Levantamento mostra alta incidência de assédio em espaços públicos e transporte coletivo e aponta desigualdades de gênero no cotidiano
Três em cada quatro mulheres brasileiras afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio ao longo da vida, segundo dados da pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres 2026, realizada em dez capitais do país. O levantamento indica que os episódios ocorrem principalmente em espaços públicos, como ruas, praças e transporte coletivo, informa a Folha de São Paulo.
O estudo foi conduzido pelo Instituto Cidades Sustentáveis e pelo Ipsos-Ipec, com apoio do Sesc-SP e da Fundação Grupo Volkswagen, e ouviu 3,5 mil pessoas com mais de 16 anos residentes em Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia. As entrevistas foram realizadas online entre 2 e 27 de dezembro, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
☉ Espaços públicos concentram maior número de casos
De acordo com a pesquisa, 74% das mulheres afirmaram já ter sido vítimas de assédio em algum momento da vida. A maioria relatou que os episódios ocorreram em ruas ou outros espaços públicos, como praças, parques ou praias, cenário citado por 56% das entrevistadas.
O transporte público aparece logo em seguida, mencionado por 51% das participantes. Outros ambientes também foram apontados: 38% disseram ter sofrido assédio no local de trabalho, enquanto 28% afirmaram que a violência ocorreu dentro do ambiente familiar.
Casos também foram registrados em ambientes de lazer e deslocamento privado. Segundo o levantamento, 33% das mulheres relataram episódios em bares ou casas noturnas, e 17% disseram ter sido assediadas em transportes particulares, como táxis ou carros por aplicativo.
☉ Subnotificação pode tornar cenário ainda mais grave
Para especialistas envolvidos na pesquisa, o número real de casos pode ser ainda maior do que o identificado. A supervisora da área de gestão da Fundação Volkswagen, Jennifer Caroline Luiz, afirmou que fatores emocionais e sociais podem dificultar o relato das vítimas.
"Existe a dor, a vergonha em admitir ter sido vítima dessa situação. Então, pode ser que o número seja maior, mas o formato da pesquisa, com entrevistas online, pode diminuir esse risco".
A pesquisadora também destacou que o grupo etário que mais relatou episódios de assédio foi o de 45 a 59 anos. Segundo ela, aspectos culturais podem explicar esse resultado.
"Se por um lado, mulheres mais jovens, da faixa de 16 a 24 anos, podem ter mais facilidade em reconhecer as situações de assédio e denunciá-las, por outro, as mulheres com mais idade vivem em um contexto em que o mais machismo é mais presente e foi mais naturalizado. Por isso, podem ter sofrido mais com esse tipo de situação".
☉ Punição mais rigorosa é medida mais defendida
O levantamento também investigou quais políticas públicas os entrevistados consideram mais eficazes para combater a violência doméstica e familiar. Entre as mulheres, 59% apontaram como principal medida aumentar as penas para quem comete violência contra mulheres.
Outra iniciativa amplamente citada foi ampliar serviços de proteção e apoio às vítimas em todas as regiões das cidades, opção escolhida por 52% das entrevistadas.
Entre os homens, as duas propostas também apareceram como as mais mencionadas, com 48% defendendo o aumento das penas e 45% apoiando a expansão da rede de proteção.
☉ Diferenças na percepção sobre igualdade de gênero
A pesquisa revelou ainda contrastes significativos entre homens e mulheres sobre a divisão de responsabilidades dentro de casa. 51% dos homens afirmaram que os afazeres domésticos são divididos igualmente entre os gêneros em seus lares.
Entre as mulheres, no entanto, apenas 29% consideram que existe divisão equilibrada das tarefas. Outros 43% afirmaram que elas acabam assumindo a maior parte das responsabilidades domésticas.
Também entre os homens, 28% reconheceram que o trabalho doméstico deveria ser compartilhado, mas admitiram que as mulheres acabam realizando a maior parte das tarefas.
Jennifer Caroline Luiz avaliou que essa diferença de percepção evidencia desigualdades persistentes.
"A sobrecarga feminina é mais percebida pelas próprias mulheres. Há uma tendência de alguns homens aumentarem a percepção de que o trabalho doméstico é uma responsabilidade compartilhada, mas eles acham que está sendo dividido igualmente, enquanto elas não percebem o mesmo. Isso traduz a desigualdade de gênero".
Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo
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