Integrantes da Corte Eleitoral veem falha diplomática em veto a emissários de Trump, enquanto diplomacia agiu para barrar ofensiva contra a democracia brasileira
Samuel Samson e Riley Barnes (Crédito: Divulgação/Departamento de Estado dos Estados Unidos)
Uma ala do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) avalia que o governo do presidente Lula (PT) cometeu um equívoco diplomático ao negar vistos de entrada a dois funcionários do governo dos Estados Unidos, em uma decisão do Itamaraty que visou proteger a integridade do sistema eleitoral brasileiro contra tentativas externas de desestabilização, relata Malu Gaspar no jornal O Globo.
Ministros da Corte Eleitoral passaram a criticar reservadamente a medida da diplomacia brasileira. Três magistrados sustentam que a administração federal adotou uma solução “muito ruim diplomaticamente”, alegando que a decisão teria elevado a tensão nas relações entre Brasília e Washington a menos de três meses das eleições.
No entanto, a ação preventiva do governo federal ocorreu após a revelação feita pelo jornal The Washington Post de que os enviados vetados pelo Itamaraty — Riley M. Barnes e Samuel D. Samson, integrantes do Departamento de Estado dos EUA — foram destacados pelo governo de Donald Trump com a missão de questionar publicamente a integridade das urnas eletrônicas brasileiras. Oficialmente, a comitiva norte-americana tentava se credenciar sob o pretexto de discutir “liberdade de expressão”.
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, o indeferimento dos vistos foi efetuado no último dia 24, antes mesmo da publicação da reportagem do periódico norte-americano. A comitiva do governo Trump planejava cumprir agenda no país entre os dias 27 e 30 de julho, prevendo reuniões com autoridades, lideranças religiosas e setores da sociedade civil.
Apesar da gravidade do enredo de ingerência, ministros do TSE preferiram direcionar suas preocupações ao formalismo diplomático, defendendo que o país deveria ter mantido as portas abertas aos enviados norte-americanos. “O melhor mecanismo é a transparência e o diálogo. São autoridades de um país importante, se quiserem conversar conosco, qual o problema disso?”, questionou um ministro. Minimizando o histórico de ataques infundados ao sistema de votação, o magistrado completou: “Se o governo dos Estados Unidos tem alguma dúvida, o certo é deixar eles virem, para esclarecermos, até porque podemos responder de forma técnica. A decisão do Itamaraty gera desconfiança e desconforto, ao invés de ajudar”.
No entorno do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, a avaliação também relativizou as intenções da comitiva de Donald Trump, mantendo dúvidas sobre se os representantes viriam com a missão deliberada de colocar em xeque o sistema eletrônico ou apenas para solicitar informações de rotina.
Por outro lado, fontes do Itamaraty rebatem a visão ingênua de ala do tribunal e sustentam que havia elementos concretos demonstrando que a missão norte-americana buscava disseminar desinformação sobre as urnas e provocar instabilidade institucional no Brasil, reproduzindo a mesma estratégia de contestação eleitoral adotada por Trump nos Estados Unidos.
“A decisão seguiu elementos muito sólidos, de defesa do sistema brasileiro como um todo”, ressaltou um integrante do governo Lula ouvido reservadamente. “Havia informações seguras sobre o objetivo do Departamento de Estado e por isso se decidiu por esse caminho”.
O sistema eletrônico de votação, utilizado no Brasil desde as eleições municipais de 1996, acumula 30 anos de invulnerabilidade confirmada. Jamais foi comprovada qualquer fraude no modelo brasileiro, a despeito das recorrentes acusações sem provas promovidas pela extrema-direita bolsonarista.
Mesmo diante da firmeza do Executivo em barrar narrativas golpistas, o presidente do TSE marcou para o próximo dia 17 uma nova reunião com embaixadores estrangeiros na tentativa de demonstrar o funcionamento das urnas. Nunes Marques já havia promovido um encontro similar no mês passado com 25 diplomatas na sede do tribunal, ocasião em que o governo dos Estados Unidos optou por não enviar nenhum representante.
O movimento do TSE repete o gesto feito em 2022 pelo então presidente da Corte, ministro Edson Fachin, que buscou apoio internacional para blindar as instituições diante dos ataques de Jair Bolsonaro (PL), que ameaçava não reconhecer o resultado do pleito.
Caso decidam enviar representantes à reunião do dia 17, os Estados Unidos poderão ser chefiados por Kimberly Kelly, que responde interinamente pela embaixada. Já o indicado de Donald Trump para ocupar o posto de embaixador no Brasil, o deputado estadual da Flórida Daniel Perez, teve seu nome aprovado no último dia 22 pelo Comitê de Relações Exteriores do Senado americano por 13 votos a 8, mas ainda aguarda a apreciação no plenário do Congresso dos EUA. Em sua sabatina, Perez afirmou que suas prioridades serão “a proteção dos cidadãos americanos no Brasil, o avanço de nossos interesses nacionais em comércio e investimento, o combate ao tráfico de drogas e ao crime transnacional, e a construção de parcerias resilientes”.
Procurado, o TSE informou que a área internacional da Corte foi contatada pela Embaixada dos Estados Unidos para tratar da visita dos funcionários, mas argumentou que a pauta não foi detalhada e que o encontro não foi agendado devido ao recesso do Judiciário. O Itamaraty optou por não comentar as críticas feitas pelos ministros do TSE. A Embaixada dos EUA em Brasília não confirmou presença na reunião do tribunal e não se manifestou sobre a recusa dos vistos dos integrantes do Departamento de Estado.
Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo
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