Mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro citam encontros e comemoração de emenda sobre o FGC
A Polícia Federal encontrou, no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, diálogos com o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e mensagens internas com referência a um “pagamento pra Ciro”, sem sobrenome, o que levou investigadores a aprofundar checagens sobre possíveis indícios de crime envolvendo o empresário e o parlamentar. As informações foram publicadas pelo jornal Estado de S. Paulo.
Segundo o material apreendido e descrito por investigadores, as conversas entre Vorcaro e o senador tratariam de temas políticos, amenidades e marcação de encontros. A PF também identificou mensagens em que o banqueiro se refere ao senador como “grande amigo de vida” e comemora uma iniciativa legislativa atribuída a Ciro Nogueira que, na avaliação de políticos e agentes do mercado, poderia beneficiar o Banco Master.
◉ O que a PF diz ter encontrado no celular do banqueiro
O ponto central que passou a ser verificado, de acordo com a apuração, é a existência de mensagens com menções a pagamentos para alguém identificado apenas como “Ciro”. Uma das conversas citadas ocorreu entre Daniel Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, descrito pelos investigadores como operador financeiro do banqueiro.
Em maio de 2024, Zettel teria enviado a Vorcaro uma lista pedindo autorização sobre prioridades de pagamentos, com uma linha específica apontando: "Preciso que me ordene as prioridades. [...] 2. Pagamento pra Ciro". Na sequência, Vorcaro teria autorizado os repasses, segundo a narrativa da investigação.
A apuração ainda não teria obtido dados bancários capazes de esclarecer a natureza do pagamento, o destino do valor e se o “Ciro” mencionado seria o senador ou outra pessoa com o mesmo primeiro nome. Esse ponto é tratado como uma verificação em curso, a partir do conteúdo do telefone celular.
Além dessa conversa, a PF também teria encontrado referência ao nome “Ciro” em diálogo de Vorcaro com o deputado federal Fausto Pinato (PP-SP), no qual o parlamentar pede a realização de uma reunião entre os três. O deputado, conforme a publicação, não respondeu aos contatos.
◉ Mensagem sobre emenda do FGC e o debate sobre “favorecimento”
Outro trecho que passou a chamar atenção dos investigadores envolve uma mensagem atribuída a Vorcaro celebrando o que chamou de “bomba atômica no mercado financeiro”, em 13 de agosto de 2024. A data coincide, conforme a reportagem, com a apresentação de uma emenda à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) de autonomia financeira do Banco Central, apresentada por Ciro Nogueira, para elevar o valor coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil por CPF para R$ 1 milhão.
De acordo com a apuração do jornal Estado de S. Paulo, essa proposta foi apontada por políticos e integrantes do mercado financeiro como uma das primeiras “digitais” de favorecimento ao Banco Master no Congresso. A razão seria o peso estratégico da cobertura do FGC para produtos como CDBs, usados pelo banco como ferramenta para ampliar captação e atrair investidores.
Nos registros citados, a PF também menciona ter visto mensagens em que Vorcaro enaltece a relação com o senador e comemora a iniciativa legislativa. O conjunto do material, porém, ainda não teria sido convertido em procedimento formal contra Ciro Nogueira, segundo o relato.
◉ STF, prisão preventiva e por que o caso ficou em Brasília
As informações sobre os diálogos e as referências a pagamentos teriam sido encaminhadas ao ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, apontado como responsável por decretar a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, cumprida pela PF em 4 de março.
Nos bastidores, conforme a publicação, a presença de elementos relacionados a autoridade com foro teria sido um dos motivos citados para justificar a permanência do inquérito sob competência do STF. Ainda assim, a reportagem ressalta que não havia, até então, investigação formal instaurada contra o senador no chamado “caso Master”.
O material também descreve Ciro Nogueira como uma das pessoas próximas a Vorcaro em Brasília e relata que, segundo pessoas próximas ao parlamentar, ele teria sido ouvido antes de o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), dar aval à oferta de compra do Banco Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB). Nesse contexto, a reportagem menciona ainda articulações políticas no DF envolvendo a formação de alianças para a campanha de Ibaneis ao Senado.
◉ Histórico de citações a políticos na Operação Compliance Zero
A menção a Ciro Nogueira aparece, segundo a narrativa, após outras referências políticas surgirem desde a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro. A reportagem afirma que dois nomes já haviam sido citados anteriormente.
O primeiro, conforme já revelado pelo jornal Estado de S. Paulo, teria surgido a partir da apreensão de documento referente a uma transação imobiliária de Vorcaro com o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA). Essa transação não teria sido concretizada e, segundo os investigadores, não teriam sido encontrados indícios de irregularidade no documento, embora ele tenha sido usado pela defesa do banqueiro para sustentar pedido de envio do caso ao STF.
O segundo episódio envolve o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Em depoimento à PF e ao STF, Vorcaro teria afirmado ter mantido conversas e ao menos uma reunião em sua casa com Ibaneis sobre a venda do Banco Master ao BRB. A PF suspeita que o BRB teria sofrido prejuízo bilionário com a aquisição de falsas carteiras de crédito consignado. Na ocasião, Ibaneis negou ter conversado sobre o negócio com Vorcaro e disse que o responsável pelo assunto era o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, segundo a publicação.
◉ O que diz Ciro Nogueira
Procurado, Ciro Nogueira disse que conhece Daniel Vorcaro, mas negou proximidade e negou ter recebido pagamentos. Em nota, o senador contestou a associação do seu nome à referência de “pagamento” com base apenas no primeiro nome e afirmou que isso seria uma tentativa de atingir sua reputação.
O parlamentar declarou: "Associar meu nome ao recebimento de qualquer tipo de pagamento por ter o primeiro nome citado em diálogos, sem oferecer outra informação, tais como sobrenome ou cargo, é um ato irresponsável, inconsequente e até leviano." Ele acrescentou: "Inferir que se refere a mim, senador Ciro Nogueira, é definitivamente uma mentira fabricada na tentativa de manchar minha biografia."
Na mesma manifestação, Ciro Nogueira afirmou que, embora conheça o banqueiro, “assim como conheço centenas de empresários”, Vorcaro “jamais pertenceu” ao seu círculo de amizades próximas. O senador também disse estar “absolutamente tranquilo” quanto ao desfecho das apurações e declarou não ter envolvimento com as denúncias relacionadas ao empresário.
A defesa de Daniel Vorcaro, de acordo com a reportagem, não se manifestou.
Fonte: Brasil 247 com informações publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo
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