sábado, 14 de março de 2026

Haddad lança crítica ao dogmatismo marxista e diz que capitalismo vive fase “superindustrial”

Ministro afirma, em entrevista a Breno Altman, que a mercantilização da ciência e da informação inaugurou uma nova etapa do sistema

Haddad lança crítica ao dogmatismo marxista e diz que capitalismo vive fase “superindustrial” (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Em entrevista ao programa 20 Minutos, da Opera Mundi, conduzido por Breno Altman em 13 de março de 2026, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, apresentou as principais teses de seu novo livro, Capitalismo superindustrial, e defendeu a ideia de que o capitalismo contemporâneo entrou em uma nova etapa histórica, marcada pela mercantilização da ciência, da informação e da criatividade humana.



Ao longo da conversa, Haddad também abordou temas centrais da conjuntura brasileira e internacional, como o papel da China, a atualidade do marxismo, a crise da esquerda, os limites do desenvolvimento brasileiro e os impasses da economia nacional. Em uma das formulações mais contundentes da entrevista, ele afirmou que “a esquerda não tem essa resposta” quando provocada sobre a capacidade de construir uma alternativa histórica superior ao capitalismo.

☉ O que é o “capitalismo superindustrial”

Segundo Haddad, seu novo livro nasce da atualização de reflexões iniciadas ainda no fim dos anos 1980, quando escreveu Sistema soviético. O impulso para revisitar o tema veio, em grande medida, da ascensão da China e da necessidade de reinterpretar as transformações recentes do capitalismo global.

Ao explicar o conceito central da obra, Haddad rejeitou a leitura segundo a qual a novidade do capitalismo contemporâneo estaria na chamada financeirização. Para ele, esse fenômeno não define uma fase nova do sistema, porque suas bases já estavam presentes desde a formação histórica do próprio capitalismo.

Na entrevista, o ministro sustentou que a verdadeira mutação recente ocorreu em outro terreno: o da mercantilização. “O que eu digo é que mais recentemente ele mercantilizou a ciência e a informação”, declarou. Em seguida, resumiu sua tese em uma fórmula direta: “O capitalismo ele é de certa maneira a história da mercantilização total”.

A partir dessa leitura, Haddad propõe uma periodização em três momentos: a manufatura, a grande indústria e a superindústria. Nesta terceira fase, segundo ele, o padrão fabril se estende a todos os setores da economia, inclusive à agricultura e aos serviços. A mecanização, a automação, o controle de produtividade e a padronização do trabalho deixariam de ser traços exclusivos da indústria clássica e passariam a organizar toda a vida econômica.

Ao descrever esse processo, ele observou que até atividades consideradas tipicamente do setor de serviços já operam sob lógica industrial. “Os serviços também adotam o padrão fabril”, afirmou, acrescentando que hoje se fala em “indústria do entretenimento”, “indústria do turismo” e “indústria cultural”, embora parte do debate teórico continue tratando esses ramos como se estivessem fora da forma industrial.

☉ Classes sociais mais fragmentadas e luta de classes mais complexa

Uma das consequências dessa nova etapa, na avaliação do ministro, é a reconfiguração das classes sociais. Haddad argumenta que o proletariado industrial já não pode mais ser considerado, de forma exclusiva, o sujeito central da transformação histórica, como em certas formulações clássicas do marxismo.

Sem negar a permanência do trabalho assalariado e da classe operária, ele sustenta que o capitalismo atual produziu novas formas de inserção social e produtiva. Entre elas, destacou o precariado e o chamado cognitariado, composto por trabalhadores ligados à inovação, à criação e à produção de conhecimento.

Ao tratar desse ponto, Haddad disse que parte da esquerda continua operando com categorias insuficientes para compreender o mundo atual. “Eu acho que a esquerda não amplia um pouco o seu raio de ação, porque ainda tá vivendo num mundo que acabou”, afirmou.

Em sua leitura, isso não elimina a luta de classes. Ao contrário. “Eu tô dizendo que o problema ficou mais grave. Eu tô dizendo que a questão da luta de classes, as contradições de classe, elas se tornaram mais complexas”, declarou.

