Fernando Cerimedo, que difundiu alegações falsas contra o sistema eleitoral após a derrota de Jair Bolsonaro em 2022, é acusado de ser o autor intelectual do ataque a tiros contra a ex-companheira Nadia Beller
Fernando Cerimedo, Jair Bolsonaro e PL - Crédito: Reprodução | REUTERS/Ueslei Marcelino
O consultor político argentino Fernando Cerimedo, conhecido no Brasil por sua proximidade com a família Bolsonaro e pela divulgação de alegações falsas contra as urnas eletrônicas após a eleição presidencial de 2022, está preso na Bolívia, acusado de tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira, a advogada Nadia Beller. Cerimedo foi detido no aeroporto internacional de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, quando tentava embarcar para Buenos Aires, e se recusou a prestar depoimento às autoridades bolivianas.
Cerimedo é apontado pelas autoridades como possível autor intelectual do ataque a tiros contra Beller, que sobreviveu após ser atingida por três disparos em uma emboscada na entrada de um hotel em Santa Cruz de la Sierra. O caso está sendo investigado como tentativa de feminicídio, e as autoridades procuram identificar tanto os responsáveis materiais pelo crime quanto outros possíveis envolvidos.
A prisão do argentino chama atenção também por seu histórico político no Brasil. Após a derrota de Jair Bolsonaro para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, Cerimedo teve papel de destaque na disseminação de acusações sem fundamento contra o sistema eleitoral brasileiro. Suas alegações sobre supostas irregularidades nas urnas foram posteriormente desmentidas por especialistas e por verificações independentes. O próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que as auditorias realizadas não encontraram fraude ou inconsistência capaz de colocar em dúvida o resultado da eleição.
⦾ Vítima acusa Cerimedo de mandar os atiradores
Nadia Beller, de 33 anos, responsabilizou diretamente o ex-companheiro pelo atentado.
Segundo seu relato, os homens responsáveis pelo ataque teriam sido enviados por Cerimedo.
“Ele [Cerimedo] me mandou os sicários, ele sabe quem são”, afirmou Beller.
O ataque aconteceu na noite de segunda-feira, quando a advogada estava na entrada de um hotel para participar do que acreditava ser uma reunião de trabalho.
Os criminosos teriam chegado ao local em uma motocicleta e estavam vestidos como entregadores. A aproximação teria sido inicialmente apresentada como uma tentativa de roubo. Durante a ação, porém, Beller foi atingida por três disparos.
Os autores levaram sua carteira e seu telefone e fugiram. Outros suspeitos também teriam deixado o local em outro veículo.
Beller sobreviveu e permanece internada em Santa Cruz de la Sierra. Ao relatar a violência do ataque, disse acreditar que só escapou porque simulou estar morta.
“Se não fingia estar morta, me rematavam”, afirmou.
⦾ Promotoria investiga autoria intelectual
A investigação boliviana não está restrita à identificação dos homens que efetuaram os disparos.
O fiscal Roger Mariaca afirmou que as autoridades procuram estabelecer toda a cadeia de responsabilidades relacionada ao atentado. Cerimedo é investigado sob a suspeita de ter participação intelectual no crime, enquanto a polícia busca identificar e localizar os executores materiais.
A detenção ocorreu no aeroporto de Viru Viru, quando o consultor argentino se preparava para deixar a Bolívia em direção a Buenos Aires.
Após ser levado pelas autoridades, Cerimedo optou por não prestar declarações.
A investigação deverá agora buscar elementos capazes de confirmar ou afastar as acusações feitas pela vítima e estabelecer como o ataque foi planejado e executado.
⦾ Cerimedo atuou contra urnas brasileiras após derrota de Bolsonaro
No Brasil, Fernando Cerimedo tornou-se conhecido principalmente durante a crise política desencadeada após as eleições presidenciais de 2022.
Proprietário do canal argentino La Derecha Diario e apoiador declarado da família Bolsonaro, Cerimedo realizou, em 4 de novembro daquele ano, uma transmissão dedicada a questionar a integridade das urnas eletrônicas brasileiras.
