O Estadão captou R$ 142,5 milhões com um grupo de 12 empresas, entre elas Itaú, Bradesco e Santander, em uma operação estruturada por meio da emissão de debêntures para tentar enfrentar a crise financeira do jornal.
Os documentos obtidos pelo Metrópoles mostram que os recursos foram liberados como empréstimos de longuíssimo prazo, com parte da cobrança prevista apenas para 2034 e possibilidade de quitação até 2044. A operação foi anunciada em 2024, mas o periódico não informou aos assinantes quem eram os financiadores por trás da injeção de dinheiro.
A captação ocorreu em meio a um quadro delicado nas contas da empresa. Com dívida acumulada de R$ 159 milhões, o Estadão vem registrando prejuízo ano após ano. O último balanço apontou que o jornal encerrou 2025 com déficit de R$ 16,8 milhões. Foi nesse cenário que bancos e grandes grupos empresariais decidiram colocar dinheiro na companhia em uma tentativa de evitar o aprofundamento da crise e garantir a sobrevivência de um dos jornais mais tradicionais do país.
Embora o Estadão se paute pelos interesses do mercado financeiro, a explicação oficial para esses bancos aceitarem esse acordo com tamanha facilidade não passa pela pressão sobre as notícias do veículo. Segundo o Metrópoles, os investidores foram convencidos de que São Paulo, maior estado do Brasil, não deveria ficar restrito à influência de apenas um grande jornal impresso, a Folha de S.Paulo, no debate político e econômico.
A operação foi capitaneada por Rubens Ometto, dono da Cosan, que investiu R$ 15 milhões. Um ano depois de participar do socorro financeiro ao Estadão, a Cosan entrou em recuperação judicial e parte da empresa foi comprada por André Esteves, dono do BTG.
Ao todo, a operação foi dividida em duas rodadas. A primeira, de R$ 45 milhões, teve a Trustee DTVM como agente fiduciária. Nessa etapa, Itaú, Bradesco e Santander compraram debêntures de R$ 15 milhões cada. A Trustee, porém, aparece como um ponto sensível da operação, já que é investigada nas operações Compliance Zero e Carbono Oculto.

A segunda rodada captou R$ 97,5 milhões por meio do Província Fundo de Investimento e da Cutrale. Nessa fase, Cosan, Hapvida e Votorantim investiram R$ 15 milhões cada.
Ultra, Unipar, Pátria Investimentos, JHSF e Galápagos Capital colocaram R$ 7,5 milhões cada, enquanto a Santalice Administração Ltda., ligada à Cutrale, também aportou R$ 15 milhões. Suzano e Safra participaram por outra via, investindo em publicidade, não na estrutura das debêntures.
O aporte, segundo o texto, não teve natureza de patrocínio publicitário, mas de socorro financeiro. E ele trouxe efeitos concretos sobre o comando do jornal.
Desde que a operação foi realizada, os financiadores passaram a ocupar espaço no processo decisório do Estadão, do conteúdo a decisões administrativas. Entre as exigências dos investidores esteve a saída da família Mesquita da vaga de CEO, posto diretamente ligado à linha editorial, além da entrada de representantes no conselho de administração.
Após a operação, um representante dos investidores passou a integrar o conselho do jornal. Marcos Bologna, sócio e CEO da Galápagos, assumiu espaço na estrutura de comando da empresa. A presença dele simboliza a nova fase do Estadão, que recebeu capital privado para atravessar a crise, mas passou a conviver com maior influência dos financiadores em sua gestão.

Erick Bretas, que assumiu a presidência executiva do jornal em 2024, afirmou que “o serviço de agente fiduciário é dos mais simples do mercado de capitais, quase equivalente ao de um despachante”.
“Eles fazem requerimentos, encaminham serviços burocráticos. Os problemas da Trustee, até onde sabemos, foram na gestão de fundos, não na prestação desse básico serviço de agente fiduciário”, disse. “O Estadão é uma empresa entre tantas outras 100% idôneas que usam esse tipo de serviço quando emitem debêntures.”

Bretas tem passagem pelo Grupo Globo, onde foi diretor do Globoplay. Ele dirigia a área de produtos digitais e canais pagos quando saiu da empresa após 26 anos. Nas redes sociais, o CEO do Estadão ataca diariamente o Supremo Tribunal Federal, com foco especial na relação de ministros da Corte, como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, com o Banco Master.

Editorial do Estadão replicado nas redes sociais de Erick Bretas. Foto: Reprodução
Fonte: DCM com informações do Metrópoles
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