O deputado federal Filipe Barros (PL-PR), pré-candidato ao Senado e uma das vitrines do bolsonarismo no Paraná, virou um problema político para Ratinho Júnior (PSD) e Sergio Moro (PL) depois que a Operação Compliance Zero voltou a iluminar propostas no Congresso para elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
Filipe não foi apontado como investigado pela Polícia Federal (PF) na fase que mirou o senador Ciro Nogueira (PP-PI), deflagrada nesta quinta-feira (7). Mas a coincidência legislativa é explosiva: o paranaense apresentou na Câmara dos Deputados o PL 4395/2024, com a mesma ideia central que agora aparece no coração político do caso Master.
O projeto de Filipe foi protocolado em 14 de novembro de 2024. A ementa registrada pela Câmara dizia que a proposta alterava o limite de cobertura do FGC para até R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ. A proposição foi retirada pelo próprio autor em 3 de fevereiro de 2026, depois do avanço da crise em torno do antigo Banco Master.
A Polícia Federal informou que a 5ª fase da Compliance Zero cumpre dez mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária em três estados e no Distrito Federal, com bloqueio autorizado de R$ 18,85 milhões. A operação apura corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
Segundo anotação do Blog do Esmael, Ciro Nogueira é um dos alvos da nova etapa e teria sido apontado pela PF como agente público que usou o mandato em favor de Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master. A reportagem também afirma que a investigação trata de uma emenda para ampliar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, supostamente entregue ao senador por pessoas vinculadas ao banco.
A diferença jurídica é relevante e precisa ser preservada: Ciro entrou no radar da operação; Filipe, até aqui, não. A semelhança política, porém, é suficiente para fazer barulho. No Paraná, onde cada vaga na chapa de 2026 vale ouro, a sombra do Master caiu sobre um projeto que já havia provocado bate-boca público com a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR).
Em março, o Blog do Esmael registrou a troca de acusações entre Gleisi e Filipe em torno do PL do FGC. A então ministra das Relações Institucionais atacou a proposta como uma medida que poderia favorecer o ambiente de captação que sustentou o Banco Master. Filipe reagiu dizendo que a iniciativa protegia investidores e que a leitura política distorcia sua finalidade.
Nesta quinta-feira (7), depois da operação contra Ciro, Filipe divulgou nova nota. O deputado afirmou que quem critica seu projeto estaria protegendo grandes bancos, disse que retirou a proposta por causa de ilações e declarou ter denunciado à PF negócios do Master com a Reag Investimentos em dezembro de 2024. Também atacou Vorcaro em tom duro.
A tentativa de Filipe é sair da defensiva e vestir a roupa de acusador. O problema é que a política não vive apenas de autos, despachos e notas públicas. Vive também de associação, desgaste e conveniência eleitoral. E, nesse terreno, o PL 4395/2024 deixou uma digital incômoda no caminho do candidato bolsonarista ao Senado.
Ratinho Júnior tem um dilema. Em abril de 2025, o Blog do Esmael noticiou que Jair Bolsonaro (PL) articulou no Paraná uma chapa ao Senado com Filipe Barros no centro do acordo político. O governador, que tenta manter pontes com o bolsonarismo sem se afundar em seus passivos, passa a carregar uma candidatura que pode virar alvo preferencial dos adversários.
Nesse cenário, Ratinho Junior tenta recolocar Guto Silva (PSD) no jogo para completar a chapa palaciana ao Senado. O ex-secretário das Cidades foi rifado da corrida pelo Palácio Iguaçu quando o governador escolheu Sandro Alex (PSD) para enfrentar a sucessão. Agora, Guto volta a circular como solução de acomodação interna, enquanto o entorno do marqueteiro Jorge Gerez ainda carrega uma contradição incômoda: em nota ao Blog, ele negou que faria campanha no Paraná, mas não fechou a porta para o tabuleiro nacional da direita.
Moro também tem motivo para desconforto. Pré-candidato ao governo do Paraná, o ex-juiz da Lava Jato depende de uma chapa competitiva, com discurso moralista e aparência de blindagem contra escândalos. Ter ao lado um candidato ao Senado arrastado para o debate público sobre FGC, Banco Master e Daniel Vorcaro pode contaminar a narrativa antes mesmo da campanha começar.
A situação fica mais delicada porque Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é tratado como peça nacional do palanque bolsonarista nas eleições de outubro. Se o caso Master avançar sobre novas delações, mensagens ou operadores políticos, o que era aposta promissora no Paraná pode se transformar em passivo nacional para o PL.
Não há confirmação pública de que Filipe Barros seja alvo da PF, nem de que exista decisão formal para substituí-lo na disputa ao Senado. O que há, por enquanto, é um fato documental, um projeto apresentado e retirado, e um ambiente político inflamado pela operação que atingiu Ciro Nogueira.
O diabo mora nesse intervalo entre o processo e o palanque. Para a Justiça, vale o que está nos autos. Para a eleição, basta a pergunta martelando nas redes, nos grupos de WhatsApp e nas conversas de gabinete: por que um candidato ao Senado no Paraná apresentou uma proposta tão parecida com a que agora virou munição no caso Master?
Fonte: Blog do Esmael
Nenhum comentário:
Postar um comentário