Uma das principais lideranças da bancada evangélica, o deputado federal Silas Câmara (Republicanos-AM) participou da assinatura de um acordo entre o INSS e a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), entidade investigada por suposta fraude em descontos de aposentadorias. Desde o acordo, a CBPA recebeu R$ 221 milhões repassados pelo INSS entre março de 2023 e abril de 2025 — mês em que foi deflagrada a Operação Sem Desconto, que apurou irregularidades nessas entidades. Com informações do Globo.
Silas acompanhou o presidente da CBPA, Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, em reuniões com a cúpula do INSS no início de 2021, ainda no governo Jair Bolsonaro. Em maio daquele ano, ele esteve na cerimônia em que foi assinado, conforme o Diário Oficial, um “protocolo de intenções (…) com a finalidade de efetivar descontos nos benefícios previdenciários” de filiados à CBPA, de até 2,5% do benefício. Após o ato, Silas escreveu: “O acordo de cooperação técnica com o INSS trará um novo momento para mais de 1 milhão de pescadores e pescadoras artesanais do país”.
O acordo foi efetivado em julho de 2022 e os descontos começaram em março de 2023, já no governo Lula. Entre junho e julho daquele ano, a CBPA passou de 35 mil associados com descontos para mais de 220 mil, e o valor mensal recebido do INSS saltou de cerca de R$ 30 mil para R$ 7,5 milhões; no início de 2025, chegou a R$ 9,5 milhões mensais.
Quando a Polícia Federal e a CGU deflagraram a investigação, a entidade tinha 442 mil associados com descontos; em 2024, a CGU entrevistou uma amostra de 32 associados e nenhum disse ter autorizado os descontos, e o órgão afirma que a CBPA não conseguiu esclarecer a situação de nenhum deles.
Documentos enviados à CPI do INSS e levantados pelo portal O Globo indicam que, desde o fim de 2023, a CBPA firmou contratos com empresas de familiares de Silas Câmara, repassando R$ 1,8 milhão. A Network Multimídia recebeu R$ 30 mil para divulgar, em agosto de 2023, o evento “Grito da Pesca”, no qual o deputado foi apontado como uma espécie de “embaixador”. Entre julho de 2024 e março de 2025, a CBPA repassou R$ 1 milhão à Network Filmes, cuja sócia é Kethlen Brito, cunhada de Heber Câmara, filho do deputado; Heber se apresenta como CEO do “Network Group”. A Network Multimídia está em nome de Maria Soraia Costa, sogra de Heber.

No ano passado, houve ainda R$ 30 mil para a Rádio Morena FM, dirigida por Elienai Câmara, outro filho do parlamentar, e um contrato com a Conektah Estratégias Digitais — que aparece na prestação de contas da campanha de Silas em 2022 —, que recebeu R$ 800 mil para “veicular programas radiofônicos” sobre a entidade no Amazonas. A CBPA também contratou a advogada Milena Ramos Câmara, filha de Silas, para o setor jurídico.
Procurado pelo veículo, Silas Câmara não se manifestou. Em ofício à CPI do INSS, a defesa disse que “não há qualquer base fática ou indício mínimo que permita cogitar” que as empresas foram usadas “para fins irregulares” e que a “relação familiar (…) não implica, por si só, irregularidade”. A ex-mulher do deputado, a deputada Antonia Lucia (Republicanos-AC), que se separou dele em 2024, acusa Silas de “gastar o dinheiro da farra dos pescadores por meios ilícitos” e citou sua atuação, em 2025, para manter entidades como a CBPA intermediando o repasse do seguro-defeso.
Nas redes, Silas expôs articulação com Abraão Lincoln para alterar uma medida provisória do governo Lula que transferia o cadastro do seguro-defeso para prefeituras; o Amazonas tinha, em 2025, 83 mil beneficiários do seguro-defeso, muitos cadastrados pela CBPA e por associações ligadas a ela. “Somos contra abrir precedentes que fragilizam a atuação das entidades representativas”, disse o deputado.
Fonte: DCM com informações do jornal O Globo
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