Wellington César busca mediação entre o diretor-geral da Polícia Federal e o ministro André Mendonça para blindar investigações do Master e do INSS
André Mendonça e Andrei Rodrigues - Crédito: Victor Piemonte/STF | José Cruz/Agência Brasil
O ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, assumiu a missão de intermediar um diálogo com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, nos próximos dias, em uma tentativa de construir um acordo de pacificação e definir condições que preservem a atuação da corporação sem gerar atritos com o Supremo Tribunal Federal (STF). A medida foi articulada após uma reunião de emergência entre Wellington, o advogado-geral da União, Jorge Messias, e o ministro do STF, André Mendonça, relator dos inquéritos que apuram irregularidades no Banco Master e no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), informa Malu Gaspar, do jornal O Globo.
A articulação política e institucional ocorreu às pressas na quinta-feira (6) em resposta à publicação de uma nota oficial assinada por todos os 27 superintendentes regionais da Polícia Federal. No documento, as chefias estaduais defenderam categoricamente a “credibilidade” e a autonomia funcional da instituição, afirmando de forma enfática que “a atividade investigativa da Polícia Federal não se submete a interesses políticos, ideológicos ou pessoais, mas ao estrito cumprimento da lei”.
A manifestação coletiva da corporação foi desencadeada por uma série de decisões recentes tomadas por André Mendonça nas investigações sob sua relatoria. Entre as medidas que causaram forte descontentamento na Polícia Federal estão a proibição de que delegados e agentes repassem informações sobre os inquéritos aos seus superiores hierárquicos e a determinação para que todos os dados brutos obtidos nas apreensões do caso INSS fossem remetidos diretamente ao seu gabinete no STF.
⦾ Desconfianças no gabinete do STF
Nos bastidores, interlocutores próximos a André Mendonça indicam que as ordens restritivas foram motivadas por crescentes desconfianças em relação à conduta do diretor-geral da PF. Os questionamentos tiveram início com a revelação da suposta participação de Andrei Rodrigues em um encontro com uísque e charutos promovido em Londres pelo ex-proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro.
A desconfiança sobre possíveis vazamentos de informações sigilosas intensificou-se quando o ex-líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), solicitou uma audiência com Mendonça no exato dia em que a Polícia Federal formalizou o pedido de busca e apreensão contra o parlamentar no âmbito do caso Master. No mesmo dia, registros fotográficos flagraram uma conversa reservada entre o senador e o diretor-geral da PF durante um evento público no Palácio do Planalto, elemento mencionado no despacho do relator.
O ambiente de atrito também envolve queixas acumuladas há meses por Mendonça quanto à condução do inquérito do INSS. O ministro interpretou a remoção do delegado responsável pelo caso para outra coordenação da Polícia Federal — realizada sem qualquer comunicação prévia ao relator — como uma manobra para esvaziar as apurações.
Outro ponto central de insatisfação do gabinete do STF refere-se ao atraso na entrega dos relatórios sobre a quebra de sigilo bancário e fiscal de Fábio Luís da Silva. Embora a medida tenha sido decretada em janeiro deste ano, os documentos só foram encaminhados ao STF no final de julho, após cobranças diretas e reiteradas do relator. Além disso, pedidos encaminhados pela PF para desmembrar as apurações relativas a Fábio Luís e redistribuí-las a outros ministros do STF foram recebidos no gabinete de Mendonça como uma tentativa de retirar os processos de sua jurisdição.
⦾ Reação da Polícia Federal e alegações de ingerência
O clima de desconfiança, no entanto, é mútuo. No final de julho, o diretor-geral Andrei Rodrigues enviou um ofício formal à Advocacia-Geral da União solicitando que o órgão identifique medidas judiciais cabíveis para conter o que a PF considera uma intervenção indevida e uma violação à sua independência funcional por parte do relator.
A corporação contesta pontos específicos fixados por Mendonça, como a imposição do prazo de 60 dias para a conclusão da análise de todo o material apreendido, a exigência de juntada integral de todos os atos e dados brutos de apreensão ao gabinete do STF e a obrigatoriedade de comunicação prévia ao relator em caso de qualquer substituição de policiais na equipe de investigação — medida vista pela cúpula da PF como ingerência direta na gestão administrativa do órgão.
Integrantes da Polícia Federal também acusam as decisões do ministro do STF de possuírem viés político e ideológico. Em interlocuções reservadas, policiais relembram o trancamento, determinado por Mendonça em 2024, de duas investigações que apuravam crimes de corrupção e peculato envolvendo o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) em desvios na Fundação Leão XIII.
A corporação aponta ainda uma disparidade no tempo de tramitação dos pedidos de busca e apreensão: enquanto a solicitação referente a Cláudio Castro no caso Master demorou dois meses e meio para ser autorizada por Mendonça, a medida contra o senador Jaques Wagner foi aprovada em nove dias. Há também reclamações sobre o represamento de pedidos de operações contra parlamentares do Centrão, que aguardam deliberação do ministro há semanas.
De acordo com relatos de superintendentes regionais, a ordem de envio dos dados brutos ao STF funcionou como o estopim para a divulgação da nota pública de protesto. Diante desse histórico de desgastes acumulados ao longo dos últimos meses, interlocutores do governo reconhecem que a missão do ministro da Justiça para apaziguar os ânimos entre o STF e a Polícia Federal enfrentará intensas resistências de ambos os lados.
Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo
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