A live apresentou um relatório apócrifo que alegava a existência de supostas anomalias relacionadas a diferentes modelos de urnas. As conclusões foram desmentidas por especialistas e por diferentes iniciativas de verificação.
Uma das alegações difundidas era a de que modelos de urnas anteriores a 2020 não teriam sido adequadamente auditados. A informação era falsa: esses equipamentos haviam sido submetidos aos mecanismos de fiscalização do sistema eleitoral.
Cerimedo também difundiu suspeitas sobre diferenças nos arquivos de registro das urnas, os chamados logs, apresentando-as como possível evidência de irregularidades.
As diferenças apontadas, no entanto, não demonstravam fraude na votação. O sistema responsável pelos registros dos equipamentos não era o aplicativo encarregado da votação, e os modelos utilizados estavam submetidos aos procedimentos de segurança e auditoria da Justiça Eleitoral.
A transmissão alcançou centenas de milhares de espectadores e ganhou grande circulação entre grupos bolsonaristas que contestavam a vitória de Lula.
⦾ Relações com a família Bolsonaro
Cerimedo mantinha relações políticas com integrantes da família Bolsonaro.
Poucas semanas antes do segundo turno da eleição de 2022, ele recebeu Eduardo Bolsonaro em Buenos Aires. Reportagens da época registraram a proximidade do argentino com o então deputado e com o campo político ligado ao ex-presidente.
Depois da eleição, Cerimedo tornou-se uma das referências estrangeiras utilizadas por setores bolsonaristas para alimentar a narrativa de que o sistema eleitoral brasileiro teria apresentado irregularidades.
O relatório apresentado em sua transmissão passou a circular intensamente nas redes bolsonaristas e em grupos que defendiam a reversão do resultado eleitoral.
A repercussão foi tamanha que políticos ligados a Bolsonaro compartilharam ou repercutiram as alegações apresentadas pelo argentino.
Posteriormente, foram identificadas conexões entre arquivos divulgados por Cerimedo e pessoas e empresas relacionadas às análises utilizadas pelo PL para questionar o resultado eleitoral.
O partido de Bolsonaro apresentou ao TSE uma ação pedindo a invalidação dos votos depositados em modelos de urnas anteriores a 2020 no segundo turno. O pedido foi rejeitado pela Justiça Eleitoral.
⦾ Alegações sobre fraude foram desmentidas
As acusações difundidas por Cerimedo não comprovaram fraude no sistema eletrônico brasileiro.
O TSE informou que os testes de integridade realizados nas eleições de 2022 confirmaram o correto funcionamento das urnas. Em todo o país, centenas de equipamentos foram submetidos a procedimentos de auditoria, com acompanhamento de instituições fiscalizadoras.
O relatório produzido pelas próprias Forças Armadas sobre o processo eleitoral também não apontou fraude ou inconsistência na votação.
Mesmo assim, as alegações difundidas depois da derrota de Bolsonaro contribuíram para alimentar o ambiente de contestação ao resultado eleitoral e as mobilizações de apoiadores do ex-presidente.
Cerimedo continuou divulgando conteúdos sobre as urnas durante novembro de 2022, período em que grupos bolsonaristas organizaram manifestações em frente a instalações militares e defenderam medidas para impedir a posse de Lula.
⦾ Consultor ligado à extrema direita latino-americana
A atuação de Cerimedo não ficou restrita ao Brasil. O argentino construiu relações com movimentos e campanhas da direita e da extrema direita na América Latina e tornou-se conhecido pela atuação em comunicação política e redes digitais.
Seu nome também esteve associado ao campo político de Javier Milei, na Argentina, além das conexões construídas com integrantes da família Bolsonaro.
A prisão na Bolívia coloca agora o consultor no centro de uma investigação criminal de extrema gravidade.
As autoridades bolivianas buscam esclarecer se Cerimedo participou do planejamento do atentado contra Nadia Beller, identificar os autores dos disparos e determinar se outras pessoas participaram da operação.
A acusação de autoria intelectual parte da investigação em curso e das declarações da vítima. Caberá às autoridades bolivianas estabelecer as responsabilidades criminais e assegurar a Cerimedo o direito de defesa durante o processo.
Fonte: Brasil 247
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