O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, participou de uma entrevista coletiva com canais de mídia independente nesta quarta-feira (28). O evento foi promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e contou com a participação do DCM e de outros veículos.
Eleições 2026: Boulos será candidato?
Meu plano para este ano é ajudar a reeleger o presidente Lula. Essa é a tarefa de todo o campo de esquerda, de todo o campo progressista no Brasil. Obviamente não é a única tarefa, pois também precisamos fazer uma bancada maior do que temos hoje no Congresso Nacional para ganhar e levar, porque a gente ganhar com um projeto e esse projeto ficar sendo continuamente sabotado, inclusive pelo sequestro orçamentário por meio das emendas, não dá. É um problema real. Temos que ter uma atenção muito forte para a eleição parlamentar.
Agora, existe, no meu caso, uma particularidade. Eu estou pelo projeto e pelo lugar que seja o melhor para ajudar o presidente Lula. É nesse lugar que estarei. De todos os ministros, eu sou o mais recente e cheguei com a missão de botar o governo na rua e trazer pautas importantes, como a dignidade para os trabalhadores de aplicativo e o fim da escala 6×1. Esse conjunto de questões que o presidente pediu que eu fizesse, para que seja executado com começo, meio e fim, faria ser muito difícil eu já ter que sair em março. Meu compromisso se dá para a construção de palanques competitivos, especialmente em São Paulo, que é de onde sou, de onde me fiz o deputado federal mais votado e que representei nas últimas duas eleições, indo ao segundo turno na capital. Mas acho que posso contribuir mais estando aqui no governo, fazendo esse processo de qualificar e melhorar a relação do governo com nossa base social e atuando junto à coordenação de campanha do presidente Lula.”
Emendas Impositivas x Orçamento Participativo
Sem papas na língua, sou inteiramente a favor de que o STF julgue inconstitucionais as emendas impositivas. A emenda impositiva é o que dá a condição do sequestro do orçamento. O orçamento secreto é consequência delas. Nos governos Lula 1 e 2, o orçamento não era impositivo. O máximo de emenda parlamentar individual, sem ser impositiva, era de R$ 4 milhões. Hoje, as emendas estão chegando a R$ 40 milhões só as individuais, sem falar nas emendas de bancada e de comissão, e são impositivas. Isso chega a R$ 61 bilhões destinados a emendas. Como fazer uma política pública estruturante em que o governo possa planejar e definir prioridades, se uma parcela tão grande do orçamento está sendo destinada no varejo, no picado, seguindo não o planejamento de política pública, mas uma lógica que, ao fim do dia, é eleitoral? Isso é inconstitucional porque toma uma competência que é do Executivo e dá para o Legislativo.
Sobre o Orçamento Participativo, estamos iniciando aqui na Secretaria-Geral da Presidência uma experiência muito pioneira chamada Orçamento do Povo, que é justamente a gente construir uma lógica, inclusive pedagógica, de apropriação do orçamento pela população. Ainda estamos construindo internamente, junto do Ministério do Planejamento e com a companheira Gleisi, da Secretaria de Relações Institucionais. Estamos fazendo reuniões de aprimoramento do projeto e acredito que, até o final do mês que vem, estaremos prontos para lançar a ideia para funcionar já neste ano.
Como trazer os jovens para a campanha de Lula?
Esse é um tema que vamos discutir no momento da campanha, mas que tem a ver não só com a campanha do Lula de agora, mas com uma disputa de futuro. Como a extrema-direita passou a capturar uma parte do sentimento e da consciência da juventude brasileira? Foi através das redes sociais, foi com guerrilha digital. Se você olhar que, nas eleições de São Paulo, com métodos muito abjetos, o Pablo Marçal conseguiu um voto de juventude muito significativo, é uma expressão disso. A extrema-direita conseguiu manejar o algoritmo e construir um discurso mais sedutor nas redes.
Temos instrumentos que não devem ser de governo. O Bolsonaro fez isso com o gabinete do ódio partindo aqui do Planalto. Nós não podemos repetir isso. O que temos que fazer é travar uma disputa que passa pela organização de redes, pelos ecossistemas de esquerda nas redes sociais e pelos canais progressistas. E isso passa muito pelo elemento antissistema. A extrema-direita vendeu um conteúdo completamente sistêmico com uma estética antissistema. Uma estética de performar revolta, como o Pablo Marçal, que não tem nada de novo, é um defensor dos bilionários, com ideias mais atrasadas que a minha avó, neoliberal, ultraindividualista e meritocrático. E, até onde me consta, no sistema capitalista em que a gente vive, quem é o sistema são os donos do capital. Quando a extrema-direita foi contra milionários? Pelo contrário, eles atacam trabalhadores e protegem os super-ricos. Mesmo assim, eles conseguiram vender uma estética antissistema pelo manejo da rede. Um museu de novidades que é uma velharia do ponto de vista do conceito. Temos que mostrar quem de fato é contra esse sistema.
