Operações da PF revelam suspeitas de desvios milionários em emendas, obras inexistentes e pagamentos irregulares envolvendo políticos e empreiteiras
Uma ampla investigação da Polícia Federal expôs um esquema de supostos desvios de recursos públicos oriundos do chamado orçamento secreto, com indícios de obras que nunca saíram do papel, serviços mal executados e pagamentos suspeitos a agentes públicos em estados do Nordeste. As apurações envolvem emendas parlamentares destinadas a municípios da Bahia, Alagoas, Ceará e Rio Grande do Norte, além de empresas contratadas para executar obras de infraestrutura que permanecem inacabadas ou inexistentes. As informações fazem parte de uma reportagem exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, que acompanhou operações policiais, documentos apreendidos e relatos de trabalhadores e gestores públicos afetados pelo esquema.
⊛ Mandados, bloqueios e rastreamento de emendas
Por determinação do ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal cumpriu nove mandados de busca e apreensão em endereços ligados a um deputado federal em Brasília e na Bahia. A decisão também autorizou o bloqueio de R$ 24 milhões em contas associadas a investigados. Paralelamente, a PF rastreou o envio de milhões de reais em emendas parlamentares destinadas a municípios baianos.
De acordo com a investigação, recursos vinculados ao deputado federal Félix Mendonça Júnior (PDT-BA) teriam sido repassados a pelo menos três cidades da Bahia. Em Boquira, o valor identificado foi de R$ 4 milhões; em Ibipitanga, quase R$ 13 milhões; e em Paratinga, pouco mais de R$ 8 milhões.
Em junho de 2025, policiais apreenderam documentos e o telefone celular de Marcelo Gomes, assessor do parlamentar. O material inclui conversas com o empresário Evandro Baldino, nas quais são mencionados pagamentos relacionados aos municípios beneficiados pelas emendas.
Em uma das mensagens, Marcelo questiona: “Vai ser PIX ou papel?”. Evandro responde: “Ibipitanga é PIX. Paratinga é PIX. Estou tentando falar aqui com o Alan para ver como vai ser o dele”. No dia seguinte, ele envia outra mensagem: “Alan, Boquira, 40 mil”, perguntando se a transferência havia sido realizada. Em diálogos posteriores, os dois comemoram a chegada dos valores. “Ibipitanga está cheio de platita”, escreveu Marcelo. “Tu conferiu se la platita caiu?”, respondeu Evandro.
⊛ Defesa do parlamentar e silêncio de investigados
O deputado Félix Mendonça Júnior afirmou que nunca negociou a execução de emendas parlamentares nem indicou ou intermediou a contratação de empresas para obras em municípios. Segundo ele, há colaboração com as investigações e expectativa de que os fatos sejam esclarecidos rapidamente. As defesas de Marcelo Gomes e Evandro Baldino não foram localizadas pela reportagem.
⊛ Asfalto que não chega e convênios sob suspeita
A investigação também se conecta à Operação Overclean, deflagrada em dezembro de 2024. Na ocasião, o Fantástico esteve em Campo Formoso, na Bahia, onde moradores aguardavam o asfaltamento de uma estrada que, um ano depois, segue inexistente. Parte dos recursos veio de uma emenda de 2021 do orçamento secreto, sem identificação do autor.
O projeto resultou em um convênio entre a prefeitura e a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). A estatal informou que R$ 8 milhões seriam a contrapartida municipal, mas apontou inconsistências graves após fiscalização, o que comprometeu a continuidade da obra.
À época, o prefeito de Campo Formoso era Elmo Nascimento (União), irmão do deputado federal Elmar Nascimento (União-BA). O então superintendente regional da Codevasf, Miled Cussa Filho, indicado para o cargo, afirmou ter comunicado irregularidades aos órgãos de controle. “Encaminhei para o Ministério Público Federal, CGU [Controladoria-Geral da União], relatando todas as irregularidades dos convênios e aí eu fui demitido”, declarou.
Um relatório da Polícia Federal cita auditoria da CGU que, a partir de planilhas de emendas, atribuiu o envio dos recursos ao deputado Elmar Nascimento. Procurado, ele não concedeu entrevista e, por mensagem, negou ter destinado emendas às obras em Campo Formoso.
