Petróleo impulsiona saldo histórico, enquanto os carros elétricos chineses provocam o pior déficit automotivo da série. A doença holandesa em estado puro
A balança comercial brasileira fechou junho com um superávit impressionante de US$ 9,8 bilhões, alta de 66% na comparação com o mesmo mês de 2025. As exportações cresceram quase 25% e as importações, 14%. No acumulado do ano, o saldo já soma US$ 42 bilhões — 40% acima do registrado no mesmo período do ano passado —, com exportações de US$ 184 bilhões e importações de US$ 142 bilhões. Uma corrente de comércio robusta, que coloca o país a caminho de um superávit anual de cerca de US$ 90 bilhões, perto do recorde histórico, com vendas externas estimadas em US$ 394 bilhões e compras em US$ 304 bilhões.
O choque do petróleo
O grande destaque do período foi a indústria extrativa, que disparou 58%, puxada pelo petróleo e seus preços. A agropecuária avançou 18% e, vale registrar, a indústria de transformação também foi bem, com alta de 14,7%. O Brasil se consolidou como um grande player global do petróleo: produz hoje mais de 4 milhões de barris por dia. Para dimensionar o salto, em 2001 essa produção era de apenas 1 milhão de barris.
Por destino, a Ásia liderou, com alta de 30% nas exportações, sobretudo para a China. Europa, Canadá, México e América do Sul também registraram forte expansão, acima de 40%. A exceção foram os Estados Unidos: pressionadas pelas tarifas, as vendas brasileiras ao mercado americano cresceram apenas 0,7%.
A invasão dos elétricos chineses
O dado que mais chama atenção, porém, está na balança de automóveis. O setor registrou o pior déficit da sua história: US$ 5,3 bilhões, o maior desde 1997, quando começa a série, com US$ 7,8 bilhões em importações. As exportações caíram 15% na comparação com o ano anterior.
E aqui a China aparece de forma assustadora: 72% dos veículos importados pelo Brasil no período vieram do país asiático. Há um ano, essa fatia era de 50%; em 2021, de apenas 5%. Um retrato de como os chineses vêm conquistando o mercado mundial de carros justamente onde não há tarifas proibitivas — Estados Unidos e Europa aplicam alíquotas de até 100%. Outro número expressivo: 79% dos carros importados são eletrificados, elétricos ou híbridos, revelando uma transformação brutal no comportamento do consumidor brasileiro.
Nem mesmo a tarifa de 35% sobre os elétricos chineses conteve o avanço. A escala de produção da China, o custo unitário baixíssimo e o excesso de capacidade industrial derrubam os preços a um patamar difícil de enfrentar. Fica a ameaça: sem escala na indústria automotiva — um problema histórico do país —, o Brasil corre o risco de se tornar apenas consumidor. Basta observar a batalha que a Alemanha trava contra os veículos elétricos chineses, enquanto os americanos tentam se defender.
O padrão eterno
O resultado deste primeiro semestre é, no fundo, melancólico. De novo, o Brasil aparece com as commodities bombando — o petróleo absoluto na pauta —, enquanto importa uma enxurrada de carros elétricos sofisticados da China. É o que os economistas chamam de doença holandesa: quando o setor de commodities sufoca a indústria. O oposto do que precisaria acontecer para o país se desenvolver.
O superávit caminha para quase US$ 100 bilhões, sim. Mas ele reafirma o padrão de sempre: o paraíso das commodities segue firme, e a transformação produtiva que faria a diferença continua adiada.
Fonte: Brasil 247
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