domingo, 21 de junho de 2026

Como Eduardo Bolsonaro se aproximou de Trump e acabou condenado pelo STF

Aproximação com Donald Trump e aliados da direita americana ampliou a influência internacional de Eduardo Bolsonaro e antecedeu sua condenação pelo STF

         Flávio Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Eduardo Bolsonaro e Donald Trump (Foto: Reprodução)

A construção de uma ampla rede de contatos nos Estados Unidos colocou o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) em posição privilegiada junto a figuras influentes da direita americana, incluindo aliados próximos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Anos depois, essa mesma articulação internacional passou a integrar o contexto que levou à sua condenação pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). As informações foram publicadas originalmente pelo jornal O Estado de S. Paulo.

A trajetória de aproximação com lideranças conservadoras americanas teve início ainda antes da posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República, em 2018. Naquele período, Eduardo participou de uma intensa agenda de reuniões em Washington, Nova York e Flórida, estabelecendo conexões com integrantes do Partido Republicano, ex-integrantes da Casa Branca, parlamentares e formuladores de políticas públicas dos Estados Unidos.

Segundo a reportagem, muitos dos contatos estabelecidos durante aquela viagem permaneceram ativos ao longo dos anos, facilitando o acesso do parlamentar a integrantes do governo Trump e fortalecendo sua presença em eventos ligados à direita conservadora internacional.

☉ Viagem marcou início da aproximação

A viagem ocorreu entre os dias 26 de novembro e 1º de dezembro de 2018 e foi organizada pelo cientista político Márcio Coimbra, que havia atuado durante anos junto ao Partido Republicano. Também participou da missão Filipe Martins, então secretário de Assuntos Internacionais do PSL e futuro assessor especial da Presidência para temas internacionais.

Um dos momentos mais simbólicos da visita aconteceu em Washington, durante o aniversário de 65 anos de Steve Bannon, estrategista da campanha presidencial vitoriosa de Donald Trump em 2016. Na ocasião, diante de dezenas de convidados, Bannon apresentou Eduardo Bolsonaro como representante do grupo internacional de direita The Movement no Brasil.

Foi nesse encontro que Eduardo conheceu Sebastian Gorka, ex-assessor de Trump e figura que posteriormente voltaria a ocupar posição relevante na estrutura de segurança nacional americana. Gorka se tornaria um dos contatos mais próximos do parlamentar brasileiro dentro do círculo conservador dos Estados Unidos.

☉ Reuniões com autoridades americanas

A agenda oficial começou com uma reunião no Departamento de Estado dos Estados Unidos. Durante o encontro com a então subsecretária Kim Breier, o grupo discutiu principalmente a situação política da Venezuela e temas relacionados à influência de Cuba na América Latina.

Nos dias seguintes, Eduardo participou de encontros com representantes do American Enterprise Institute, integrantes do Departamento do Tesouro e autoridades ligadas à Organização dos Estados Americanos (OEA). Em diferentes ocasiões, procurou transmitir a mensagem de que o governo Bolsonaro adotaria uma agenda econômica liberal e uma postura alinhada aos interesses americanos em temas regionais.

A crise política venezuelana apareceu de forma recorrente nas conversas. Segundo o relato do Estadão, interlocutores americanos demonstravam grande interesse em compreender como um futuro governo de direita no Brasil se posicionaria diante do regime de Nicolás Maduro.

☉ Constrangimento na Casa Branca

Um dos episódios mais curiosos da viagem ocorreu durante uma tentativa de reunião na Casa Branca. Eduardo Bolsonaro foi impedido de entrar no complexo presidencial após um erro no preenchimento de seu cadastro de acesso.

De acordo com a reportagem, Filipe Martins teria invertido os campos referentes ao dia e ao mês de nascimento do deputado, provocando inconsistência nos registros. Sem autorização para ingressar no prédio, Eduardo precisou encontrar representantes do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos em uma cafeteria próxima.

O incidente acabou provocando o cancelamento de uma reunião prevista com Jared Kushner, genro de Donald Trump e então conselheiro sênior da Casa Branca. O encontro seria remarcado posteriormente.

☉ Encontros com nomes centrais do Partido Republicano

Após a regularização do credenciamento, Kushner recebeu a delegação brasileira em seu gabinete. Durante a conversa, foi apresentado um convite para que Donald Trump participasse da posse de Jair Bolsonaro em Brasília. A visita, contudo, não chegou a ocorrer.

A agenda também incluiu encontros com figuras que posteriormente assumiriam posições de destaque na política americana. Entre elas estavam Marco Rubio, atual secretário de Estado do governo Trump, além dos senadores Rick Scott e Ted Cruz.

Em Nova York, Eduardo reuniu-se ainda com Rudy Giuliani, ex-prefeito da cidade e aliado histórico de Trump. Segundo a reportagem, o encontro teve como foco políticas de segurança pública e o modelo de combate à criminalidade adotado durante a gestão de Giuliani.

☉ Mar-a-Lago e fortalecimento das conexões

Na etapa final da viagem, Eduardo Bolsonaro participou de um encontro com brasileiros em Mar-a-Lago, resort de luxo pertencente a Donald Trump em Palm Beach, na Flórida.

O evento consolidou a aproximação com setores do conservadorismo americano e abriu caminho para futuras participações em iniciativas ligadas ao movimento trumpista. Nos anos seguintes, Eduardo passou a frequentar eventos como a CPAC, principal conferência da direita conservadora dos Estados Unidos, incluindo versões organizadas no Brasil.

A rede construída ao longo desse período se tornou um dos principais ativos políticos internacionais do parlamentar, permitindo acesso direto a lideranças influentes em Washington.

☉ Condenação no Supremo

A atuação internacional de Eduardo Bolsonaro passou a ser alvo de atenção das autoridades brasileiras em meio às investigações relacionadas aos desdobramentos dos atos antidemocráticos e às acusações envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A Primeira Turma do STF condenou Eduardo a quatro anos e dois meses de reclusão, em regime inicial semiaberto, pelo crime de coação no curso do processo. O entendimento dos ministros foi de que ele atuou para interferir no julgamento da ação penal que envolvia seu pai.

Segundo a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), Eduardo realizou declarações públicas e publicações em redes sociais nas quais afirmou ter buscado apoio junto ao governo dos Estados Unidos para aplicação de sanções contra autoridades brasileiras, incluindo ministros do STF, além de medidas econômicas contra o Brasil.

☉ Impactos políticos e futuro incerto

A condenação também produz efeitos políticos relevantes. Por ter sido condenado por órgão colegiado, Eduardo Bolsonaro tornou-se inelegível desde a data da decisão até oito anos após o cumprimento integral da pena, conforme as regras da Lei da Ficha Limpa.

O parlamentar também perdeu o cargo público de escrivão da Polícia Federal. A decisão afeta diretamente seus planos eleitorais e reduz significativamente suas possibilidades de disputar cargos públicos nos próximos anos.

Com a condenação, o futuro político de Eduardo Bolsonaro entra em uma nova fase, marcada pela necessidade de redefinir estratégias após anos de projeção internacional construída a partir de sua aproximação com setores influentes da direita americana.

Fonte: Brasil 247 com informações publicadas originalmente pelo jornal O Estado de S. Paulo.

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