Mudança de estratégia ocorre em meio à pressão das pesquisas e reacende dúvidas sobre capacidade de ampliar alianças para 2026
Crédito: Lula Marques/Agência Brasil
Pressionado pelo desempenho nas pesquisas e por sucessivos desgastes enfrentados durante a pré-campanha presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a adotar um discurso mais combativo, retomando bandeiras e estratégias que marcaram a trajetória política de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A guinada, segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo, tem provocado preocupação entre lideranças do Centrão, que veem o movimento como um obstáculo à ampliação da base de apoio da candidatura.
Dirigentes de partidos como União Brasil, PP e Republicanos avaliam reservadamente que a recente postura do senador, especialmente após declarações sobre o sistema eleitoral brasileiro, reforçou dúvidas sobre sua capacidade de construir alianças além do núcleo mais fiel do bolsonarismo.
A mudança de tom se tornou mais evidente nas críticas às urnas eletrônicas, nos novos ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao ministro Alexandre de Moraes, na retomada de pautas associadas ao governo Bolsonaro e na adoção de formatos de comunicação inspirados nas transmissões semanais realizadas pelo ex-presidente durante seu mandato.
O episódio que mais repercutiu ocorreu durante um encontro de Flávio Bolsonaro com representantes diplomáticos estrangeiros. Na ocasião, o senador voltou a defender maior fiscalização internacional do processo eleitoral e mencionou alegações sobre as urnas eletrônicas. Segundo integrantes do Centrão ouvidos por O Globo, a iniciativa aproximou ainda mais o senador da retórica adotada por Jair Bolsonaro em 2022 e aumentou as resistências entre potenciais aliados.
Após a repercussão, a pré-campanha divulgou uma nota assinada por Flávio Bolsonaro, pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da campanha, e pela coordenadora jurídica Maria Claudia Bucchianeri. O documento afirma que, durante o encontro com diplomatas, o pré-candidato “se limitou a relatar dois fatos públicos e amplamente divulgados pela imprensa” e nega que ele tenha colocado em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
A nova postura representa uma mudança em relação à estratégia inicialmente desenhada pela campanha. Desde que foi escolhido pelo PL para disputar o Palácio do Planalto, em dezembro do ano passado, aliados buscavam construir uma imagem de Flávio como um candidato menos confrontador que Jair Bolsonaro, preservando as principais bandeiras do bolsonarismo, mas evitando conflitos institucionais considerados prejudiciais à formação de alianças.
Nos bastidores, integrantes da campanha chegaram a definir o senador como um “Bolsonaro mais moderado”. A expectativa era facilitar negociações com partidos do Centrão, ampliar o tempo de propaganda eleitoral e conquistar eleitores independentes, considerados decisivos para o resultado da disputa presidencial.
Essa estratégia também se refletiu na atuação pública do senador durante os primeiros meses da pré-campanha. Nesse período, Flávio reduziu críticas ao STF e a Alexandre de Moraes, priorizando agendas voltadas à apresentação de propostas e evitando reproduzir os principais embates protagonizados por seu pai contra o Judiciário.
Segundo a reportagem, a mudança começou após a crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e o financiamento do filme Dark Horse. A repercussão do caso, somada às dificuldades registradas nas pesquisas e às turbulências provocadas pelo rompimento público com Michelle Bolsonaro, levou parte da equipe a concluir que seria necessário fortalecer novamente a identificação com o eleitorado bolsonarista antes de buscar novos segmentos do eleitorado.
O diagnóstico predominante passou a ser o de que a candidatura corria o risco de perder apoio dentro de sua própria base sem conseguir avançar entre eleitores moderados. Ainda assim, o entendimento não é consensual entre os aliados do senador, já que parte do entorno continua defendendo uma estratégia menos radical.
A reaproximação com o estilo político de Jair Bolsonaro também passou a aparecer de forma mais intensa nas redes sociais. Vídeos do ex-presidente voltaram a ser divulgados com frequência pelos canais de Flávio, jingles passaram a destacar de maneira mais explícita o legado do pai e eventos da pré-campanha passaram a reproduzir cenas tradicionais do bolsonarismo, como recepções organizadas por apoiadores em aeroportos e gritos de “mito”, que haviam perdido espaço nos primeiros meses da campanha.
Outro elemento incorporado foi a realização de transmissões ao vivo para responder a crises políticas e falar diretamente com apoiadores. Em uma dessas lives, realizada após decisão de Alexandre de Moraes que restringiu por 90 dias as visitas de Flávio ao pai, o senador apareceu em uma sacada no Rio de Janeiro tendo apenas uma bandeira do Brasil ao fundo. O formato foi posteriormente repetido em uma transmissão ao lado da economista Daniella Marques, cotada para compor a chapa como candidata a vice-presidente.
A mudança de comunicação foi acompanhada pelo endurecimento das declarações públicas. Flávio voltou a intensificar críticas ao STF, retomou referências nominais a Alexandre de Moraes e passou a afirmar que o ministro poderia influenciar o equilíbrio da disputa eleitoral por meio dos inquéritos sob sua relatoria, resgatando argumentos que haviam sido deixados em segundo plano no início da pré-campanha.
Segundo integrantes da ala mais moderada do próprio bolsonarismo ouvidos reservadamente por O Globo, o senador abandonou a imagem construída nos primeiros meses da campanha e passou novamente a reproduzir o comportamento político do pai. Um aliado resumiu a avaliação afirmando que “esse não era o candidato” apresentado no lançamento da pré-campanha.
Apesar dessa percepção, integrantes da campanha negam que exista uma orientação formal para radicalizar o discurso. De acordo com interlocutores, o endurecimento seria uma iniciativa pessoal de Flávio Bolsonaro, motivada por sua reação às decisões judiciais envolvendo Jair Bolsonaro e à atuação de Alexandre de Moraes. Outro integrante da equipe afirmou ao jornal que não houve alteração na estratégia geral e que o tom adotado pelo senador varia conforme o contexto político.
Ao mesmo tempo em que reforça sua identificação com o ex-presidente, a campanha procura preservar iniciativas voltadas à ampliação do eleitorado. O principal exemplo é o programa Brasil por Elas, lançado após a crise envolvendo Michelle Bolsonaro. Entre as propostas apresentadas estão a redução da fila por vagas em creches, a criação de um benefício para mães que não conseguem matricular seus filhos, a ampliação do acesso à internet, o desenvolvimento de uma ferramenta de inteligência artificial voltada à orientação de mulheres em temas como saúde e segurança, o incentivo ao empreendedorismo feminino e o fortalecimento de políticas públicas de cuidado.
Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo
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