domingo, 22 de março de 2026

Lula defende fortalecimento da CELAC e diz que América Latina e Caribe “não cabem no quintal de ninguém”

Presidente cobra integração regional, condena ingerência externa e propõe ação conjunta contra crime, desigualdade e dependência tecnológica

21.03.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião de Chefes de Estado CELAC-África, no Centro de Convenções Ágora. Bogotá - Colômbia.

Foto: Ricardo Stuckert / PR (Foto: Ricardo Stuckert)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, em discurso lido pelo chanceler Mauro Vieira na 10ª Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), em Bogotá, uma retomada vigorosa da integração regional e uma posição mais firme da América Latina e do Caribe diante das pressões externas, da fragmentação política e do avanço do crime organizado.

Na mensagem apresentada na capital colombiana, Lula afirmou que a CELAC representa “o maior esforço já feito para afirmar a identidade própria da América Latina e do Caribe no cenário internacional” e advertiu que o enfraquecimento do bloco interessa àqueles que pretendem reduzir a região a uma área subordinada. Em uma das passagens mais fortes do discurso, declarou: “Mas a América Latina e o Caribe não cabem no quintal de ninguém.”

◎ Integração ativa e agenda própria

Ao rememorar a trajetória da integração latino-americana, o presidente destacou que os países da região passaram boa parte de sua história reagindo a pressões externas, em vez de construir estratégias próprias. Segundo ele, os momentos de aproximação entre os povos latino-americanos e caribenhos foram, em geral, episódicos e motivados por circunstâncias vindas de fora.

Lula resgatou a origem da CELAC nesse processo histórico e ressaltou o salto político representado pela criação de um foro sem tutela externa. “Pela primeira vez, fomos capazes de definir uma agenda própria, pautada por nossas necessidades e interesses”, afirmou. Segundo ele, a partir daí começou a se desenhar uma integração “ativa, e não mais reativa”, baseada em valores como paz, direito internacional e não ingerência.

O presidente também recordou que a região já foi capaz de avançar em mecanismos concretos de cooperação em áreas como segurança alimentar, saúde e resposta a desastres, sugerindo que esse espírito precisa ser retomado com urgência diante da conjuntura atual.

◎ Crítica à desarticulação regional

No diagnóstico apresentado à cúpula, Lula traçou um quadro preocupante. Disse que a América Latina e o Caribe estão hoje “acuados e divididos” e advertiu que a desarticulação política enfraquece a capacidade de resposta diante de crises e ameaças à soberania dos próprios países da região.

“Não somos capazes sequer de condenar as investidas contra a soberania de nossos membros”, afirmou. Em seguida, mencionou a crise no Haiti, as ameaças contra Cuba e os atritos entre países vizinhos, apontando o risco de deterioração de um continente que se mantém livre de guerras há mais de três décadas.

Lula também observou que, apesar dos esforços das presidências recentes, as cúpulas da CELAC vêm sendo esvaziadas. Para ele, isso não ocorre por acaso. “Enfraquecer a CELAC é remover o principal obstáculo à tentativa de transformar a região em zona de influência”, disse, em crítica direta às investidas externas sobre os destinos latino-americanos.

◎ Combate ao crime organizado exige ação conjunta

Outro eixo central do discurso foi a defesa de uma articulação regional robusta contra o crime organizado. Lula sustentou que a fragmentação dos países favorece a expansão dessas redes e que a cooperação soberana entre os Estados é o caminho mais eficaz para enfrentá-las.

“Uma região desarticulada favorece o crime organizado. A colaboração entre nós, sem abrir mão da soberania, é nosso melhor escudo”, afirmou.

O presidente argumentou que não basta agir contra os operadores de base das facções e cartéis. “É preciso atingir toda a cadeia de comando, sobretudo as mais altas esferas, que vivem em apartamentos e escritórios luxuosos”, declarou. Ele associou esse desafio a mecanismos globais de sustentação financeira do crime, como a lavagem de dinheiro em paraísos fiscais, o fluxo de armas oriundo de países ricos, a fraude e a ausência de regulação sobre criptomoedas.

Ao apresentar medidas adotadas no Brasil, Lula citou a proposta de criação de um Sistema Único de Segurança e a aprovação de uma lei antifacção. Segundo ele, o objetivo é melhorar a articulação entre as polícias e reforçar o papel da Polícia Federal no combate a organizações criminosas e milícias privadas com atuação interestadual e internacional.