Para exemplificar a mudança, o ministro citou o caso de programadores contratados para desenvolver um jogo digital. Nessa situação, argumentou, o valor do produto não deriva apenas do trabalho vivo em seu sentido clássico, mas também da proteção jurídica da propriedade intelectual. O que se produz, nesse caso, não é uma mercadoria convencional, facilmente explicável pelos parâmetros tradicionais da teoria do valor.

Ainda assim, Haddad foi cauteloso ao afirmar que a lei do valor teria desaparecido. Segundo ele, a relação dominante no capitalismo continua sendo a do trabalho assalariado frente ao capital. O que muda é que novas formas de produção passaram a ter peso estratégico crescente.

☉ Crítica ao dogmatismo e revisão do debate sobre socialismo

Outro eixo decisivo da entrevista foi a crítica ao que Haddad chamou de “marxismo dogmático”. Para o ministro, o materialismo histórico só mantém vigor se for tratado como método de análise da realidade, e não como um conjunto de verdades congeladas.

“Seria muito inimaginável que se o Marx estivesse vivo, ele pensasse exatamente o que ele formulou no século XIX, porque seria contra o método dele”, disse. Em seguida, completou: “O materialismo ele tem futuro e somente se a questão metodológica for observada, senão ele vai morrer”.

Essa posição aparece de forma ainda mais aguda quando Haddad discute as experiências soviética e chinesa. Ele afirmou que não considera nem a União Soviética nem a China experiências propriamente socialistas, embora reconheça a importância histórica de ambas.

Sobre a União Soviética, sua interpretação é a de que o processo revolucionário inicial foi interrompido por uma dinâmica autoritária que substituiu a democratização da produção por uma forma de organização hierárquica e despótica. Para ele, a simples estatização dos meios de produção não bastaria para definir o socialismo.

“Quando você transforma um país numa grande fábrica, e não numa grande cooperativa, por exemplo, se é uma grande fábrica, você não pode estar falando de socialismo”, afirmou.

Na mesma linha, disse que o critério decisivo para caracterizar uma sociedade socialista seria a superação efetiva do trabalho assalariado e o comando democrático da produção pelos trabalhadores. Ao responder diretamente o que seria socialismo, resumiu: “Quando você supera o trabalho assalariado”.

☉ China: desenvolvimento extraordinário, mas não socialismo

Ao falar da China, Haddad reconheceu o êxito histórico do país em termos de desenvolvimento econômico e tecnológico, mas rejeitou a ideia de que o modelo chinês deva ser automaticamente classificado como socialista.

“Do meu ponto de vista, a China fez um negócio extraordinário nos últimos 40 anos, uma coisa extraordinária, mas eu não chamo, eu não caracterizo aquela sociedade como socialista”, declarou.

Na entrevista, ele descreveu a formação chinesa atual como um “estado desenvolvimentista antissistêmico”, ainda em disputa. Mas, ao mesmo tempo, argumentou que a presença maciça do setor privado, da desigualdade social e do trabalho assalariado aponta mais para um novo tipo de capitalismo do que para uma nova forma de socialismo.

Sua definição foi explícita: “Na minha opinião, é um capitalismo de tipo novo e não o socialismo de tipo novo”. Segundo Haddad, a singularidade chinesa reside no grau de autonomia da classe dirigente política em relação à burguesia, algo incomum nas formações capitalistas ocidentais.

Ao comparar Brasil e China, o ministro traçou um contraste duro. Disse que, no caso brasileiro, a classe dominante historicamente bloqueou a formação de uma verdadeira classe dirigente nacional capaz de orientar o Estado segundo um projeto estratégico de desenvolvimento.

☉ Dependência, patrimonialismo e o bloqueio brasileiro

Haddad também revisitou o debate sobre a teoria da dependência e a formação do Estado brasileiro. Embora discorde de certos pressupostos do patrimonialismo em chave weberiana, ele reconheceu que o país mantém uma estrutura em que a separação entre o público e o privado é profundamente precária.

Em uma das imagens mais fortes da entrevista, afirmou: “Eu sempre falo que o lobby no Brasil é uma impossibilidade porque a mesa é redonda”. Com isso, quis dizer que, no Brasil, os interesses privados não pressionam o Estado de fora para dentro; eles frequentemente já ocupam o próprio centro das decisões.