Lula é muito mais antissistema do que bolsonaro
Pode parecer chavão o que vou dizer agora, mas entre Lula e Bolsonaro não há a menor dúvida de que Lula é mais antissistema do que Bolsonaro. As pessoas olham que Lula já foi presidente três vezes e está na política há 40 anos e, por não ser uma novidade política, seria alguém ‘adaptado à ordem’. Mas, pera lá, foi Lula que está zerando o imposto de renda do povo e está taxando bilionários, bets e bancos. Isso é o terror do sistema, das grandes corporações, banqueiros e milionários. Se comunicarmos isso em modelo e formato de rede social, somos capazes de arrastar muito bem a juventude neste ano e para a continuidade do nosso projeto.
Sair da defensiva histórica
Nos últimos oito meses, saímos do corner. A verdade é essa. Passamos os primeiros dois anos do governo Lula no canto do ringue, na defensiva, tendo o governo, mas com a extrema-direita e o centrão pautando a vida pública do país. De oito meses para cá, a virada importante veio e teve o presidente como protagonista. Isso permitiu a gente respirar e tomar as ofensivas, como no caso do IOF. Depois veio o tarifaço e a Lei Magnitsky. Se Lula fosse seguir conselhos do Tarcísio, teria dado uma vitória a Trump. Aliás, tenho me perguntado se Tarcísio perdeu o bonezinho do MAGA ou tomou vergonha na cara, pois nunca mais vi ele com aquele boné.
Lula fez o enfrentamento soberano, se colocou com altivez, dignidade e ganhou uma batalha contra a liderança do país mais poderoso do planeta. Depois voltamos para a rua com força em temas como a PEC da blindagem e da anistia. O diagnóstico é que, em 2025, saímos da defensiva, mas ainda não saímos da defensiva histórica, que aí vem o tema da disputa territorial e da guerra cultural. Nessas disputas, ainda não conseguimos alinhar inteiramente nossas tropas. Mas, em termos de defensiva conjuntural, nós invertemos. É a direita brigando entre si e Bolsonaro na Papuda, enquanto Lula segue bem avaliado, ao mesmo passo que aqueles que já queriam escrever o epitáfio político dele e já distribuir os ministérios de um eventual governo de direita em 2027 agora estão brigando para garantir espaço em palanque eleitoral ao lado de Lula.
Como combater Tarcísio em São Paulo?
Eu não tenho como entrar em debate de nomes, pois seria deselegante da minha parte. Os partidos do nosso campo e o presidente Lula estão empenhados em pilotar isso e levar uma chapa forte. Mas, parafraseando Mao Tsé-Tung, Tarcísio é um ‘tigre de papel’. O Tarcísio tem aprovação inercial da direita em São Paulo, que sempre tem uma aprovação inercial por conta de o interior do estado ter um perfil mais conservador e garantirá isso mesmo que o governador não faça nada. Mas ele tem muito telhado de vidro.
Cito duas questões. O tema da Sabesp. O cara comandou a privatização da maior empresa de saneamento da América Latina, que era lucrativa, bem avaliada e que prestava excelente serviço para o povo de São Paulo. A promessa dele reiterada era de que a conta de água não aumentaria enquanto o serviço iria melhorar. O que aconteceu foi que, em um ano, a conta aumentou e São Paulo está sofrendo pré-racionamento de água.
O outro tema é o da segurança pública, que a direita sempre joga como se fosse um problema para a esquerda discutir. Como anda o tema da segurança pública em São Paulo? Uma explosão de feminicídios, a retórica de uma polícia mais forte. Em termos de resultados reais, sob a gestão de Derrite, é uma mediocridade e muitos retrocessos. Esse calcanhar de Aquiles deverá ser tratado em campanha eleitoral.
O caso do Banco Master
O caso do Banco Master, me relembra a fatídica reunião que foi divulgada do Bolsonaro querendo trocar o comando da Polícia Federal por causa do caso da rachadinha do Flávio. Imagine se agora estivéssemos sob o governo Bolsonaro. Não teríamos investigação no caso do INSS nem do Banco Master. O presidente Lula dá autonomia para a Polícia Federal investigar e coloca a CGU com transparência, doa a quem doer. E é assim que tem que ser. Pau que bate em Chico bate em Francisco.
Agora, acho muito curioso, nestes últimos dias, que alguns jornalistas da grande mídia estão fazendo ilações, alegando que o Vorcaro se reuniu com Lula, como se fosse de agora. Isso foi muito antes de qualquer suspeita de fraude, assim como ele se reuniu com pessoas do Grupo Globo, da Veja, da Folha de S.Paulo e de vários outros órgãos, com ministros e muitos outros, como é comum que grandes empresários e banqueiros também se reúnam. Alguém é mãe Dináh para saber que o cara está envolvido com isso ou aquilo?
O que tem de fato é que o Cláudio Castro tem o esquema do Rio Previdência, que o Ibaneis Rocha tem o negócio do BRB. O que se diz do Ciro Nogueira e de outras figuras do centrão bolsonarizado vai para além de uma simples reunião. Deixa a Polícia Federal investigar para vermos como ficará isso.
Dias Toffoli deve se afastar do caso Master?
Não tenho como pré-julgar uma atitude dos ministros do STF que estão acompanhando o caso. Agora, é lógico que existem mecanismos contra conflito de interesse e isso tem que ser efetivado. Não faz sentido um ministro julgar um caso ao mesmo tempo em que seja direta ou indiretamente interessado nele. É assim no Executivo e no Legislativo e tem que ser assim no Judiciário. Não podemos naturalizar conflitos de interesse.
Fonte: DCM
