quinta-feira, 21 de maio de 2026

Modelos, luxos, empresários e acordos: como eram as festas de Daniel Vorcaro


Daniel Vorcaro durante festa em Trancoso (BA) em 2022 e modelos estrangeiras convidadas para eventos luxuosos. Foto: Reprodução

Festas organizadas por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, entraram no radar da Polícia Federal nas investigações sobre o esquema financeiro ligado ao banco. Documentos da PF, entrevistas e postagens em redes sociais indicam que o ex-banqueiro montou uma estrutura para realizar eventos com autoridades da República, executivos e mulheres de diferentes nacionalidades.

A Folha identificou 20 mulheres que teriam participado dos encontros, entre estrangeiras de países como Rússia, Ucrânia, Lituânia, Holanda, México e Venezuela, além de brasileiras. Procuradas, elas não comentaram sobre os eventos nem sobre Vorcaro.

Em uma troca de mensagens encontrada em um dos celulares do ex-banqueiro, Vorcaro descreveu os encontros como parte de seu negócio. A conversa ocorreu com a então noiva, Martha Graeff, que questionava o contato dele com mulheres que considerava “putas”. “Fazia parte do meu ‘business’. Nunca te escondi o que fiz, e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo”, escreveu Vorcaro em 18 de agosto de 2025.

De acordo com 17 executivos ouvidos pela Folha, a estrutura dos encontros era organizada para ocorrer em dias úteis, à margem de eventos oficiais no Brasil e no exterior. A lógica seria atender políticos e autoridades que precisavam voltar às suas bases e famílias nos fins de semana. A defesa de Vorcaro informou que não comentaria o tema.

Entre os eventos identificados está uma festa em Trancoso, na Bahia, em outubro de 2022, às vésperas do aniversário do ex-banqueiro. Segundo a apuração, estrangeiras vieram ao Brasil em voos de primeira classe e ficaram cerca de um mês hospedadas em locais de alto padrão, como o Rosewood, em São Paulo, e uma casa no Joá, no Rio de Janeiro, com despesas pagas por Vorcaro.

A semana do GP de Fórmula 1 de 2023 também teria concentrado grande número de convidadas. O Banco Master era patrocinador da equipe Aston Martin Aramco, o que dava acesso a áreas VIP da corrida. A festa de Halloween organizada antes do evento teve orçamento de US$ 4,5 milhões, o equivalente a R$ 22,5 milhões na cotação da época, segundo documentos da PF.

Os registros apontam gastos com DJs, modelos, transfers internacionais, carros blindados, seguranças, concierges, mordomos e bebidas de luxo. Também aparecem na apuração hotéis de alto padrão usados para receber convidados, como Fasano, Unique e Rosewood, além de bares exclusivos montados na sede do Master e no escritório da Titan, holding do grupo.

Vorcaro e o filme “Dark Horse”

Vorcaro virou epicentro da crise do PL após reportagens do Intercept Brasil revelarem que ele teria financiado “Dark Horse”, filme sobre a campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2018.

Segundo as apurações divulgadas, o banqueiro se comprometeu a repassar cerca de R$ 134 milhões ao projeto, e ao menos R$ 61 milhões teriam sido enviados por meio de estruturas ligadas a empresas e fundos no exterior. O caso ganhou força porque os repasses teriam ocorrido após pedidos de Flávio Bolsonaro, que aparece em áudios cobrando pagamentos de Vorcaro.

Inicialmente, Flávio negou que o Banco Master ou Vorcaro tivessem financiado o filme. Depois da divulgação de mensagens, documentos e comprovantes, o senador admitiu ter buscado recursos privados para a produção e passou a dizer que a relação com o banqueiro se limitava ao longa.

A crise se agravou quando ele também confirmou ter visitado Vorcaro em São Paulo depois da primeira prisão do banqueiro, quando ele usava tornozeleira eletrônica e estava impedido de deixar o estado. Flávio afirmou que foi ao encontro para “botar um ponto final” na questão do financiamento.

As explicações provocaram desconforto dentro do PL. Parlamentares cobraram do senador garantias de que não surgiriam novas revelações e a cúpula passou a trabalhar com um prazo para medir o impacto político do caso.

A crise também atingiu aliados do projeto: Mario Frias, produtor-executivo de “Dark Horse”, chegou a dizer que o filme não havia recebido um “único centavo” de Vorcaro, mas depois vieram à tona áudios em que ele agradece o banqueiro pelo apoio à produção. Eduardo Bolsonaro também passou a ser citado em apurações sobre a estrutura financeira do filme e sobre a possibilidade de parte dos recursos ter bancado sua permanência nos Estados Unidos.

Mário Frias, Flávio Bolsonaro, Jim Caviezel e Carluxo. Foto: reprodução
A repercussão foi além do partido. Setores do mercado financeiro, do agronegócio e lideranças evangélicas passaram a demonstrar cautela em relação à pré-campanha de Flávio. Silas Malafaia disse que a relação do senador com evangélicos “esfria” se houver comprovação de que o dinheiro foi usado para algo além do filme. Romeu Zema também elevou o tom e afirmou que o Novo foi “traído” por Flávio, alegando que ninguém no partido sabia da relação dele com Vorcaro.

Nas pesquisas, o impacto apareceu rapidamente. Levantamentos AtlasIntel/Bloomberg e Vox Brasil indicaram queda de Flávio Bolsonaro após o caso. A Atlas mostrou Lula abrindo vantagem sobre o senador no primeiro e no segundo turno, além de apontar Flávio como o nome mais rejeitado entre os principais políticos testados. A Vox Brasil também registrou Lula à frente em um eventual segundo turno, com 46,8% contra 38,1% de Flávio.

Fonte: DCM com informações da Folha de S. Paulo

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