Planalto vê menor espaço para exploração eleitoral da aliança histórica do PT com o chavismo
O presidente Lula adotou um tom mais cauteloso e passou a evitar declarações públicas sobre a atuação dos Estados Unidos na Venezuela, depois de uma reação inicial mais enérgica, segundo avaliação de integrantes do governo
As informações constam em reportagem do jornal Folha de S.Paulo, que relata que, apesar do cuidado diplomático, auxiliares do presidente consideram que a aproximação entre Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e Delcy Rodríguez tende a reduzir a capacidade de a oposição explorar, na eleição, a relação histórica do PT com o chavismo.
☉ Menos munição para ataques e tentativa de “colar” Lula a Maduro
De acordo com a avaliação de aliados do Planalto, a saída de Nicolás Maduro do centro da crise, após ser retirado da Venezuela por militares norte-americanos para ser julgado nos EUA, deixa Lula em posição politicamente mais confortável, por esvaziar tentativas de associação direta entre os dois líderes.
Ainda segundo interlocutores citados, a decisão de Trump de reconhecer Delcy Rodríguez, então vice-presidente venezuelana, como principal interlocutora de Washington, e de escantear a opositora María Corina Machado, também reduziria a pressão política sobre o governo brasileiro.
O texto aponta ainda que Lula já vinha, desde 2024, calibrando o distanciamento de Maduro, ao não reconhecer de forma aberta a vitória do líder venezuelano na última eleição, marcada por denúncias de fraude.
☉ Itamaraty evita sinalizar endosso ao regime venezuelano
Mesmo com o Itamaraty classificando o episódio como um “sequestro”, houve, nos bastidores, cautela para que a posição do Brasil não fosse interpretada como endosso ao regime de Caracas, conforme a reportagem.
A preocupação, segundo auxiliares, é administrar o custo político interno sem abrir uma crise diplomática adicional em um cenário internacional já instável e altamente polarizado.
☉ PT aposta em campanha com foco no bolso e no trabalho
No plano eleitoral, petistas avaliam que temas internacionais tendem a ter influência reduzida na campanha presidencial, não apenas no caso da Venezuela, porque frequentemente não afetam o cotidiano do brasileiro e acabam perdendo ressonância junto ao eleitorado.
A estratégia do partido, de acordo com a reportagem, é priorizar uma agenda doméstica e destacar medidas como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000.
Outra frente é reforçar propostas ligadas ao mundo do trabalho e ao custo de vida, incluindo o fim da escala 6x1 e a tarifa zero para transporte público, iniciativas que o PT considera capazes de mobilizar apoio em bases populares e também em segmentos urbanos.
☉ Relação Brasil–EUA deve entrar na disputa pelo episódio do “tarifaço”
Ainda segundo o relato, a relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos pode aparecer na campanha a partir da reação de Lula ao tarifaço imposto por Trump em 2025.
A linha política pretendida por aliados do presidente é sustentar que o governo buscou reverter o cenário sem abrir mão da soberania nacional, transformando um conflito comercial em vitrine de firmeza diplomática e capacidade de negociação.
☉ Principal temor envolve interferência externa e plataformas digitais
Apesar do diagnóstico de que a agenda internacional terá menor peso, persiste um temor central no Planalto, a possibilidade de interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral, não apenas por ações oficiais, mas também por meio de plataformas digitais.
A expectativa descrita por auxiliares é que o relacionamento positivo construído entre Lula e Trump desde o primeiro encontro entre ambos na Assembleia-Geral da ONU diminua o risco de uma ingerência direta.
Ainda assim, a imprevisibilidade de Trump e a volatilidade do cenário internacional mantêm aliados apreensivos, especialmente diante da avaliação de que o presidente norte-americano poderia repetir, no Brasil, estratégias políticas atribuídas a episódios recentes na Argentina e em Honduras, com sinalizações públicas e condicionantes de apoio que tensionam disputas domésticas.
Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo
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