Ministro diz que tratar o País como empresa revela “falta de projeto nacional” e afirma que “na direita, quem tem voto é o Bolsonaro”
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, criticou duramente a visão de que o Brasil deveria ser administrado como uma empresa e ironizou a tese de um “novo CEO” para o País. Para ele, essa concepção revela “falta de um projeto nacional” e, na prática, reduz a população à condição de “empregados” do governante. “Tratar um País como se fosse a gestão de uma empresa privada mostra falta de um projeto nacional”, disse. “Se o presidente é CEO, ele (Tarcísio) deve enxergar a população como seus empregados”, completou.
As declarações foram dadas em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, na qual Boulos também mirou o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ambiente político-eleitoral que começa a se desenhar para 2026. Há três meses no cargo, o ministro afirma ter recebido do presidente Lula a missão de colocar “o governo na rua” e reacender a base social da esquerda, com foco em trabalhadores que, segundo ele, passaram a ser disputados pela direita — incluindo motoristas e entregadores de aplicativos, além de pequenos empreendedores.
● “Bolsonarismo envernizado” e disputa na direita
Boulos afirmou que setores do mercado financeiro desejariam uma direita com aparência mais palatável, mas sem romper com o bolsonarismo. “O time da Faria Lima adora um bolsonarismo envernizado”, disse, ao falar sobre a projeção de Tarcísio como alternativa. “Tudo o que eles querem é um bolsonarismo que coma de garfo e faca. Mas a Faria Lima não tem voto. Na direita, quem tem voto é o Bolsonaro”, completou, referindo-se ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso por tentativa de golpe.
O ministro também disse que, na prática, a definição do nome competitivo da direita dependerá da indicação de Bolsonaro. “Então, na prática, quem o Bolsonaro indicar como candidato, será o candidato”, afirmou.
● Polarização, pesquisas e o desafio de comunicação do governo
Questionado sobre a pesquisa Genial/Quaest em que a avaliação negativa do governo superou a positiva, Boulos atribuiu o resultado ao ambiente de polarização. “Hoje tem uma situação da polarização no Brasil e no mundo. O eleitor que se define como de direita vai desaprovar o governo do presidente, por mais que possa sentir melhora na vida dele, por uma razão da polarização ideológica. Acabou a era do consenso”, declarou, destacando que o mesmo levantamento aponta Lula como favorito à reeleição em diferentes cenários.
● Trump, soberania e recado ao “vira-lata”
Ao comentar o impacto eleitoral da política externa, Boulos defendeu a posição do presidente Lula diante das ações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e afirmou que o governo vai transformar o tema em eixo de campanha. “O que o presidente fez foi defender a paz no continente e dizer que nem o Brasil nem a América Latina devem admitir nenhum tipo de colonialismo, de imperialismo”, disse.
Boulos também citou episódios envolvendo Trump e criticou quem, segundo ele, relativiza agressões à soberania de países da região. “Mas no dia seguinte o Trump foi lá e sequestrou o Maduro e fez um ataque militar numa República soberana. Ele (Trump) disse que faria (a mesma coisa) na Colômbia, que tomaria a Groenlândia. Então, para defender esse tipo de política tem que ser muito vira-lata. Patriotismo não é só na hora de levantar a bandeira em manifestação”, afirmou.
● Três temas para 2026 e promessa de fim da escala 6x1
Boulos disse que a eleição será marcada por três grandes temas. “Primeiro: soberania nacional. Haverá uma discussão com a sociedade se a gente quer um Brasil soberano ou o Brasil como uma colônia dos Estados Unidos. Quem usou o bonezinho do MAGA vai ter que se explicar”, afirmou.
O segundo tema, segundo ele, será a tributação. “Justiça tributária. Esse é o governo que pela primeira vez mexeu no vespeiro de taxar super rico no Brasil e zerar o Imposto de Renda (para quem ganha até R$ 5 mil). Qual é a posição daqueles que vão ser nossos adversários?”, questionou.
O terceiro eixo é a pauta trabalhista. “Defesa dos trabalhadores. Este governo defende o fim da escala 6x1”, declarou, sustentando que o Planalto quer aprovar ainda neste ano duas agendas: o fim da escala 6x1, com redução da jornada de 44 para 40 horas semanais sem redução salarial, e um marco de direitos para trabalhadores de aplicativos.
