quinta-feira, 12 de março de 2026

Assessor de Trump pede reunião de última hora com o Itamaraty

Diplomatas ainda avaliam se irão receber Darren Beatie, um dos principais ideólogos da extrema direita nos EUA

      Darren Beattie (Foto: Departamento de Estado)

O Ministério das Relações Exteriores analisa se irá atender ao pedido de reunião apresentado pelo enviado especial do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para assuntos relacionados ao Brasil. A solicitação partiu de Darren Beattie, que planeja iniciar uma visita ao país na próxima segunda-feira (16), mas foi encaminhada de forma considerada incomum pela diplomacia brasileira. As informações são da Folha de São Paulo.

O pedido de encontro com o Itamaraty foi transmitido pela embaixada dos Estados Unidos em Brasília por e-mail e mensagens de WhatsApp, sem a formalização por meio de nota verbal — procedimento habitual em agendas diplomáticas desse nível.

De acordo com integrantes do governo brasileiro, a solicitação ocorreu apenas depois de o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes pedir ao chanceler Mauro Vieira informações sobre eventual agenda oficial de Beattie no país. A consulta do magistrado buscava embasar a decisão sobre a autorização de um encontro entre o emissário norte-americano e o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão na Papudinha.

A defesa de Bolsonaro havia solicitado que a visita do enviado americano ocorresse entre os dias 16 e 17 de março. Moraes, entretanto, autorizou o encontro apenas para o dia 18, data fora do pedido inicial. Os advogados do ex-presidente pediram reconsideração da decisão e mencionaram compromissos diplomáticos do visitante como justificativa.

Até então, Beattie não havia solicitado reuniões formais nem com o Itamaraty nem com o Palácio do Planalto, embora já tivesse manifestado interesse em encontrar Bolsonaro. O visto para a viagem ao Brasil foi solicitado apenas na semana anterior.

Em visitas oficiais, é praxe que autoridades do Departamento de Estado dos Estados Unidos solicitem encontros com representantes do Ministério das Relações Exteriores e, eventualmente, com integrantes da assessoria internacional do governo federal. O fato de tais reuniões não terem sido inicialmente agendadas levou integrantes do governo brasileiro a interpretar a viagem como tendo motivações políticas.

Nos bastidores de Brasília, a presença de Beattie é vista como um possível início de movimentações externas relacionadas ao cenário eleitoral brasileiro. A avaliação interna é de que o enviado integra um grupo de integrantes do governo Trump alinhados ao bolsonarismo e que têm atuado para pressionar as relações diplomáticas entre Washington e Brasília.

A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Trump vinha sendo discutida desde outubro do ano passado, quando os dois governos anunciaram uma trégua em disputas tarifárias. O encontro chegou a ser cogitado para ocorrer em 2025 e, posteriormente, em março deste ano, mas ainda não foi confirmado.

Beattie já manifestou críticas públicas ao governo Lula e ao ministro Alexandre de Moraes. Em declarações anteriores nas redes sociais, classificou Moraes como o “principal arquiteto do complexo de censura e perseguição” contra Bolsonaro.

Inicialmente, uma das justificativas para a viagem seria a participação em um evento sobre minerais críticos organizado pela Amcham (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), em São Paulo, na quarta-feira (18). A entidade, no entanto, informou que ele não está previsto na programação.

Fontes próximas ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro indicam que Beattie teria interesse em compreender o funcionamento do sistema eleitoral brasileiro e planejava encontros com representantes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O tribunal, porém, declarou que não recebeu pedido de audiência por meio de sua assessoria internacional e que não há reuniões agendadas.

O grupo de autoridades norte-americanas que mantêm proximidade com o bolsonarismo inclui, além de Beattie, o conselheiro sênior do Departamento de Estado para assuntos do hemisfério ocidental, Ricardo Pita, e Sebastian Gorka, integrante do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. Pita esteve no Brasil em maio do ano passado e reuniu-se com o senador Flávio Bolsonaro e outros aliados do ex-presidente.

Gorka, por sua vez, atua como diretor-sênior de contraterrorismo e assistente adjunto do presidente dos Estados Unidos. Ele tem defendido políticas mais duras na região, incluindo a classificação das facções brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas.

O governo norte-americano avalia anunciar essa designação nos próximos dias, decisão que vai na direção oposta aos esforços do governo brasileiro. No fim do ano passado, Brasília apresentou ao Departamento de Estado uma proposta de cooperação no combate ao crime organizado, que, segundo fontes ouvidas pela reportagem, foi considerada insuficiente por não incluir a classificação das facções como grupos terroristas.

Fonte: Brasil2 47 com informações da Folha de S. Paulo

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