sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Caso Dark Horse: destino e uso dos R$ 61 milhões de Vorcaro a Flávio Bolsonaro seguem desconhecidos

 Flávio Bolsonaro alega já ter prestado contas sobre o filme, mas perito admite lacunas na análise do rastro do dinheiro

Cartaz do filme Dark Horse- Jair Bolsonaro-Flávio Bolsonaro-Daniel Vorcaro
Crédito: Dark Horse-Flávio Bolsonaro-Jair Bolsoanro (Foto: Divulgação/Jair Bolsonaro/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil/

O responsável técnico pelo laudo pericial do filme Dark Horse, obra cinematográfica sobre a trajetória de Jair Bolsonaro (PL), admitiu em entrevista a Paulo Motoryn, da newsletter Noites Húngaras, que não realizou análises para verificar se os custos da produção são compatíveis com os preços praticados no mercado do cinema, além de reconhecer que o trabalho não permite identificar o destino final do dinheiro repassado aos fornecedores após o recebimento dos valores.


As admissões do perito ocorreram no mesmo dia em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, declarou durante agenda de campanha em São Paulo que não deve mais esclarecimentos sobre os US$ 23 milhões negociados com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Ao ser questionado sobre a cobrança de detalhamento dos gastos do longa-metragem, o parlamentar afirmou que a prestação de contas já havia sido realizada e classificou o assunto como uma “página virada”.

A prestação de contas mencionada por Flávio refere-se a um laudo privado contratado pela defesa da produtora GoUp Entertainment e anexado a um inquérito em andamento na Polícia Civil de São Paulo. O documento acabou sendo divulgado pela imprensa há cerca de dois meses. No entanto, o próprio presidente do Instituto de Perícia Investigativa e autor do laudo, professor Castelo Branco, detalhou as limitações do levantamento.

Rastreamento do dinheiro e limitações da perícia

Castelo Branco afirmou ter reunido comprovantes de que a totalidade dos recursos recebidos pelo fundo Havengate Development LP — sediado no Texas e ligado a Eduardo Bolsonaro — foi repassada à produtora GoUp Entertainment, dos quais US$ 9,6 milhões foram aplicados em despesas nos Estados Unidos. O perito justificou a não apresentação pública de todos os comprovantes anexados como uma medida para preservar o sigilo bancário dos fornecedores envolvidos.

Apesar de confirmar a transferência inicial do fundo para a produtora, o especialista fez duas admissões centrais sobre as lacunas da auditoria privada:

  • Compatibilidade de mercado: A perícia não investigou se os valores cobrados pelas empresas contratadas para a produção do filme Dark Horse condizem com a realidade e a média de preços do mercado cinematográfico audiovisual.
  • Destino posterior do recurso: A análise financeira não possui meios de verificar o uso do dinheiro pelas empresas contratadas após a efetivação dos pagamentos, impossibilitando descartar a hipótese de que parcelas dos recursos tenham sido redirecionadas a terceiros.

Ao ser questionado sobre a ausência de histórico prévio em perícias do setor audiovisual, Castelo Branco sustentou que a formação em administração e contabilidade garante aptidão técnica para auditar empresas de qualquer segmento, seja uma produtora de cinema, um hospital, uma igreja ou um órgão público. Ele ressaltou que sua função se restringiu à verificação contábil e documental do fluxo financeiro direto, sem emitir juízo sobre os montantes.

“A análise que eu fiz foi essa que eu te falei: verificar se houve transferência de dinheiro público, mostrar quanto foram os custos da produção nacional, os custos da produção internacional, mas eu não julgo se os custos são altos ou se são baixos. Tá claro? Não é meu papel”, explicou Castelo Branco, acrescentando que, se tivesse sido contratado especificamente para avaliar a precificação de mercado, buscaria o auxílio de especialistas da área cinematográfica.

Aprofundamento das investigações e intimação da Polícia Federal

A incapacidade de mapear as chamadas “camadas posteriores” dos pagamentos é apontada como um ponto crítico. Uma das hipóteses apuradas pelas autoridades e que chegaram à Polícia Federal é o eventual desvio de parte das verbas para o custeio da permanência de Eduardo Bolsonaro no exterior.

Sobre esse ponto específico, Castelo Branco foi categórico quanto às limitações de seu trabalho: “Não consigo controlar o que acontece da terceira camada para trás”. O perito explicou que a identificação de eventuais repasses a terceiros exigiria uma investigação voltada diretamente aos prestadores de serviço das empresas contratadas.

Enquanto o candidato do PL sustenta publicamente que o caso está encerrado, a apuração oficial avançou. O perito revelou ter recebido um ofício da Polícia Federal com pedido de informações detalhadas sobre as movimentações financeiras da produção. A solicitação da PF engloba comprovantes de transferências bancárias, custos operacionais e o detalhamento das despesas do filme.

Segundo Castelo Branco, a equipe técnica respondeu ao órgão solicitando o esclarecimento do formato exigido para a apresentação dos dados e já trabalha na elaboração de um laudo complementar. Ele confirmou que os registros de transferências do fundo Havengate para a produtora estão entre os documentos requisitados e assegurou que fornecerá a lista completa de beneficiários caso haja determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).

O perito indicou que o custo total mapeado da produção aproxima-se de US$ 13,4 milhões, oriundos em sua imensa maioria do fundo texano. No entanto, o documento disponibilizado até o momento traz apenas números consolidados por categorias, omitindo notas fiscais e a identificação individualizada de todos os fornecedores.

Por fim, Castelo Branco rechaçou qualquer conotação política em sua atuação profissional ou no documento elaborado, afirmando que seu trabalho é estritamente técnico e desvinculado de vertentes partidárias.

Fonte: Brasil 247

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