terça-feira, 1 de setembro de 2026

A briga entre Mendonça e Moraes que quase chegou às vias de fato


      Os ministros do STF André Mendonça e Alexandre de Moraes Foto: Reprodução

Os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), teriam protagonizado uma discussão acalorada depois que uma investigação sob relatoria de Mendonça identificou Moraes como interlocutor do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O encontro, segundo o Metrópoles, ocorreu após Moraes pedir uma conversa com o colega na segunda (31).

O diálogo entre os dois ministros teria evoluído para um bate-boca e quase terminado em agressões físicas. Moraes questionou Mendonça pelo aprofundamento das apurações que levaram a Polícia Federal a esclarecer a identidade de uma pessoa mencionada em conversas de Vorcaro.

Na conversa, Vorcaro teria pedido a Moraes “proteção” do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. A Polícia Federal apurou que Moraes era o interlocutor do empresário.

Durante a discussão, Mendonça quis saber como Moraes tomou conhecimento da investigação sigilosa. Moraes disse que tinha suas fontes e acusou o colega de direcionar a apuração contra ele.

As regras do STF exigem concordância de todos os ministros da Corte para investigar um integrante do tribunal. A exigência coloca o episódio sob análise dos demais membros do Supremo caso surjam medidas formais relacionadas à apuração.

Após o desentendimento, Moraes passou a reunir elementos para reagir a Mendonça.

Vazamentos a granel

O ministro André Mendonça tornou públicos nesta terça-feira (1º) os detalhes da investigação da Polícia Federal que expõe a relação entre Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O material reúne informações sobre contratos milionários firmados entre o banco e o escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes. Segundo a PF, há indícios de participação direta do ministro nas negociações.

O primeiro contrato foi negociado em janeiro de 2024. No dia 11 daquele mês, Viviane enviou a Vorcaro uma minuta de prestação de serviços advocatícios. A análise dos metadados feita pelos investigadores mostrou que a última alteração do documento havia sido realizada por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

Para a PF, o registro indica que Moraes não apenas tinha conhecimento do contrato, mas também teria interferido diretamente na negociação.

Dias depois, Viviane enviou uma nova versão do documento ao banqueiro. Mais uma vez, os metadados apontaram para a participação de Moraes: a última modificação havia sido feita pelo usuário “Ministro Alexandre de Moraes”, em 15 de janeiro de 2024, às 23h04.

O contrato acabou assinado em 23 de janeiro. Ele previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões, totalizando R$ 108 milhões.

Contato de Moraes foi repassado por Fábio Faria

A investigação também identificou que Daniel Vorcaro mantinha o número de Alexandre de Moraes salvo em seu celular com quatro identificações diferentes: “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”.

Segundo a PF, os contatos foram enviados a Vorcaro por Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro, em 26 de dezembro de 2023, pelo WhatsApp.

As mensagens indicam que Faria teria feito a ponte entre o banqueiro e o ministro do STF. No dia seguinte ao envio do contato, os dois conversaram sobre um almoço de Moraes em um dos imóveis de Vorcaro, em Campos do Jordão.

Em outra mensagem, Faria escreveu a Vorcaro: “Fala pra Patroa aí que o Careca confirmou o jantar com a gente no dia 02/02. Os 3 casais”. Segundo a PF, “Careca” seria uma referência a Alexandre de Moraes.

As conversas ocorreram enquanto Vorcaro negociava com Viviane o contrato milionário entre o Banco Master e o escritório.

Em 15 de janeiro de 2024, Faria perguntou a Vorcaro se ele havia respondido a Viviane. O banqueiro respondeu perguntando se o acordo seria fechado por três anos. Faria afirmou que seria por quatro, mas disse que poderia ser reduzido para três anos.

Quatro horas depois, Vorcaro enviou ao advogado Leonardo Palhares, do Banco Master, uma minuta com alterações no contrato.

Dois dias depois, Viviane enviou a versão final. Mais uma vez, os metadados apontaram que a última alteração havia sido realizada por Alexandre de Moraes.

O escritório Barci de Moraes afirmou que o ministro analisou o contrato a pedido do setor de compliance, para verificar a existência de eventuais impedimentos legais. Segundo a nota, não havia impedimento porque Moraes jamais havia julgado causa envolvendo o Banco Master.