Ao remeter à Abolição e à Proclamação da República, Haddad defendeu a tese de que a classe dominante brasileira recebeu o Estado como forma de compensação histórica pelo fim da escravidão, consolidando uma ordem patrimonialista que se reproduziria até hoje.

Esse diagnóstico ajuda a explicar, na visão do ministro, por que o país tem tanta dificuldade para constituir um projeto nacional de desenvolvimento capaz de romper com a lógica rentista e a fragmentação ministerial.

☉ Haddad diz que faltou aderência a um projeto nacional de desenvolvimento

No trecho mais diretamente político da conversa, Haddad admitiu que tentou, no início do terceiro mandato do presidente Lula, articular algo que se aproximasse de um plano nacional de desenvolvimento de médio e longo prazo. Segundo ele, porém, a proposta encontrou baixa adesão dentro do próprio governo.

“Eu tentei no começo do governo apresentar algo que pudesse ser um projeto nacional de desenvolvimento e essa ideia teve pouca aderência dentro do governo”, afirmou.

Em seguida, detalhou o problema: “Teve um início de conversa, boa conversa sobre fazer um plano de desenvolvimento pro país de médio e longo prazo, não pensar 4 anos, pensar 15, pensar 20 anos pra frente. Mas teve pouca aderência a ideia de que a gente podia efetivamente coordenar estrategicamente as ações” de diferentes ministérios.

Haddad mencionou, entre as áreas que precisariam ser integradas, Minas e Energia, Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento e Meio Ambiente. Para ele, sem essa coordenação, o país segue preso a uma atuação fragmentada, incapaz de produzir uma transição efetiva para fora do modelo neoliberal.

Por isso, fez uma admissão relevante: “Essa transição não aconteceu”.

☉ Juros altos, desigualdade e a percepção negativa da economia

Na parte final da entrevista, Breno Altman questionou o contraste entre os indicadores positivos da economia e a insatisfação de parte expressiva da população com a situação material do país.

Haddad reconheceu a contradição e sugeriu que uma das chaves para compreendê-la está na política monetária. Segundo ele, o Brasil convive há quase dois anos com elevação da taxa real de juros, o que impacta diretamente o bem-estar da população, especialmente em um contexto de forte endividamento das famílias.

“É literalmente impossível que isso não tenha produzido efeitos também no bem-estar”, afirmou.

Sem personalizar o conflito com o Banco Central, o ministro voltou a dizer que há algo estrutural na economia brasileira que ajuda a explicar a persistência de juros excessivamente altos, mesmo com inflação relativamente controlada. Ele lembrou que o país caminha para registrar a menor inflação acumulada em quatro anos desde o início do Plano Real, sem que isso tenha sido acompanhado por uma redução proporcional do custo do dinheiro.

Também reiterou que, em sua gestão, optou por enfrentar privilégios tributários em vez de impor o ajuste fiscal sobre os mais pobres. Ao recordar o peso das renúncias, isenções e subsídios, resumiu sua linha de ação: “Se tem que arrumar uma coisa, vamos cobrar de quem não paga”.

☉ Eleição em São Paulo e saída da Fazenda

No encerramento da conversa, Haddad confirmou que deixará o Ministério da Fazenda na semana seguinte à entrevista e disse que pretende se reunir com aliados em São Paulo para discutir o cenário eleitoral de 2026.

Embora tenha evitado antecipar um anúncio formal sobre candidatura ao governo paulista, indicou disposição para voltar ao debate programático no estado. Segundo ele, uma eventual campanha poderia servir justamente para recolocar no centro da agenda um plano de desenvolvimento articulado para São Paulo e para o Brasil.

A entrevista, porém, foi além da disputa eleitoral imediata. Ao lançar Capitalismo superindustrial, Haddad procurou se posicionar não apenas como ministro e formulador econômico, mas como intelectual empenhado em reabrir discussões de fundo sobre o capitalismo, o socialismo, a China, a luta de classes e o futuro da esquerda.

Em uma síntese que ajuda a condensar o espírito de sua reflexão, o ministro afirmou que continua movido pela mesma pergunta que o levou às ciências sociais e à política: “A humanidade é capaz de construir algo melhor, mais fraterno?”

Fonte: Brasil 247

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