Investigação da PF aponta que grupo coordenado por operador apelidado de “Sicário” monitorava jornalistas, adversários e ex-funcionários ligados ao Master
Uma investigação da Polícia Federal revelou indícios da existência de uma estrutura clandestina organizada para proteger os interesses do Banco Master e de seu controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro. Conversas obtidas pelos investigadores indicam que o grupo monitorava jornalistas, adversários e ex-funcionários, além de buscar informações sensíveis sobre pessoas consideradas ameaças ao banco.
O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde o ministro André Mendonça autorizou medidas cautelares após analisar uma decisão de 48 páginas que descreve o funcionamento do suposto esquema.
◎ Estrutura paralela de monitoramento
Segundo a decisão judicial, havia uma organização paralela chamada internamente de “A Turma”, que atuaria como uma espécie de milícia privada voltada à vigilância e à coleta de informações estratégicas. O grupo teria sido mobilizado para acompanhar jornalistas, monitorar críticos e levantar dados sobre possíveis riscos para o banqueiro e seus aliados.
As investigações apontam que a estrutura também acompanhava ex-funcionários e pessoas consideradas adversárias do conglomerado financeiro. O objetivo, segundo os autos analisados pelo STF, seria antecipar ameaças e neutralizar críticas que pudessem afetar os interesses do banco.
◎ Operador conhecido como “Sicário”
No centro das operações aparece Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado nas conversas pelo apelido “Sicário”. De acordo com a Polícia Federal, ele seria responsável por coordenar as atividades do grupo.
Os investigadores apontam que Mourão organizava equipes de vigilância, localizava alvos e reunia informações consideradas estratégicas. A apuração também indica que ele teria utilizado métodos ilegais para acessar dados restritos, realizando consultas com credenciais de terceiros.
Com esse procedimento, segundo os autos citados na decisão do STF, o operador teria conseguido acessar bases de dados de órgãos públicos brasileiros e até sistemas vinculados a instituições internacionais, como FBI e Interpol. A investigação ainda tenta esclarecer como um grupo privado teria obtido acesso a plataformas associadas a órgãos policiais estrangeiros.
◎ Operação digital para conter críticas
Além das atividades de monitoramento, a investigação aponta a existência de uma frente digital voltada à contenção de críticas ao banco. Mourão teria coordenado ações para remover conteúdos e perfis em redes sociais considerados negativos para o grupo.
Segundo os investigadores, esse trabalho incluía tentativas de pressionar plataformas digitais por meio de solicitações que simulavam pedidos institucionais de autoridades públicas, com o objetivo de excluir publicações críticas.
◎ Pagamentos de cerca de R$ 1 milhão por mês
A decisão do STF também descreve o funcionamento financeiro da estrutura conhecida como “A Turma”. Conversas analisadas pela Polícia Federal indicam que Mourão receberia aproximadamente R$ 1 milhão mensais para manter a operação ativa.
Nos diálogos citados nos autos, o investigado detalha a distribuição dos recursos entre integrantes da equipe, incluindo responsáveis pelo monitoramento presencial e pela produção de conteúdos favoráveis ao grupo. Parte dos valores permaneceria com o próprio coordenador, enquanto o restante seria repassado a colaboradores.
As transferências, segundo os investigadores, ocorriam por meio de intermediários ligados ao grupo. Em uma das mensagens, uma funcionária próxima a Vorcaro pergunta se o pagamento seria “um milhão como normalmente” antes de realizar o repasse para a conta indicada por Mourão.
De acordo com a Polícia Federal, a utilização de empresas intermediárias e transferências indiretas teria sido uma forma de dificultar o rastreamento dos recursos, o que pode configurar indícios de lavagem de dinheiro.
◎ Conversas sobre intimidação de críticos
As mensagens reunidas pela investigação também indicam discussões sobre possíveis retaliações contra jornalistas e outras pessoas que publicavam conteúdos críticos ao banqueiro.
Em um dos diálogos analisados pela PF, Mourão comenta sobre um jornalista que vinha divulgando reportagens negativas. Vorcaro então sugere que o profissional seja seguido para que se obtenham “tudo” sobre ele.
Em outra conversa, o banqueiro menciona a possibilidade de uma agressão simulada como se fosse um assalto. Para o ministro André Mendonça, os diálogos apontam uma dinâmica em que Vorcaro emitiria ordens e Mourão executaria as ações.
Na decisão, o magistrado afirma que há indícios de que o objetivo do grupo seria intimidar críticos e desencorajar a divulgação de reportagens desfavoráveis ao conglomerado financeiro.
◎ Ex-policial federal entre os investigados
Entre os integrantes apontados pela investigação está Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado. Segundo os autos, ele teria atuado no núcleo responsável pela coleta de informações e pelo monitoramento de pessoas consideradas relevantes para o grupo.
A decisão do STF indica que o ex-agente teria utilizado sua experiência na área de segurança para auxiliar nas atividades de vigilância e levantamento de dados.
◎ STF autorizou medidas mesmo com ressalvas da PGR
Outro ponto destacado na decisão judicial é que o ministro André Mendonça autorizou as medidas cautelares mesmo após manifestação contrária da Procuradoria-Geral da República (PGR), que havia sugerido mais tempo para análise do caso.
Ao justificar a decisão, o magistrado afirmou que a demora poderia colocar em risco pessoas que teriam sido alvo das ações investigadas. Segundo ele, havia indícios de que a estrutura descrita poderia continuar operando e interferindo nas apurações.
◎ Prisões e medidas cautelares
Com base nos elementos reunidos pela Polícia Federal, o STF determinou a prisão preventiva de quatro investigados e aplicou medidas cautelares a outros envolvidos.Entre os alvos de prisão estão o banqueiro Daniel Bueno Vorcaro, o empresário Fabiano Campos Zettel, o operador Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva.
Fonte: Brasil 247
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