Documentos apontam que empresa ligada ao senador vendeu propriedade rural no Piauí a offshore dos Emirados Árabes representada por advogado próximo
Uma empresa ligada ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) vendeu uma fazenda avaliada em R$ 18,7 milhões, localizada no município de Pedro II, no Piauí, para uma offshore sediada nos Emirados Árabes Unidos. Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, a operação foi formalizada em março de 2025 e envolve uma companhia criada apenas dois meses antes da aquisição da propriedade.
A compradora é a Arraf International, empresa registrada na zona franca do aeroporto de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos. A região é conhecida por oferecer elevado grau de sigilo corporativo, dificultando a identificação dos proprietários das empresas ali registradas. Pelas características societárias da companhia, sabe-se apenas que ela possui um único controlador, cuja identidade não é pública.
De acordo com a escritura da transação, assinada em 27 de março de 2025, a Arraf International foi representada por Gustavo Frazão. O advogado atua em mais de 20 processos judiciais relacionados à Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, outra empresa vinculada ao senador. Além disso, ele ocupa cargo comissionado na Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas da Prefeitura de Teresina, administrada por Eliane Nogueira Lima, mãe do parlamentar.
⊛ Offshore criada antes da operação
A documentação analisada pela reportagem mostra que a Arraf International foi constituída apenas dois meses antes da compra da fazenda. Seu endereço oficial corresponde a uma caixa postal localizada na zona franca de Sharjah, considerada uma das áreas com menor transparência empresarial dos Emirados Árabes Unidos.
Nesse modelo societário, a legislação local não exige a divulgação dos sócios nem a participação de parceiros locais, permitindo que empresas sejam integralmente controladas por estrangeiros. Com isso, não é possível identificar quem está por trás da offshore que adquiriu a propriedade rural.
A fazenda negociada possui 2.410 hectares, sendo classificada como uma propriedade de médio porte para os padrões do estado do Piauí. O valor registrado na operação foi de R$ 18,7 milhões.
⊛ Resposta de Ciro Nogueira
Procurado pela reportagem, Ciro Nogueira afirmou por meio de sua assessoria que "nem ele nem ninguém da família dele é proprietário de nenhuma empresa fora do Brasil".
O senador também declarou que a Fazendas Reunidas Nogueira Lima pertence à sua mãe, Eliane Nogueira. Entretanto, conforme informações da Polícia Federal citadas pela Folha, documentos das investigações apontariam que Ciro detém 99% do capital social da empresa.
A escritura da venda da fazenda foi assinada em nome da vendedora por Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador. Ele também figura entre os investigados pela Polícia Federal e administra a CNLF, empresa apontada pelos investigadores como receptora de recursos provenientes de operações ligadas ao Banco Master.
⊛ Outras negociações com empresas no exterior
A venda da fazenda não foi o único negócio imobiliário envolvendo empresas sediadas fora do Brasil. Em abril de 2025, a CNLF vendeu um apartamento localizado no bairro Jardim Paulista, em São Paulo, por R$ 6,5 milhões.
O imóvel foi adquirido pela Aliqum Participações, empresa pertencente à offshore Tedax Partners, registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, jurisdição frequentemente classificada como paraíso fiscal. Assim como ocorre com a Arraf International, não há informações públicas que permitam identificar o beneficiário final da Tedax.
Segundo a reportagem, a Aliqum é representada pelo empresário Carlos Santana, descrito como amigo do senador. A operação reforça um padrão de negociações envolvendo empresas vinculadas a Ciro Nogueira e estruturas empresariais registradas no exterior.
⊛ Transações entre empresas ligadas ao senador
Documentos obtidos pela Folha também apontam movimentações patrimoniais entre companhias relacionadas ao senador. Um dos exemplos envolve um apartamento de 134 metros quadrados no bairro Itaim Bibi, em São Paulo.
A Fazendas Reunidas Nogueira Lima adquiriu o imóvel da CNLF por R$ 1,4 milhão em outubro de 2025. Cerca de um ano antes, a própria CNLF havia comprado o apartamento por R$ 650 mil.
Questionado sobre a diferença de valores, Ciro Nogueira atribuiu a valorização do imóvel a uma reforma realizada no período. Segundo ele, o apartamento é utilizado por sua mãe e por sua irmã.
⊛ Investigação da Polícia Federal
A negociação da fazenda ocorreu no mesmo período em que a Polícia Federal investiga supostos repasses financeiros do empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, ao senador. De acordo com as apurações, empresas ligadas a Vorcaro teriam transferido ao menos R$ 6 milhões para Ciro Nogueira entre 2024 e 2025.
A investigação levou a uma operação da Polícia Federal realizada em 7 de maio deste ano. Os documentos da apuração descrevem uma relação marcada por "elevado grau de intimidade, confiança e proximidade" entre o senador e o empresário.
Os investigadores apontam indícios de pagamentos periódicos realizados por Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro. Segundo a Polícia Federal, haveria uma parceria "ligada aos pagamentos mensais em favor do senador, correspondentes, inicialmente, ao valor de R$ 300 mil, com indícios de que teriam sido posteriormente aumentados para a importância de R$ 500 mil".
⊛ Suspeitas de atuação em favor do Banco Master
A Polícia Federal também apura se os pagamentos teriam ocorrido em troca da defesa de interesses do Banco Master no Congresso Nacional. Entre os pontos investigados está a apresentação de uma proposta que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.
A iniciativa ficou conhecida no mercado financeiro como "emenda Master". Segundo os investigadores, a medida poderia beneficiar diretamente o banco em um momento de dificuldades relacionadas ao modelo financeiro adotado pela instituição.
Quando a operação policial foi deflagrada em maio, Ciro Nogueira negou irregularidades. Na ocasião, afirmou ser falsa a informação de que teria reproduzido integralmente a proposta legislativa a pedido de Daniel Vorcaro e também negou ter recebido recursos ilícitos.
Fonte: Brasil 247
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