Também mencionou a Operação Força Integrada, realizada nesta semana em 15 estados brasileiros, com 116 prisões, apreensão de mais de 700 quilos de drogas e bloqueio de quase 20 milhões de dólares em bens ilícitos. Para o presidente, ações desse tipo precisam ganhar dimensão continental.

Como exemplos positivos, Lula apontou o Centro de Cooperação Policial Internacional em Manaus, que reúne representantes dos países amazônicos, e o Comando Tripartite da Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai, renovado no ano passado.

◎ Democracia sob ataque digital

O discurso também dedicou espaço importante à defesa da democracia diante das novas formas de ingerência e manipulação política. Lula afirmou que, se no passado a intervenção externa na região esteve associada à imposição de regimes autoritários por meio de tanques e soldados, hoje o risco também se manifesta no ambiente digital.

“Hoje, as ameaças não vêm apenas de tanques e soldados, mas também de computadores e celulares”, disse. Segundo ele, campanhas de desinformação articuladas dentro e fora dos países minam a credibilidade dos sistemas eleitorais e comprometem o debate público.

O presidente alertou ainda para os efeitos da manipulação algorítmica e da produção de conteúdos falsos por inteligência artificial. “A manipulação de algoritmos e a produção de conteúdos falsos por inteligência artificial distorcem a realidade e desequilibram o jogo político”, afirmou.

Lula observou que a falta de regulação das plataformas digitais também expõe crianças e adolescentes a riscos e abusos. Nesse contexto, citou a adoção, no Brasil, do ECA Digital como resposta institucional de proteção aos mais vulneráveis.

Ao relembrar a pandemia de COVID-19, fez uma crítica dura ao negacionismo disseminado nas redes. “Na pandemia de COVID, o negacionismo amplificado pelas redes matou milhares de pessoas. A mentira rende lucros para plataformas virtuais e votos para políticos extremistas”, declarou.

◎ CELAC acima de divisões ideológicas

Em outro trecho relevante, Lula sustentou que a integração regional não pode ser submetida às oscilações partidárias ou a agrupamentos fechados por afinidade ideológica. Para ele, substituir fóruns plurais por mecanismos excludentes compromete o interesse histórico dos povos latino-americanos.

“A integração regional, da mesma forma, não tem filiação política. Substituir foros plurais por grupos baseados em afinidades ideológicas é um equívoco”, afirmou. E acrescentou: “Governos vêm e vão. Mas a história e a geografia permanecem.”

Ao elogiar a presidência colombiana da CELAC, Lula destacou o esforço para ampliar o diálogo com parceiros externos, como China, União Europeia e países africanos. Segundo ele, esses interlocutores enxergam no bloco regional um potencial que muitas vezes os próprios latino-americanos ainda não foram capazes de reconhecer integralmente.

◎ Recursos estratégicos e soberania produtiva

O presidente também abordou o papel estratégico da região na nova economia global. Disse que a América Latina e o Caribe reúnem riquezas energéticas, ambientais, agrícolas e minerais decisivas para a transição energética e a revolução digital, mas seguem marcados por desigualdade, dependência tecnológica e vulnerabilidade produtiva.

Ao tratar da presença regional nas cadeias globais de valor, Lula destacou que a América Latina possui a segunda maior reserva de minerais críticos e terras raras do mundo. Esses insumos, lembrou, são fundamentais para a fabricação de chips, baterias e placas solares.

“É justo que tenhamos acesso a todas as etapas das cadeias de valor, desde a extração até o produto final, do beneficiamento à reciclagem”, afirmou.

Na visão do presidente, a região não pode repetir o padrão histórico em que exporta matéria-prima barata e importa tecnologia de alto valor agregado. Por isso, defendeu a construção de um marco regional com parâmetros mínimos comuns, capaz de fortalecer o poder de barganha dos países frente a investidores internacionais.

◎ Crítica ao neoliberalismo e defesa do Estado

Lula reservou uma parte expressiva do discurso para criticar os efeitos do neoliberalismo sobre a América Latina e o Caribe. Segundo ele, a lógica do Estado mínimo aprofundou desequilíbrios sociais, enfraqueceu a capacidade de planejamento e não ofereceu respostas concretas às necessidades da população.

