Por Leonardo Sakamoto, publicado no UOL
Há algo de didático, quase pedagógico, na transferência de Jair Bolsonaro da carceragem da Polícia Federal para a Papudinha, parte do Complexo Penitenciário da Papuda. Não porque o sistema penal brasileiro tenha, de repente, decidido funcionar como manda o figurino, mas porque a mudança desmonta a narrativa de excepcionalidade que sempre acompanhou o ex-presidente.
Jair e sua família reclamavam sistematicamente da carceragem da PF no Distrito Federal, onde ele estava preso por tentativa de golpe de Estado. Reclamavam de ruído do ar condicionado, da falta de acesso a uma TV com streaming, do tamanho do espaço, do pouco tempo de acesso ao sol.
Tanto chiaram que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, atendeu ao pedido de mudança de local. Mas, ao invés de enviá-lo para casa, como desejavam, o transferiu para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a Papudinha, parte isolada do complexo penitenciário.
Moraes apresentou, em sua decisão, uma comparação entre os dois espaços. Bolsonaro saiu de uma cela com 12 m2 para outra com quase 65 m2, com cozinha, banheiro, quarto, varanda e quintal descoberto. Os médicos terão acesso a ele 24 horas por dia e poderá continuar recebendo visitas da família. O local é extremamente seguro, onde ficam policiais militares que cometeram crimes, e já hospeda o ex-ministro da Justiça, Anderson Torres — um de seus cúmplices na tentativa de golpe.
Só por curiosidade: reportagem de Lucas Almeida, no UOL, em novembro passado, por ocasião da prisão de Torres, apontou que a cela de 65 m2 era maior que 85% dos apartamentos lançados em São Paulo entre janeiro e junho de 2025.
Convém lembrar que a carceragem da PF nunca foi o inferno dantesco descrito por seus aliados nas redes. Tratava-se de um ambiente controlado, com pouca gente, segurança reforçada e rotina previsível, muito distante do que enfrentam diariamente milhares de presos Brasil afora. A transferência, portanto, pode ser um upgrade, mas o que importa é que ele sai de uma exceção e vai para a regra, da PF à penitenciária. E com acomodações confortáveis, dignas de um ex-presidente da República.
O bolsonarismo sempre operou sob a lógica do privilégio travestido de injustiça. Quando está no poder, chama de prerrogativa. Quando perde, chama de perseguição. O mesmo discurso que naturalizou rachadinhas, ataques às instituições e defesa do golpismo agora tenta convencer que a aplicação da lei é vingança. Não é.
Há também um simbolismo difícil de ignorar. Durante quatro anos, Bolsonaro tratou o Estado como extensão do quintal de casa. Confundiu cargo público com patrimônio privado e Forças Armadas com sua torcida organizada. A transferência para a Papudinha sinaliza, ainda que tardiamente, que o país não funciona assim. Ao menos, não deveria.
E cumprimento de pena se faz em penitenciárias. Bolsonaro estava pagando 27 anos e três meses em uma cela da PF por uma concessão. “Ah, mas e o Lula?”, questionarão os afoitos. Nos 580 dias em que permaneceu na carceragem da PF em Curitiba, ele ainda estava esperando uma decisão final da Justiça. Sim, seu caso ainda não havia transitado em julgado. Foi mandado para a cadeia devido ao entendimento vigente na época de que bastaria uma condenação em segunda instância. Mas cumprimento de pena mesmo só após a palavra final. E se o STF confirmasse, ele bem poderia ser transferido para um presídio.
Se há algo que incomoda profundamente seus seguidores, não é o local da prisão, mas o fim do personagem. O mito que não se curva, que desafia o sistema e sai ileso, dá lugar a um réu comum, sujeito às mesmas regras processuais que qualquer cidadão. Sem live, sem cercadinho, sem decreto. Apenas decisões judiciais.
É claro que a narrativa da vitimização seguirá firme. A defesa e a família de Bolsonaro exigem prisão domiciliar. Alegam idade, problemas de saúde, perseguição política e, como de costume, um conjunto de circunstâncias que, somadas, só valem quando o CPF é o dele.
Sim, esses argumentos não existem para presos pobres, negros ou anônimos. Para o bolsonarismo, a cadeia sempre foi sinônimo de merecimento. No caso de Bolsonaro, virou sinônimo de abuso.
Mesmo que Jair fosse transferido para um hotel cinco estrelas em Brasília, os bolsonaristas iriam reclamar, como estão fazendo nas redes sociais. Na verdade, não aceitam nada menos que uma prisão domiciliar como etapa para uma anistia total.
A democracia não se consolida quando pune inimigos, mas quando trata iguais como iguais, inclusive aqueles que fizeram de tudo para enforcá-la. A transferência de Bolsonaro não é espetáculo, revanche ou sadismo institucional. É, no máximo, a confirmação de que o país começa a reaprender uma lição básica: ninguém está acima da lei, nem mesmo quem passou a vida gritando que estava.
Bolsonaro queria sair de onde estava, foi atendido. Apostou na prisão domiciliar, mas recebeu a Papudinha. Não é sacanagem. É o Estado tentando voltar ao lugar que nunca deveria ter abandonado.
Fonte: DCM
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