⊛ Trabalhadores sem estrada e sem salário
Além das obras inacabadas, trabalhadores relatam prejuízos financeiros. O caminhoneiro Jaelson Brito, morador de Campo Formoso, foi contratado para atuar na obra e afirma não ter recebido pelo serviço. “No início, a empresa pagou o primeiro mês. No segundo mês, a gente trabalhou. Depois, ficamos fazendo as medições e sempre atrasando. Passou dois, três meses, aí não recebemos. Eu não recebi. Meu prejuízo ficou em R$ 28 mil”, disse.
A responsável pela obra era a Allpha Pavimentações. Em dezembro de 2024, os proprietários da empresa foram presos no aeroporto de Salvador com malas de dinheiro. Dados do Portal da Transparência indicam que, nos últimos quatro anos, a empreiteira recebeu R$ 67 milhões em recursos federais, majoritariamente do orçamento secreto. Segundo a PF, o esquema investigado na Operação Overclean movimentou cerca de R$ 1,4 bilhão em quatro anos.
⊛ Alagoas, Ceará e o avanço das apurações
As investigações também alcançaram Rio Largo, em Alagoas, município que recebeu quase R$ 100 milhões em emendas nos últimos seis anos. Apesar disso, a cidade enfrenta problemas estruturais, como falta de saneamento e obras paralisadas. Um dos exemplos é a Estrada das Canas, pavimentada com recursos de uma emenda de quase R$ 6 milhões do deputado Arthur Lira (PP-AL). O asfalto, porém, afundou em diversos trechos.
Arthur Lira afirmou que ainda falta a remoção de postes de energia e que houve atraso em desapropriações, acrescentando que a prefeitura teria mais de R$ 4 milhões reservados para concluir o serviço.
Em Estrela de Alagoas, obras anunciadas pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), ao custo de R$ 25 milhões, foram interrompidas após as eleições de 2024. As estradas ficaram apenas parcialmente executadas. O então prefeito, Aldo Lira (PP), aparece em vídeo agradecendo a Arthur Lira pela obra. O deputado disse que a responsabilidade é do DNOCS.
As duas obras foram contratadas com a empreiteira Construmaster, atualmente chamada Vieira Infraestrutura, alvo da operação Fake Road. A PF e a CGU identificaram indícios de fraudes, superfaturamento e serviços mal executados no Ceará e no Rio Grande do Norte, com prejuízo estimado em R$ 18 milhões.
⊛ Emendas, familiares e decisões do STF
Segundo a Polícia Federal, o deputado federal Robério Monteiro (PDT-CE) teria destinado emendas a municípios cearenses governados por seu filho e por sua esposa. Ao autorizar a operação Fake Road, o ministro Flávio Dino, do STF, afirmou que “foi identificado o uso de fotos falsas para comprovar a realização das obras”, classificando a prática como “grave irregularidade que compromete a transparência e a confiabilidade do processo de fiscalização”.
A decisão menciona dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), segundo os quais o dono da Construmaster transferiu recursos a um irmão do deputado, e parte do dinheiro teria chegado ao parlamentar. Robério Monteiro não foi alvo da operação e afirmou que a obra é de responsabilidade do DNOCS, negando irregularidades e dizendo que as transferências ao irmão referem-se a relações comerciais.
⊛ Orçamento secreto e falta de transparência
Desde 2020, o orçamento secreto consumiu cerca de R$ 38 bilhões dos cofres públicos. O STF proibiu o mecanismo ainda naquele ano, apontando falta de transparência e critérios. Após a decisão, parlamentares passaram a ampliar o uso de emendas de comissões da Câmara e do Senado, que somaram R$ 8,6 bilhões em 2025 e também são alvo de críticas.
Com as investigações em curso, a Polícia Federal busca esclarecer o funcionamento desse sistema e o papel de órgãos como o DNOCS e a Codevasf, frequentemente citados nos inquéritos. A Codevasf declarou que executa seus recursos conforme a lei e orientações dos órgãos de controle. O DNOCS afirmou que parte dos contratos já foi executada e que desconhece comprovação de superfaturamento apontada pela PF. A Allpha Pavimentações não foi localizada para comentar.
Fonte: Brasil 247 com informações reveladas pelo programa Fantástico, da TV Globo
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