sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Após sequestro de Maduro, Lula ordenou avaliação militar sobre vulnerabilidades da defesa brasileira

Reunião no Planalto após ofensiva dos EUA na Venezuela levou Forças Armadas a apontarem fragilidades e defenderem plano de R$ 800 bilhões em investimentos

       Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças dos Estados Unidos provocou preocupação no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e levou o Palácio do Planalto a determinar uma ampla revisão de cenários estratégicos no campo militar. Diante do impacto regional da operação, Lula solicitou às Forças Armadas um diagnóstico sobre possíveis vulnerabilidades do Brasil em caso de uma ação semelhante em território nacional, informa a Folha de São Paulo.

A avaliação entregue ao presidente indicou que o Brasil não dispõe de equipamentos suficientes de defesa antiaérea para exercer capacidade de dissuasão contra uma ofensiva estrangeira, especialmente de uma potência militar como os Estados Unidos.

O episódio representou uma mudança brusca no panorama de segurança regional, especialmente porque, nos últimos dois anos, o governo brasileiro já havia ampliado sua atenção para o fator venezuelano. No fim de 2023, quando Maduro avançou com movimentos relacionados à disputa territorial envolvendo a região de Essequibo, na Guiana, o Brasil mobilizou aeronaves, tropas, blindados e mísseis para a fronteira. À época, setores de inteligência do país identificaram a possibilidade de uma invasão terrestre que poderia envolver passagem pelo território brasileiro.

A movimentação militar brasileira naquele momento foi tratada como uma manobra de dissuasão, com o objetivo de impedir que a Venezuela invadisse a Guiana. Dois anos depois, porém, a Venezuela passou a ocupar o papel inverso no cenário regional, ao se tornar alvo de uma intervenção militar estrangeira.

A ofensiva foi determinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ordenou um ataque militar a Caracas e a captura de Maduro em 3 de janeiro. A operação teria como objetivo levá-lo a julgamento em Nova York por supostos crimes relacionados ao tráfico de drogas. Segundo a reportagem, integrantes do governo brasileiro interpretaram a ação como parte de uma ofensiva motivada pelo interesse em explorar o petróleo venezuelano.

Com a escalada, Lula passou a exigir análises detalhadas sobre o impacto do episódio e pediu aos comandantes militares uma leitura de cenários sobre a invasão no país vizinho. A preocupação envolvia tanto os riscos imediatos quanto as defasagens estruturais de longo prazo no sistema de defesa nacional.

Uma reunião foi convocada por Lula no Palácio do Planalto em 15 de janeiro para discutir o tema. O encontro ocorreu no fim da tarde e avançou pelo início da noite. Participaram o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro; o comandante do Exército, Tomás Miguel Paiva; o comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen; o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Marcelo Damasceno; e o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, almirante Renato Rodrigues Freire — nomes registrados na agenda oficial do presidente.

Também esteve presente Celso Amorim, assessor especial de Lula para assuntos internacionais, que já ocupou os cargos de ministro das Relações Exteriores e ministro da Defesa em governos petistas e mantém interlocução com figuras do governo venezuelano, incluindo o próprio Maduro.

Apesar de Lula não considerar que o Brasil esteja sob ameaça direta de sofrer uma ação militar semelhante, integrantes do governo afirmam que o presidente demonstrou preocupação com a operação realizada em Caracas e solicitou avaliações sobre eventuais brechas estratégicas.

No diagnóstico apresentado, Lula teria ouvido que o Brasil não possui defesa aérea suficiente para resistir a uma ofensiva nos moldes da realizada pelos Estados Unidos na Venezuela. Segundo militares de alta patente, essa é uma percepção consolidada dentro das Forças Armadas: diante de ataques aéreos conduzidos por uma potência militar como os EUA, haveria pouca capacidade de resposta efetiva.

Militares que acompanharam as discussões relataram que as tratativas foram encaradas como emergenciais, justamente pelo efeito simbólico e geopolítico do ataque em Caracas. O episódio passou a ser visto como um fator de pressão para acelerar projetos de modernização e ampliar investimentos estratégicos em defesa.

Nesse contexto, o ministro da Defesa e os comandantes militares apresentaram um plano de investimentos de longo prazo, que prevê a aplicação de R$ 800 bilhões ao longo de 15 anos, com vinculação orçamentária, o que equivaleria a cerca de R$ 53,3 bilhões por ano.

O valor supera com folga os parâmetros atuais do orçamento militar brasileiro. O programa de defesa nacional prevê quase R$ 15 bilhões em 2026, enquanto o Orçamento estipula cerca de R$ 8 bilhões em investimentos neste ano. Também fica acima da exceção aprovada no arcabouço fiscal para projetos estratégicos de defesa, estimada em R$ 30 bilhões nos próximos seis anos.

A proposta foi divulgada publicamente pelos militares, que enxergaram no aumento da tensão na América do Sul um argumento para pressionar pela ampliação dos gastos no setor. De acordo com autoridades com acesso ao presidente, Lula recebeu bem o plano e passou a analisá-lo nos dias seguintes.

A leitura feita dentro do governo é que a América do Sul como um todo se encontra vulnerável e que o Brasil seria ainda mais exposto do que a Venezuela. A diferença, segundo essa avaliação, é que Lula adota uma postura menos confrontacional no cenário internacional, ao contrário de Maduro, citado como alguém que “esticou a corda” na relação com potências estrangeiras.

Paralelamente à crise, outro cenário se consolidou nos últimos meses pela via diplomática. Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vêm se aproximando e mantêm um canal direto de comunicação, com expectativa de um encontro em março, na Casa Branca.

Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo

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