quarta-feira, 4 de março de 2026

Governo monitora ataques a Lula nas redes e revê estratégia eleitoral

Mapeamento de publicações impulsionadas por aliados de Flávio Bolsonaro preocupa Planalto e PT, que discutem respostas políticas e jurídicas às críticas

       Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Integrantes do alto escalão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passaram a analisar um levantamento que identifica publicações impulsionadas nas redes sociais com críticas ao presidente e à gestão petista após o desfile de uma escola de samba que homenageou Lula durante o carnaval. A avaliação interna é de que a movimentação pode indicar uma estratégia antecipada da oposição para desgastar o governo no ambiente digital. As informações são do jornal O Globo.

O documento reúne dados sobre postagens patrocinadas por parlamentares, influenciadores e outras figuras públicas ligadas ao campo político adversário do governo. O material circula entre integrantes do Palácio do Planalto, da cúpula do PT e parlamentares aliados e tem sido utilizado para discutir possíveis ajustes na estratégia de comunicação e mobilização política diante da proximidade do ciclo eleitoral.

De acordo com o levantamento, ao menos 54 figuras públicas — entre deputados, senadores, prefeitos, vereadores e influenciadores — pagaram para impulsionar conteúdos críticos nas redes sociais. As publicações exploram principalmente a repercussão do desfile carnavalesco que homenageou Lula, episódio que acabou se tornando alvo de críticas de setores da oposição.

Nos bastidores do governo, o monitoramento é interpretado como um sinal de alerta sobre a atuação digital de adversários políticos. Integrantes governistas avaliam que o episódio pode representar uma prévia do tipo de ofensiva que deve ocorrer nas plataformas digitais ao longo do processo eleitoral.

Além do impacto das críticas nas redes, também causa preocupação entre aliados do presidente a possível repercussão de informações relacionadas à quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente. A medida foi determinada no âmbito da CPI do INSS e mantida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), além de contar com decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

● Debate sobre estratégia digital

O levantamento analisado por governistas detalha dados como o valor investido para impulsionar cada publicação, o alcance estimado das postagens e o público potencial impactado. De acordo com o documento, a maior parte dos anúncios custou até R$ 100, embora alguns tenham chegado a valores próximos de R$ 700.

A análise também aponta que o impulsionamento de críticas ao governo se tornou um tema central nas discussões internas do PT sobre comunicação digital e estratégia eleitoral. Desde o ano passado, o partido tem promovido oficinas para orientar militantes sobre atuação nas redes sociais — iniciativa que deve ganhar intensidade à medida que o calendário eleitoral se aproxima.

Outro movimento em curso é o reforço do diálogo com representantes das big techs, com o objetivo de discutir regras e práticas relacionadas à circulação de conteúdo político nas plataformas. A nova direção do PT, empossada no fim do ano passado, tem buscado reabrir canais de interlocução com empresas de tecnologia para discutir como elas atuarão em diferentes situações durante o processo eleitoral.

Relatos indicam que integrantes da cúpula do partido estiveram recentemente com representantes da Meta e apresentaram preocupação com o impulsionamento de publicações críticas ao governo. Um novo encontro entre representantes do partido e da empresa está previsto para ocorrer nos próximos dias.

● Discussões no TSE

O tema também chegou ao debate sobre as regras eleitorais conduzido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O PT apresentou sugestões durante a elaboração de uma resolução que atualiza normas para o pleito, questionando um ponto que estabelece que críticas ao desempenho de administrações públicas não configuram propaganda eleitoral antecipada negativa.

Para integrantes da sigla, essa interpretação pode criar desequilíbrio na disputa política, ao permitir que adversários utilizem esse tipo de conteúdo para atacar o governo antes do início oficial da campanha.

Na segunda-feira, dentro desse processo de atualização das normas eleitorais, o TSE decidiu proibir a divulgação de conteúdos eleitorais produzidos com inteligência artificial nas 72 horas que antecedem a votação.

● Declaração da Secom

Em meio à repercussão das críticas nas redes, o ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), Sidônio Palmeira, minimizou a polêmica e afirmou que o debate em torno do desfile carnavalesco foi impulsionado artificialmente.

Segundo ele, o episódio gerou um “debate falso”, motivado por “uma coisa impulsionada feita intencionalmente” e por “oportunismo eleitoral”.

O ministro afirmou ainda que caberia investigar os responsáveis pela movimentação digital. “Tem que averiguar, tem que ir atrás para identificar os responsáveis por isso. Isso é crime eleitoral”, declarou.

● Parlamentares e influenciadores no levantamento

Entre os nomes citados no documento estão o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), os deputados federais Filipe Barros (PL-PR) e Paulinho da Força (Solidariedade-SP), além de Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Filipe Barros, que possui cerca de 1,3 milhão de seguidores no Facebook e 775 mil no Instagram, impulsionou um vídeo com tom satírico sobre promessas de campanha de Lula. Ao comentar o caso, ele afirmou que o conteúdo não tratava do desfile de carnaval.

“O meu vídeo não fala da Acadêmicos de Niterói. Eu bati bastante nessa questão, mas essa postagem é uma marchinha de carnaval contra o PT. E não há problema (no impulsionamento) porque não chega a 1% do que dinheiro público gasto para fazer esse carnaval da escola de samba. E nunca usei cota parlamentar para impulsionar qualquer conteúdo”, disse o deputado.

Já o prefeito Ricardo Nunes impulsionou um vídeo em que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, critica o desfile. A publicação teve cerca de 375 mil impressões.

O deputado Paulinho da Força divulgou um vídeo criado com inteligência artificial que apresenta uma marchinha carnavalesca com críticas ao presidente. Na legenda da postagem, afirmou tratar-se do “verdadeiro samba enredo que deveria ter tocado no desfile”.

Em declaração ao jornal, o parlamentar afirmou que não houve coordenação entre os envolvidos e que utilizou recursos próprios para impulsionar a publicação.

“O dinheiro é meu, diferente do Lula que usou dinheiro público para pagar escola de samba. Ele tem que cobrar quem fez essa besteira de entrar nessa história de escola de samba e não quem impulsionou”, afirmou.

● Repercussão política do desfile

O desfile da escola Acadêmicos de Niterói, que prestou homenagem ao presidente Lula, gerou forte repercussão nas redes sociais e se tornou um dos principais temas explorados por adversários políticos do governo.

Entre as críticas mencionadas no levantamento está a alegação de que escolas de samba receberam recursos federais por meio da Embratur, além de questionamentos sobre elementos do desfile que fizeram referência a símbolos religiosos.

Aliados do presidente reconhecem, de forma reservada, que a presença de autoridades para acompanhar o desfile acabou ampliando o desgaste político. Segundo um aliado próximo de Lula, o episódio poderia ter sido evitado, já que não representaria ganhos políticos para o governo e poderia gerar atritos com segmentos religiosos, especialmente entre evangélicos.

Antes mesmo da apresentação na Marquês de Sapucaí, a possibilidade de participação de Lula e de integrantes do governo no evento já provocava divergências entre assessores e aliados, que temiam exposição política e eventual judicialização do episódio.

Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo

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