segunda-feira, 4 de maio de 2026

Bolsonaristas se mudam para o Paraguai para fugir de “ditadura” e quebram a cara


Fila com brasileiros vira a madrugada em Ciudad del Este, no Paraguai. Foto: Fernando Otto/BBC Brasil

Uma nova onda de brasileiros tentando se mudar para o Paraguai está crescendo — e chamando atenção não só pelo volume, mas pelo grau de ilusão que a acompanha. Impulsionados por vídeos de internet, promessas de impostos baixos e uma suposta afinidade ideológica, muitos atravessam a fronteira acreditando ter encontrado uma espécie de refúgio político e econômico. Na prática, a história tem sido bem menos glamourosa.

A principal porta de entrada é Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil, onde o governo paraguaio vem organizando mutirões para atender a demanda. Só em 2025, o país concedeu 40,6 mil autorizações de residência, mais da metade para brasileiros. Em 2026, o ritmo continua acelerado. Mas quantidade não significa sucesso — e os próprios dados mostram isso: poucos desses migrantes seguem até a residência permanente, o que indica uma alta taxa de desistência.

Boa parte desse movimento nasce nas redes sociais, mostra a BBC. Vídeos vendem o Paraguai como um “paraíso liberal”, com impostos baixos, custo de vida reduzido e liberdade total. O detalhe convenientemente omitido é o outro lado da equação: serviços públicos precários, sistema de saúde limitado, mercado de trabalho informal e baixa proteção social. O que se economiza em imposto, muitas vezes se paga em qualidade de vida.

Ainda assim, muitos seguem embarcando nessa narrativa. Há aposentados, pequenos empresários e famílias inteiras tomando decisões radicais com base em percepções distorcidas da realidade. O discurso é quase sempre o mesmo: o Brasil estaria “inviável”, enquanto o Paraguai representaria uma alternativa mais alinhada a valores conservadores.

O problema é que essa visão ignora fatos básicos. O Paraguai tem uma economia muito menor e mais frágil, depende fortemente do Brasil e apresenta indicadores sociais inferiores em diversas áreas. A baixa carga tributária, tão celebrada, também significa menor capacidade de investimento em saúde, educação e infraestrutura.

Outro ponto que escancara a contradição: muitos dos que criticam o Brasil continuam dependendo dele. Há relatos frequentes de brasileiros que recorrem a cidades brasileiras na fronteira para atendimento de saúde ou outros serviços. Ou seja, não se trata exatamente de abandonar o país, mas de tentar aproveitar o melhor dos dois lados — algo que nem sempre funciona.

Além disso, a adaptação costuma ser subestimada. Cultura, idioma, mercado de trabalho e até o cotidiano são bem diferentes do que aparece nos vídeos promocionais. O resultado é previsível: frustração. Alguns admitem que a realidade não corresponde ao que foi vendido. Outros já planejam voltar.

Isso não significa que mudar para o Paraguai seja uma má escolha em todos os casos. Para quem se planeja, entende o contexto e tem uma estratégia sólida, pode fazer sentido. O problema é transformar uma decisão complexa em ato de protesto político ou fuga emocional.

Fonte: DCM

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