty para ouvir testemunhas-chave, incluindo ex-agentes da CIA e o próprio Henry Kissinger (falecido recentemente), mas as autoridades americanas jamais responderam.



Da Estância em São Borja ao Ministério do Trabalho

Além das investigações, João Vicente rememorou a ascensão meteórica de Jango, cuja trajetória confunde-se com os momentos mais dramáticos do trabalhismo brasileiro. A proximidade com Getúlio Vargas nasceu na lida de campo, em São Borja, quando o Coronel Vicente Goulart (avô do entrevistado) apresentou o jovem “Janguinho” ao líder da Revolução de 30.

Ao assumir o Ministério do Trabalho em 1952, no segundo governo Vargas, Jango transformou a pasta em uma trincheira popular, batendo de frente com a elite civil e militar da época ao propor o histórico reajuste de 100% no salário mínimo — medida necessária para reverter o forte arrocho salarial herdado do governo Dutra.

A ousadia social de Jango acendeu o estopim da reação conservadora, materializada no chamado “Manifesto dos Coronéis” em 1954, assinado por militares que, dez anos mais tarde, comandariam o golpe de Estado de 1964, como Golbery do Couto e Silva. Para resguardar o presidente Vargas da crise iminente, Jango entregou o cargo, mas viu suas teses vitoriosas quando Getúlio outorgou o aumento no dia 1º de maio daquele ano.

O Vice-Presidente Mais Votado da História

Nas eleições de 1955, consolidando a histórica aliança entre o PSD e o PTB, João Goulart foi eleito vice-presidente na chapa de Juscelino Kubitschek. João Vicente fez questão de ressaltar a relevância política e a força eleitoral autônoma que seu pai possuía no cenário nacional, desmistificando a ideia de que o vice-presidente operava na sombra do titular.

“O Jango foi candidato a vice-presidente e foi eleito com mais votos que o próprio Juscelino. Naquela época se votava para presidente separadamente do vice-presidente. O Jango teve 3 milhões e meio de votos e o Juscelino 3 milhões de votos. […] E o vice-presidente era o presidente do Senado, não era uma figura decorativa como é hoje.”

A Frente Ampla: Aliança com Antigos Algozes pela Democracia

Um dos episódios mais complexos e pedagógicos da resistência à ditadura militar narrados na entrevista foi a articulação da Frente Ampla, em 1966. Já cassado e no exílio, Jango aceitou sentar-se à mesa com Juscelino Kubitschek e seu mais ferrenho adversário histórico, Carlos Lacerda, o articulador civil do golpe de 64 que também acabara traído e escanteado pelos generais.

A decisão provocou um racha familiar e político profundo com seu cunhado, Leonel Brizola, que defendia a preparação imediata para a resistência armada e considerava a aproximação com Lacerda uma ofensa à memória de Getúlio Vargas.

Jango, no entanto, tinha clareza de que as Forças Armadas controlavam o aparato estatal de forma violenta e contavam com o suporte estratégico da Quarta Frota dos EUA na costa brasileira. Para ele, empurrar militantes e trabalhadores para um confronto de guerrilha seria assinar uma sentença de morte coletiva.

João Vicente relembrou a metáfora utilizada por seu pai para justificar a união pragmática com Lacerda em solo estrangeiro:

“O pai argumentava: ‘Olha, por que você fez a Frente Ampla?’ Eu digo: ‘Olha, nós estamos lutando contra uma ditadura muito violenta. Nós estamos só com um revólverzinho 38. Aí vem o Lacerda, entra na trincheira e diz: vamos lutar juntos com uma metralhadora’. Era uma opção política que nos restava na época. E ele inclusive disse para o Lacerda: ‘Olha, vamos lutar pela democracia. Depois, se nós sairmos vitoriosos, nós vamos discutir as nossas diferenças’.”

As Duas Grandes Vitórias Históricas de Jango

Ao fazer um balanço do papel de João Goulart na história do Brasil, João Vicente rebateu as críticas de setores que, no passado, rotularam a decisão de Jango de não resistir militarmente em 1964 como “fraqueza”. Para o filho do ex-presidente, o tempo encarregou-se de provar que a renúncia ao confronto armado foi, na verdade, um ato supremo de grandeza humanitária e estadista.

Ao optar pelo exílio em vez de conclamar o país às armas, Jango evitou o derramamento de sangue inocente e garantiu que o Brasil não seguisse os passos divisórios de outras nações conflagradas pela Guerra Fria.

“A renúncia dele outorgou a ele na história duas grandes vitórias: primeiro, não permitir uma guerra civil no Brasil, que possivelmente viria; e segundo, a integridade territorial do Brasil. Porque uma luta fratricida entre brasileiros poderia conduzir ao que os americanos queriam, como tinham feito no Vietnã, na Alemanha, na Coreia… dividir o Brasil em dois: Brasil do Norte e Brasil do Sul. Então, eu acho que ele tem duas grandes vitórias na trajetória histórica.”

A entrevista na TV 247 reforça que, passados 50 anos, os arquivos fechados e as lacunas institucionais do Estado brasileiro continuam sob o escrutínio de quem não aceita o silêncio como veredicto. Para a família Goulart e para a memória do trabalhismo, a busca pela verdade permanece como uma missão inacabada.

Fonte: Brasil 247

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