quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Entenda o papel da Reag no caso do Banco Master

Banco Central determinou nesta quinta-feira a liquidação da corretora

Segurança do lado de fora do Banco Master, após a prisão do acionista controlador do banco, Daniel Vorcaro, em São Paulo - 18 de novembro de 2025 (Foto: REUTERS/ Amanda Perobelli)

O Banco Central decretou nesta quinta-feira (15) a liquidação extrajudicial da gestora de recursos Reag, medida que marca um novo capítulo nas investigações sobre o esquema financeiro que envolve o Banco Master. A decisão da autoridade monetária amplia o cerco a estruturas de fundos que, segundo apurações, teriam sido usadas para simular rentabilidade e sustentar operações de crédito sem lastro real, explica o jornal O Globo.

A Reag aparece como peça central no caso a partir de documentos do Ministério Público Federal (MPF), do Banco Central e de investigações da Polícia Federal. As apurações indicam que o Banco Master concedia empréstimos a empresas que não efetuavam o pagamento das parcelas, criando receitas apenas no papel. Em poucos minutos, quase a totalidade desses valores era transferida para fundos administrados pela Reag, que registravam ganhos considerados irreais pelas autoridades.

Segundo a investigação, ao final do circuito financeiro, os recursos retornavam ao próprio Banco Master na forma de aplicações, fechando um fluxo que levantou suspeitas de gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de capitais. Esse mecanismo está no centro da segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, que tem como um de seus alvos João Carlos Mansur, fundador da Reag.

Documentos do MPF apontam que os contratos de crédito tinham prazos de carência prorrogados às vésperas do início dos pagamentos. Na prática, conforme o inquérito, “não houve efetivo pagamento de juros nem amortizações”. O mapeamento desse fluxo de recursos foi feito pelo Banco Central, que passou a questionar a solidez dos fundos envolvidos e a forma como as operações eram acompanhadas.

Em julho de 2024, a área de supervisão do BC solicitou ao Banco Master a comprovação de que um dos fundos que recebeu recursos dos empréstimos teria saldo suficiente para suportar eventuais resgates. Também foram exigidos controles para monitorar a evolução dos projetos financiados e o acompanhamento dos valores já liberados. Em resposta, o banco afirmou que esses esclarecimentos deveriam ser prestados pela Reag, administradora dos fundos.

Esse posicionamento chamou a atenção dos técnicos do Banco Central por evidenciar a “falta de adequado acompanhamento das operações estruturadas”. Em correspondência enviada à autoridade monetária, a Reag informou que os ativos dos fundos abastecidos com recursos do Master eram, em sua maior parte, papéis do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), considerados de baixo valor pelo mercado. A gestora afirmou ainda garantir liquidez de até R$ 1 bilhão por mês para resgates, se necessário, por meio de outro fundo, o Gold Style.

A análise do Banco Central, contudo, apontou inconsistências adicionais. Além da baixa qualidade dos papéis do Besc, foi identificado que não havia ativos líquidos suficientes na carteira do fundo Gold Style para sustentar os resgates prometidos. Para o BC, essas constatações evidenciam “o não atendimento de preceitos para o gerenciamento do risco de crédito das operações estruturadas”, com descumprimento da legislação, contexto que antecede a decretação da liquidação extrajudicial da Reag.

Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, contestou as conclusões das investigações. Em nota, afirmou que as acusações “não correspondem aos fatos” e declarou que “o Banco Master era submetido a auditorias independentes, supervisão permanente e a rotinas de fiscalização contínua”. Segundo a defesa, a instituição segue colaborando com as autoridades e confia que o avanço das apurações afastará “premissas que não possuem sustentação técnica ou documental”. A Reag não se manifestou.

Um documento do Banco Central enviado ao MPF reforça que as operações entre o Master e a Reag envolveram uma “reavaliação indevida de ativos, que permitiu aos fundos de investimento auferir rentabilidade extraordinária”. O caso considerado mais ilustrativo é o empréstimo de R$ 459 milhões concedido pelo banco à Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias, dirigida por uma ex-funcionária da Reag.

Logo após o recebimento dos recursos, cerca de R$ 450 milhões foram transferidos para o Fundo Brain Cash, criado pela Reag apenas 20 dias antes, com patrimônio inicial de R$ 15 mil. Em uma hora e meia, o montante foi repassado ao Fundo D Mais, também ligado à gestora e detentor de papéis do Besc. Três minutos depois, o Fundo D Mais transferiu R$ 450 milhões ao FIDC High Tower para liquidar parte da aquisição desses ativos.

Segundo a investigação, o FIDC High Tower reavaliou os papéis de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, registrando uma rentabilidade de 10.502.205% em 2024. No mesmo período, para efeito de comparação, a maior criptomoeda do mundo teve retorno aproximado de 120% em dólar, enquanto o ouro se valorizou 61,6% em reais.

A Polícia Federal também apura a suspeita de que, após circularem por fundos administrados pela Reag, os recursos tenham retornado ao próprio Banco Master por meio da compra de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), principal instrumento de captação da instituição. Diante desses indícios, investigadores cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Daniel Vorcaro e a João Carlos Mansur.

Além da Operação Compliance Zero, a Reag também entrou na mira da Operação Carbono Oculto, deflagrada em setembro do ano passado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, que apura um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo integrantes da facção Primeiro Comando da Capital (PCC). Ao menos três fundos administrados pela gestora — Hans 95, Reag Growth e Anna FIC — constam na lista de investigados por realizarem repasses financeiros em curto espaço de tempo. A gestora nega irregularidades e afirma que a suposta associação “não consta de nenhum documento oficial, de nenhuma denúncia, relatório de análise ou manifestação das autoridades competentes”.

Fonte: Brasil 247 com informações do jornal O Globo

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