Vorcaro tratava pagamento a escritório de Moraes como prioridade

As mensagens analisadas pela PF também mostram que os pagamentos ao escritório Barci de Moraes recebiam tratamento prioritário dentro do Banco Master.

Segundo a investigação, Vorcaro afirmou a funcionários que o pagamento “não pode atrasar um dia” e era “o pgto mais importante que temos”.

Os valores brutos das parcelas chegavam a R$ 3.422.268,14, considerando os tributos. Ao orientar funcionários sobre a quitação, Vorcaro autorizou que o pagamento fosse realizado “sem nota” e “do jeito que for”.

Em outubro de 2025, o banqueiro também pediu que os pagamentos não fossem feitos por Pix. “Não é bom”, escreveu, sem explicar o motivo.

Outro elemento identificado pela PF foi a ativação, em setembro de 2025, da função de exclusão automática de mensagens após 24 horas na conversa entre Vorcaro e o contato “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
O PGR Paulo Gonet

PF também investiga contatos com Paulo Gonet

O relatório tornado público por Mendonça também registra menções ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

A PF informou que Vorcaro não tinha o contato direto de Gonet, mas identificou comunicações entre os dois por meio de terceiros.

Em março de 2025, o advogado Ciro Soares enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado de Gonet e, na sequência, escreveu: “Liga aqui” e “Ele quer falar com vc”.

Depois disso, foram registradas quatro chamadas entre o telefone do advogado e o banqueiro.

Dias mais tarde, Soares repassou a Vorcaro mensagens atribuídas a Gonet, incluindo uma manifestação de apoio e um convite para uma viagem a Londres.

Vorcaro organizava naquele período a segunda edição de um fórum jurídico em Londres, financiado pelo Banco Master. O evento acabou cancelado.

Segundo a PF, despesas de Pedro Gonet e Ciro Soares estavam entre as aprovadas por Vorcaro para o evento. Procurado, Soares afirmou que não havia ilegalidade em convidar empresários, advogados, administradores e palestrantes para seminários e ressaltou que o evento não chegou a acontecer.

Vorcaro teria pedido ajuda a Moraes para conter investigação

Um dos pontos mais sensíveis do relatório envolve as mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes.

Segundo a PF, Vorcaro escrevia os textos no bloco de notas do celular, fazia uma captura de tela e enviava as imagens pelo WhatsApp como mensagens de visualização única. Moraes, de acordo com a investigação, utilizava o mesmo método.

As conversas propriamente ditas não foram recuperadas, mas as anotações permitiram aos investigadores reconstruir parte das comunicações.

O primeiro pedido identificado para que Moraes atuasse diante do avanço das investigações ocorreu em 30 de outubro de 2025.

Em uma das mensagens, Vorcaro afirmou ser importante reforçar com Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República, a orientação para que ninguém “de baixo” — em referência a delegados e procuradores — fizesse “uma sacanagem” contra o Banco Master.

Em 16 de novembro, um dia antes de ser preso pela primeira vez, Vorcaro perguntou a Moraes se Andrei Rodrigues poderia adiar o cumprimento das medidas cautelares.

“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, escreveu o banqueiro.

Em outra conversa, Vorcaro questionou Moraes sobre a gravidade das medidas que poderiam ser adotadas contra ele. Perguntou se o cenário “médio a grave” envolveria busca e apreensão ou quebra de sigilo e se haveria alguma medida capaz de bloquear seus bens.

Dois dias antes de ser preso, o banqueiro também consultou Moraes sobre a possibilidade de deixar o Brasil.

“Acha que segunda tenho que estar fora?”, perguntou.

Segundo os investigadores, o conjunto das mensagens sugere que Moraes teria repassado a Vorcaro informações sensíveis sobre o andamento inicial da Operação Compliance Zero, incluindo datas e horários de diligências planejadas pela Polícia Federal.

O material agora tornado público por André Mendonça coloca sob escrutínio a relação entre o ministro do STF, sua esposa e o dono do Banco Master, além das comunicações mantidas entre Vorcaro e integrantes das instituições responsáveis pela investigação.

Fonte: DCM com informações do Metrópoles

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