“A resiliência de um país, especialmente em tempos de turbulência, depende da diversificação da sua base econômica”, diz o presidente na Coreia do Sul
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) destacou a força do agronegócio brasileiro, mas afirmou que o país precisa avançar na agregação de valor e na diversificação produtiva para garantir crescimento sustentável. A declaração foi feita nesta segunda-feira (23), em Seul, durante o encerramento do Fórum Empresarial Brasil-Coreia do Sul.
Ao discursar para empresários e autoridades, Lula ressaltou que o Brasil se consolidou como um dos principais fornecedores globais de alimentos, com recorde histórico de 350 milhões de toneladas de grãos colhidas em 2025. Segundo ele, o desempenho reforça o papel estratégico do país na segurança alimentar mundial, mas não deve limitar suas ambições econômicas.
“Somos uma potência agrícola e temos orgulho de contribuir para a segurança alimentar do planeta”, afirmou. Em seguida, ponderou: “Mas a resiliência de um país, especialmente em tempos de turbulência global e de retorno do protecionismo, depende da diversificação da sua base econômica e das suas relações comerciais”.
◎ Diversificação e parceria estratégica
O presidente classificou a República da Coreia como parceira estratégica para ampliar a presença brasileira em setores de maior intensidade tecnológica. Ele lembrou que, nos anos 1960, o PIB per capita sul-coreano era inferior à metade do brasileiro e que hoje supera o do Brasil em três vezes, além de o país asiático ter se transformado em um dos principais polos tecnológicos globais.
Para Lula, a trajetória coreana demonstra a importância de políticas públicas consistentes e investimento em educação. “Nenhum país que chegou atrasado à corrida industrial conseguiu subir a escada do desenvolvimento sem políticas públicas robustas”, declarou. Segundo ele, o crescimento sustentado depende de uma economia “variada e sofisticada, capaz de absorver mão-de-obra qualificada”.
Ao abordar a relação bilateral, destacou que o Brasil é há anos o maior destino de investimentos sul-coreanos na América Latina. Empresas como Samsung, Hyundai e LG mantêm presença consolidada no mercado brasileiro. O estoque de investimentos da Coreia no país soma cerca de US$ 9 bilhões, tornando-a o quarto maior investidor asiático no Brasil.
◎ Indústria, tecnologia e minerais críticos
Lula enfatizou que o Brasil busca superar a condição histórica de exportador de commodities. “O papel de meros exportadores de matérias-primas não condiz com nosso potencial”, afirmou. “Buscamos parcerias que nos permitam agregar valor e produzir tecnologia de ponta em solo brasileiro”.
Ele citou a liderança sul-coreana na produção de semicondutores e baterias e destacou que o Brasil possui minerais críticos essenciais para cadeias produtivas de eletrônicos e veículos elétricos. Segundo o presidente, a cooperação entre os dois países pode fortalecer cadeias de suprimentos resilientes e impulsionar a industrialização.
Nos últimos anos, o governo brasileiro lançou programas como o PAC, a Nova Indústria Brasil (NIB), o Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) e o Plano de Transformação Ecológica, apresentados como instrumentos para atrair investimentos estrangeiros em inovação e sustentabilidade. Lula também mencionou a estabilidade institucional, a matriz energética com forte presença de fontes renováveis e a redução de 50% no desmatamento da Amazônia em 2025 em comparação com 2022.
◎ Ciência, saúde e economia criativa
O presidente destacou a cooperação em áreas estratégicas, como o setor aeroespacial. A start-up sul-coreana Innospace atua no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. “Tenho certeza de que o Brasil logo terá o privilégio de ver um foguete sul-coreano em plena operação”, afirmou, ao defender maior integração entre as agências espaciais dos dois países.
Na saúde, Lula mencionou a construção do laboratório de biossegurança Órion, conectado a um acelerador de partículas, e a ampliação da cooperação entre instituições como a Fiocruz e entidades coreanas. A expectativa, segundo ele, é viabilizar a produção conjunta de vacinas, medicamentos e insumos médicos.
O presidente também ressaltou o desempenho do setor de cosméticos. Em 2025, as exportações brasileiras de produtos de beleza superaram US$ 1 bilhão pela primeira vez. A indústria sul-coreana, por sua vez, disputa espaço com a francesa no mercado global. Lula avaliou que a combinação entre biodiversidade brasileira e tecnologia coreana pode ampliar a competitividade internacional.
Na economia criativa, destacou que o setor representa mais de 3% do PIB brasileiro, superando a indústria automobilística. Ele citou o alcance internacional do funk brasileiro, do K-pop, do cinema e das produções audiovisuais como exemplos do potencial de cooperação cultural.
◎ Comércio bilateral e novos acordos
A corrente de comércio entre Brasil e Coreia do Sul soma cerca de US$ 11 bilhões, abaixo do recorde de quase US$ 15 bilhões registrado em 2011. Lula avaliou que o volume atual está aquém do potencial das duas economias e celebrou a assinatura de um acordo de cooperação comercial e integração produtiva, com foco nas áreas industrial, tecnológica e agrícola.
A Apex identificou 280 oportunidades para produtos brasileiros no mercado coreano, incluindo alimentos, bebidas e produtos químicos. O presidente mencionou ainda o esforço brasileiro para obter acesso ao mercado de carne bovina sul-coreano. “Estamos prontos para avançar nos procedimentos sanitários necessários para que o Brasil esteja no prato do cidadão coreano”, declarou, ao citar o tradicional bulgogi.
Lula defendeu também a retomada das negociações de um acordo entre o MERCOSUL e a República da Coreia, após a assinatura do tratado com a União Europeia. Para ele, o fortalecimento do diálogo e da cooperação comercial é a resposta adequada às tensões no comércio internacional e às tentativas de uso de barreiras como instrumento de pressão econômica.
Fonte: Brasil 247
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