● Aplicativos: limite de retenção e transparência do algoritmo
Sobre a regulamentação das plataformas, Boulos descreveu um cenário em que a parcela retida pelas empresas pode chegar a metade do valor das corridas. “No caso dos motoristas, a taxa de retenção pode chegar a 50%. O texto do projeto de lei coloca um limite de 30%”, disse.
Para entregadores, apontou a disputa por um ganho mínimo por entrega e citou parâmetros debatidos no setor. “O iFood já trabalha com taxa mínima de R$ 7,50, em entregas até 3 quilômetros, e R$ 1,50 por quilômetro adicional. A demanda deles é que isso chegue a R$ 10 (fixos) e R$ 2,50 por quilômetro adicional. O projeto chegou a R$ 8,50”, afirmou.
O ministro também enfatizou a exigência de transparência algorítmica. “É inadmissível que um motorista não saiba o quanto o cliente está pagando; só saiba o quanto ele recebe. E que um motoboy, ao não aceitar uma corrida, receba uma punição algorítmica e fique duas horas sem receber outra chamada”, afirmou, defendendo ainda “uma contribuição majoritária das empresas para o INSS e uma minoritária dos trabalhadores”.
● Emendas, “captura do Orçamento” e freio de arrumação
Boulos minimizou o impacto político do veto presidencial a cerca de R$ 400 milhões em emendas parlamentares e criticou o volume total aprovado no Orçamento. “Nós estamos vivendo um negócio do rabo abanando o cachorro. R$ 61 bilhões em emenda aprovados no Orçamento? Gente, isso é uma esculhambação. Como é que você vai governar o Brasil desse jeito? Você perde a noção de projeto de país”, disse. “Nesse estágio, em algum momento, nós vamos ter que fazer um freio de arrumação”, completou.
● Segurança pública e confronto com Flávio Bolsonaro
Na disputa eleitoral, o ministro disse estar pronto para enfrentar ataques relacionados à sua trajetória em movimentos sociais e reagiu a críticas sobre “invasões”. “Existe um preconceito tremendo contra o movimento social. O Movimento Sem-Teto nunca invadiu a casa de ninguém”, declarou, explicando que o MTST “identificou imóveis em situação ilegal” e pressionou pelo cumprimento do Estatuto da Cidade.
Sobre segurança pública, Boulos afirmou que, caso o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seja candidato, o governo pretende confrontá-lo diretamente. “Eu estou doido para o Flávio Bolsonaro, se for o candidato, falar de segurança pública porque daí a gente vai falar de milícia do Rio de Janeiro, de Rio das Pedras, de Adriano da Nóbrega, que teve familiar assessor no gabinete dele, de Escritório do Crime”, disse. “Qual é a autoridade moral do Flávio Bolsonaro para falar de segurança?”, completou, defendendo a PEC enviada por Lula para ampliar responsabilidades federais no tema.
● Evangélicos, nova classe trabalhadora e lições de 2024
Boulos afirmou que a esquerda precisa aprender a dialogar com a nova classe trabalhadora e disse ter tirado lições da eleição municipal de 2024, quando concorreu à Prefeitura de São Paulo. “A gente aprende mais na derrota do que na vitória”, afirmou, defendendo “um diálogo franco” com segmentos que hoje vivem de ocupações informais.
Sobre evangélicos, apontou a necessidade de reconstruir pontes. “Nós temos que repensar, inclusive, a relação de resistência que se construiu, dos dois lados, entre a esquerda e o povo evangélico”, disse, descrevendo o perfil majoritário do grupo como “mulheres das periferias que usam o SUS” e têm filhos na escola pública.
● Permanência no governo e papel em São Paulo
Questionado sobre deixar o cargo para disputar as eleições, Boulos disse que pretende permanecer. “Eu pretendo ficar, porque entrei no governo em outubro. O presidente me fez pedidos, me deu missões, e eu não largo missão no meio do caminho”, afirmou, acrescentando que tem compromisso de ajudar na construção do palanque em São Paulo.
Ao comentar a indefinição de nomes para o governo paulista, voltou a criticar a retórica do “CEO” e a postura de Tarcísio. “Tratar um país como se fosse a gestão de uma empresa privada? Isso mostra a cabeça tacanha, a falta de projeto nacional e de projeto popular”, declarou, retomando a síntese de sua crítica: “Se o presidente é CEO, ele (Tarcísio) deve enxergar a população como seus empregados”.
Fonte: Brasil 247

