quarta-feira, 4 de março de 2026

Entulho da Lava Jato, “Japonês da Federal” ganha cargo na prefeitura de Cuiabá

      Jair Bolsonaro e o “Japonês da Federal”. Foto: reprodução

O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), nomeou o ex-agente da Polícia Federal Newton Hidenori Ishii, conhecido nacionalmente como “Japonês da Federal”, para o cargo de secretário-adjunto na administração municipal. A decisão feita na última segunda-feira (2) reacende controvérsias sobre a trajetória do ex-policial, que ganhou notoriedade durante a Operação Lava Jato, mas também foi condenado pela Justiça por facilitação de contrabando, rendendo um segundo apelido: o de “entulho da Lava Jato”.

Segundo a prefeitura, Ishii ocupará um cargo comissionado e atuará subordinado ao secretário-chefe da pasta, Ananias Filho (PL), atual presidente estadual do partido. A gestão municipal afirmou que espera que o novo secretário-adjunto contribua com a articulação institucional e com iniciativas de compliance, fortalecendo o diálogo entre diferentes áreas da administração.

Newton Ishii ficou conhecido do grande público durante a Operação Lava Jato, quando aparecia frequentemente conduzindo presos, políticos, empresários e doleiros, durante o cumprimento de ordens judiciais. A visibilidade transformou o agente em personagem popular nas redes sociais e até em marchinhas de carnaval, além de inspirar máscaras e bonecos gigantes durante festas em cidades como Olinda.

Antes da fama na Lava Jato, Ishii também teve atuação controversa. Em entrevista ao programa Conversa com Bial, exibido em 2018, ele revelou que trabalhou para a ditadura militar na década de 1970, atuando como infiltrado em ambientes acadêmicos para monitorar estudantes e professores.

Apesar da imagem pública construída durante a operação anticorrupção, Ishii já havia sido investigado e condenado por crimes relacionados ao contrabando na fronteira entre Brasil e Paraguai. Ele foi alvo da Operação Sucuri, que apurou a atuação de agentes públicos que facilitavam a entrada de mercadorias ilegais no país.
Newton Ishii, o “Japonês da Federal”. Foto: reprodução
As investigações apontaram que servidores envolvidos no esquema liberavam a passagem de veículos mediante pagamento de propinas que variavam entre 30 mil e 40 mil dólares. Ao todo, 28 pessoas foram investigadas no caso e a maioria acabou condenada, incluindo Ishii.

Em 2016, o ex-agente foi preso após condenação definitiva por facilitação de contrabando. A pena fixada foi de quatro anos e seis meses de prisão em regime semiaberto. Além disso, ele foi condenado a pagar multa de R$ 200 mil e perdeu o cargo público.

Mesmo condenado, Ishii chegou a aparecer novamente em operações policiais escoltando presos enquanto utilizava tornozeleira eletrônica, situação que gerou forte repercussão à época. O monitoramento eletrônico foi adotado porque não havia vagas no sistema penitenciário para cumprimento do regime semiaberto tradicional.

Após a condenação, o Tribunal de Contas da União também considerou irregular sua aposentadoria devido à forma de contagem do tempo de serviço. Ainda assim, em 2018 ele obteve aposentadoria especial voluntária após décadas de atuação na Polícia Federal.

A notoriedade conquistada durante a Lava Jato levou Ishii a se aproximar da política. Ele chegou a se filiar a partidos de direita e tentou construir carreira eleitoral, mas acabou desistindo de disputar cargos públicos.

Nos anos seguintes, passou a atuar como palestrante motivacional e consultor na área de compliance, oferecendo eventos voltados a empresas e instituições. Também lançou um livro relatando bastidores da Operação Lava Jato e experiências no convívio com presos investigados na operação.

Fonte: DCM

Nenhum comentário:

Postar um comentário