Alta das margens ocorre em meio à valorização do petróleo e pressiona medidas do governo para conter preços
O aumento das margens de lucro de distribuidoras e postos de combustíveis ganhou força no Brasil desde o início de 2026, impulsionado pela elevação do preço do petróleo no cenário internacional. Dados do Relatório Mensal do Mercado de Derivados de Petróleo, do Ministério de Minas e Energia (MME), mostram que a diferença entre o custo de aquisição e o valor final ao consumidor cresceu significativamente, especialmente em meio às oscilações do mercado global provocadas pela guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, segundo a Folha de São Paulo.
De acordo com o levantamento, a margem sobre a gasolina aumentou quase 28% desde janeiro, enquanto no diesel S-10 a alta superou 17%. O maior salto, porém, foi registrado no diesel S-500, cuja margem avançou mais de 103% no período. Esse tipo de combustível é amplamente utilizado em veículos mais antigos, fabricados antes de 2012.
O movimento ocorre paralelamente às medidas adotadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta conter a escalada dos preços com subsídios e redução de impostos. Mesmo assim, o avanço das margens tem potencial para neutralizar os efeitos dessas iniciativas.
Segundo o economista Eric Gil Dantas, do Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas Sociais, a elevação das margens não é recente, mas se intensificou com o atual cenário internacional. “É algo que já vem ocorrendo, mas o movimento ganhou força em meio à confusão gerada pela guerra”, afirmou. Ele acrescenta: “Quando há tensão e conversas sobre possível desabastecimento [como chegou a ocorrer no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina], o preço final perde relevância para o consumidor, que acaba aceitando valores maiores para não ficar sem o combustível".
Os dados históricos reforçam essa tendência. Desde janeiro de 2021, a margem do diesel S-500 acumulou alta de 302%, enquanto o diesel S-10 subiu 115% e a gasolina, 90%. No mesmo período, a inflação geral foi de 35%, evidenciando um crescimento bem acima do índice de preços.
Representantes do setor, no entanto, rejeitam a acusação de aumento oportunista. Um executivo de uma das principais distribuidoras do país afirmou que as margens refletem pressões de custos, como reajustes salariais, aumento no valor dos fretes e a demanda elevada por transporte durante o escoamento da safra agrícola. Segundo ele, os caminhoneiros têm conseguido cobrar valores superiores ao tabelado.
O mesmo representante também criticou a atuação do governo federal, afirmando que o Executivo estaria em um “beco sem saída” e tentando “tirar o foco do problema” ao apontar abusos no setor. De acordo com sua estimativa, os preços praticados pela Petrobras estariam defasados em R$ 2,70 no diesel e R$ 1,60 na gasolina, sendo mantidos artificialmente baixos para reduzir impactos políticos.
Outro executivo do setor destacou que as importações de combustíveis por empresas que abastecem redes de postos chegaram a dobrar, elevando custos operacionais. Segundo ele, o aumento dos fretes marítimos, a necessidade de maior capital de giro e o preço mais elevado do produto importado contribuem para pressionar as margens.
A escalada dos preços e dos ganhos no setor preocupa o Palácio do Planalto. Para tentar mitigar os efeitos no bolso do consumidor, o governo zerou as alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel e criou uma subvenção para produtores e importadores, medidas que, em teoria, representam uma redução de R$ 0,64 por litro.
Diante das suspeitas de irregularidades, o governo acionou a Agência Nacional do Petróleo (ANP) para intensificar a fiscalização. Entre os dias 16 e 20 de março, uma força-tarefa nacional inspecionou 154 agentes econômicos em 12 estados, resultando em 11 autuações por indícios de preços abusivos e nove interdições por irregularidades.
A operação foi baseada na Medida Provisória nº 1.340, que ampliou os poderes da ANP para combater práticas consideradas abusivas, como armazenamento injustificado e reajustes sem justificativa técnica. As penalidades previstas variam de R$ 50 mil a R$ 500 milhões, dependendo da gravidade da infração.
Um dos casos destacados foi o da Vibra Energia, antiga BR Distribuidora, que detém cerca de 22% do mercado. A empresa foi autuada após elevar o preço do diesel em aproximadamente R$ 1,06 por litro, enquanto seu custo subiu apenas R$ 0,03 no mesmo período — diferença considerada um indício de prática abusiva.
Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo
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