domingo, 18 de janeiro de 2026

Lula pede mais tempo para decidir sobre convite de Trump para “Conselho da Paz” em Gaza, dizem auxiliares

Governo avalia riscos diplomáticos e geopolíticos antes de responder à proposta dos EUA, que já enfrenta críticas por excluir palestinos

         Presidente Lula durante entrevista coletiva à imprensa (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

O presidente Lula quer mais tempo para decidir se aceitará ou não o convite do governo dos Estados Unidos para integrar o chamado “Conselho da Paz” em Gaza, iniciativa anunciada pela gestão do presidente Donald Trump, atual presidente dos EUA, com a promessa de supervisionar a reconstrução e a transição política no território palestino.

As informações foram publicadas pelo jornal O Globo, que ouviu pessoas próximas ao presidente e interlocutores do governo brasileiro. Segundo esses relatos, a avaliação interna é de que uma resposta precisa ser construída com cautela, diante do peso diplomático e do impacto internacional que a adesão ao órgão pode provocar.

De acordo com um interlocutor do governo, não há como responder ao convite “sem entender as consequências”, ressaltando que “essa decisão não pode ser tomada de forma açodada”. A orientação, segundo auxiliares, é que qualquer posição oficial do Brasil seja tomada apenas após uma análise minuciosa sobre os desdobramentos políticos e geopolíticos do novo conselho.

A expectativa no Palácio do Planalto é que Lula só comece a discutir o tema com seus auxiliares a partir de segunda-feira. O convite foi feito na sexta-feira e chegou ao governo brasileiro por meio da embaixada do Brasil em Washington. Procurado, o Itamaraty não se manifestou.

◎ Conselho proposto pelos EUA mira reconstrução e transição política em Gaza

A proposta do chamado Conselho da Paz tem como objetivo, segundo os Estados Unidos, supervisionar a reconstrução, a governança e a transição política da Faixa de Gaza após o cessar-fogo mediado pelos norte-americanos, em meio a um conflito que já dura mais de dois anos entre Israel e o Hamas.

No entanto, a iniciativa tem sido alvo de críticas internacionais, principalmente pelo fato de que não prevê representantes palestinos no núcleo decisório, o que, para diversos setores da comunidade internacional, pode comprometer a legitimidade política do órgão e aprofundar a percepção de tutela externa sobre um território historicamente marcado por ocupação, violência e bloqueios.

Outro ponto que desperta reservas entre diplomatas e auxiliares de Lula é o protagonismo explícito dos Estados Unidos na formatação do conselho, sugerindo que o grupo pode atuar mais como extensão da estratégia geopolítica norte-americana no Oriente Médio do que como um mecanismo realmente multilateral.

◎ Dúvidas no governo brasileiro incluem composição do grupo e eficácia real

Segundo o relato publicado, integrantes do governo brasileiro consideram que a composição do conselho inclui figuras vistas como controversas para Brasília, o que amplia o desconforto sobre o real alcance do projeto e sobre a possibilidade de o Brasil ser associado a uma iniciativa com baixa capacidade de gerar resultados efetivos.

Até aqui, o governo brasileiro não confirmou oficialmente se aceitará participar do órgão. Auxiliares do presidente reforçam que a decisão será tomada somente após uma avaliação completa sobre impactos diplomáticos, coerência com a tradição da política externa brasileira e efeitos sobre a credibilidade internacional do país.

◎ Convite de Trump foi enviado a outros líderes globais

A solicitação enviada ao Brasil também foi feita a outros líderes, entre eles o presidente da Argentina, Javier Milei, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney.

A lista evidencia a intenção dos EUA de reunir diferentes forças regionais e internacionais em torno do conselho, ainda que as divergências políticas entre os próprios convidados possam dificultar qualquer coordenação consistente.

◎ Brasil defende cautela e preservação de sua posição diplomática

No caso brasileiro, a decisão tem peso ainda maior porque envolve a imagem do país como ator internacional historicamente associado à defesa da solução negociada e do diálogo multilateral, com tradição de participação em fóruns internacionais sob o princípio da autodeterminação dos povos.

É nesse contexto que a avaliação do Palácio do Planalto, conforme descrito por interlocutores, é de que qualquer resposta precipitada pode gerar custos diplomáticos, seja com parceiros estratégicos, seja com países do Oriente Médio, seja com setores que defendem maior protagonismo palestino nas decisões sobre o futuro de Gaza.

Com isso, a orientação predominante no governo é que o Brasil não assuma compromissos sem compreender plenamente o formato do conselho, seus poderes reais, seu grau de legitimidade internacional e as consequências de uma eventual adesão — especialmente se o órgão continuar sendo criticado por excluir os palestinos e concentrar decisões estratégicas nas mãos de Washington.

A tendência, por ora, é de que Lula aguarde mais informações e conduza o tema internamente antes de responder formalmente ao convite.

Fonte: Brasil 247

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