“Os equívocos do neoliberalismo tiveram um impacto muito negativo em nossa região”, disse. Em seguida, observou que, embora essa agenda esteja desacreditada até em centros políticos da Europa e dos Estados Unidos, ainda encontra muitos defensores na América Latina.

Na avaliação do presidente, os povos da região querem políticas públicas efetivas, não promessas abstratas de mercado. Ele lembrou que quase um terço da população latino-americana e caribenha trabalha por conta própria e deseja serviços públicos de qualidade, com escolas eficientes, hospitais sem filas, transporte acessível e financiamento habitacional com juros baixos.

Lula também ressaltou o envelhecimento da população regional e observou que mais de 36% dos latino-americanos e caribenhos com mais de 60 anos seguem na força de trabalho. “Nossos cidadãos estão envelhecendo e têm direito a uma aposentadoria digna”, afirmou. “O papel dos governos é trabalhar pelo bem-estar das famílias.”

◎ Infraestrutura e comércio regional como prioridade

Outro ponto central da fala foi a defesa da integração física, energética e logística do continente. Lula afirmou que, sem ação estatal coordenada, a região não conseguirá superar gargalos históricos de infraestrutura nem ampliar sua autonomia diante das turbulências do cenário mundial.

Segundo ele, é preciso construir rotas terrestres, aquáticas e aéreas que conectem o Atlântico ao Pacífico, além de ampliar a interconexão elétrica para garantir energia mais barata e segura. Em um mundo marcado por bloqueios marítimos e interrupções nas cadeias de suprimento, disse, essa agenda se tornou ainda mais estratégica.

O presidente anunciou que a América do Sul está estabelecendo um Observatório de Infraestrutura com a missão de identificar lacunas, monitorar avanços e promover investimentos. Também ressaltou o papel de instituições como CAF, Fonplata, BID, Banco Caribenho de Desenvolvimento e Banco dos BRICS no financiamento de projetos estruturantes.

Lula chamou atenção para o baixo nível de comércio intrarregional, que corresponde a apenas 14% do total das trocas comerciais da América Latina e do Caribe. Para mudar esse quadro, defendeu o estímulo à internacionalização das empresas locais e a criação de instrumentos financeiros que favoreçam exportações de bens e serviços.

Nesse contexto, destacou a aprovação, no Brasil, de um projeto de lei que amplia a segurança jurídica para o financiamento de exportações pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Também mencionou sistemas de pagamentos digitais, como o PIX, como ferramentas capazes de impulsionar o comércio regional.

“Estaremos mais protegidos de choques externos se apostarmos na integração de nossas cadeias produtivas”, afirmou.

◎ CELAC como projeto histórico da região

Na parte final do discurso, Lula reafirmou que a CELAC é o principal espaço político para consolidar a autonomia regional e transformar a diversidade latino-americana em força geopolítica. Também citou o MERCOSUL como uma plataforma importante para ampliar a integração sul-americana, saudando a adesão da Bolívia como membro pleno e o interesse de outros países em se associar ao bloco.

Ao sintetizar o espírito de sua mensagem, o presidente afirmou: “Quando caminhamos juntos, somos capazes sobreviver às turbulências da economia e da geopolítica mundial.”

Em seguida, concluiu com um chamado à unidade: “Que este seja o nosso compromisso: transformar a diversidade em força, a união em soberania e a esperança em futuro.”

Encerrando a fala com uma referência à cultura latino-americana, Lula citou Pablo Milanés e a “Canção pela Unidade Latino-Americana”: “o que brilha com luz própria ninguém pode apagar; seu brilho pode alcançar a escuridão de outras costas”.

A mensagem lida em Bogotá recoloca no centro do debate regional uma agenda de soberania, cooperação e desenvolvimento compartilhado, num momento em que a América Latina e o Caribe voltam a ser pressionados por disputas geopolíticas, instabilidade econômica e tentativas recorrentes de fragmentação política. Ao apostar na CELAC como instrumento de convergência, Lula procura reerguer o sentido estratégico da integração regional e afirmar que o futuro do continente depende, прежде de tudo, de sua capacidade de agir em bloco, com voz própria e sem tutela externa.

Fonte: Brasil 247

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