Investigação aponta cobrança de propina como “imposto” e movimentação de quase R$ 800 milhões em recursos públicos
A Polícia Federal identificou um esquema de comercialização de emendas parlamentares no Ceará, com cobrança de propina que era tratada internamente como “imposto”. Segundo relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), o deputado federal Júnior Mano (PL-CE) é apontado como um dos líderes da organização criminosa, informa Carlos Madeiro, do UOL.
De acordo com a investigação, o grupo teria movimentado cerca de R$ 800 milhões em recursos públicos entre 2020 e 2025. Apenas entre 2023 e 2025, empresas ligadas ao esquema registraram receitas de R$ 455,5 milhões, com um suposto caixa dois estimado em R$ 54,6 milhões. O parlamentar foi indiciado por quatro crimes, mas nega qualquer irregularidade e afirma ser alvo de vazamentos com motivação política.
● Como funcionava o esquema
A apuração teve início em 2024, após denúncia da ex-prefeita de Canindé, Maria do Rozário, que relatou ameaças e afirmou que o grupo oferecia emendas mediante devolução de até 15% dos valores. Segundo a PF, o esquema era comandado por Júnior Mano e pelo empresário Carlos Alberto Queiroz Pereira, conhecido como Bebeto do Choró.
As investigações apontam que as emendas eram tratadas como ativos financeiros, com cobrança de percentuais fixos sobre os repasses destinados a municípios cearenses. O uso de emendas RP-9, conhecidas como orçamento secreto, e transferências especiais — chamadas de emendas Pix — teria facilitado a operação devido à baixa rastreabilidade.
Mensagens interceptadas pela polícia reforçam os indícios. Em um dos trechos, o relatório aponta: “a menção reiterada à cobrança de ‘imposto’ (possivelmente comissão irregular ou fração de repasse), e o controle informal da origem e destino dos recursos reforçam o indício de práticas ilícitas na manipulação e rateio de valores públicos”.
● Conversas interceptadas revelam negociação
Diálogos obtidos pela PF mostram tratativas diretas sobre repasses e porcentagens. Em uma conversa de setembro de 2024, Bebeto do Choró negocia recursos de saúde: “ei, meu fi... o pessoal do Guimarães querem fazer um negócio de um milhão e meio de emenda de saúde... Que aí eu fico mais... no máximo 12%. Indicação pra Choró”.
Na sequência, ele complementa: “Aí indica agora dia 6 de outubro... aí já é logo carimbada”. A resposta do assessor do deputado foi objetiva: “pronto, Arrocha”.
● Pressão sobre a Caixa Econômica Federal
A investigação também aponta que o grupo atuava para acelerar a liberação dos recursos, pressionando órgãos técnicos. A Caixa Econômica Federal era um dos principais alvos, já que o banco é responsável por medições e pagamentos de obras públicas.
Segundo a PF, o deputado teria solicitado a nomeação de aliados para cargos estratégicos, com o objetivo de “colocar os recursos para encaminharem”. Em um áudio, Bebeto orienta um assessor a pressionar um servidor da Caixa: “meu fi vai pra cima do [servidor], usa tuas amizades aí... quero finalizar uma situação com o nosso deputado”.
O assessor responde: “Bebeto, hoje eu fui na Caixa cobrar isso daí rapaz, tu é doido. Falei foi com o gerente mesmo... Me dê até amanhã pra eu resolver isso daí”.
● Influência sobre prefeituras
Além do desvio de recursos, a PF concluiu que o grupo buscava ampliar sua influência política por meio do controle de prefeituras. A estratégia envolvia financiar campanhas de aliados com recursos desviados e, posteriormente, direcionar contratos públicos para empresas ligadas à organização.
Em uma das conversas interceptadas, Júnior Mano afirma: “Cascavel, Morada Nova, Canindé, eleição é nossa”.
Já Bebeto do Choró sintetiza a lógica do grupo ao dizer: “pode dar segurança a eles, quem ganha a eleição é nós viu. Você sabe que eu não tenho paixão não, sou empresário, sou investidor”.
● Crimes e defesa
Júnior Mano e Bebeto do Choró foram indiciados por organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção eleitoral e falsidade ideológica. Bebeto foi eleito prefeito de Choró em 2024, mas teve o mandato cassado antes da posse e está foragido desde dezembro do mesmo ano.
A defesa do deputado nega as acusações e afirma: “Depois de um ano de uma ruidosa investigação, a Polícia Federal nada encontrou de relevante contra o deputado Júnior Mano. As conclusões do relatório final são exageradas, genéricas e sem provas”.
O texto também sustenta que o parlamentar “não participou de licitações e, portanto, não tem como controlar a aplicação final de recursos federais”, além de criticar o vazamento de informações em período pré-eleitoral.
Já a defesa de Bebeto do Choró declarou que “não comenta estratégias relacionadas a processos em andamento, por entender que tais discussões devem se limitar ao âmbito judicial”.
Fonte: Brasil 247 com informações do UOL
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