Arquivos de câmeras em mansões e casas de luxo podem detalhar visitas de autoridades
PF vasculha vídeos e celulares de Daniel Vorcaro e busca imagens de autoridades em imóveis de luxo (Foto: Divulgação)
A Polícia Federal (PF) já não mira apenas o conteúdo dos celulares apreendidos no caso Master: investigadores também analisam arquivos de vídeo de câmeras de segurança instaladas em imóveis ligados a Daniel Vorcaro, dono do banco e apontado como personagem central do que a apuração descreve como o maior escândalo financeiro da história do Brasil. A expectativa é que os registros, já acessados e copiados pela PF, ajudem a mapear visitas, encontros e a rede de relações construída pelo banqueiro em diferentes estados e até no exterior.
As informações foram reveladas pela equipe de O TEMPO Brasília, que apurou com duas fontes que peritos da PF já tiveram acesso aos vídeos dos sistemas de vigilância dos imóveis do investigado. O material ganha ainda mais peso depois de os peritos, segundo reportagem publicada na segunda-feira (9/2), terem conseguido quebrar a criptografia do principal celular de Vorcaro — aparelho cuja senha ele se recusou a fornecer em depoimento prestado em 30 de dezembro do ano passado.
⊛ Celulares destravados e dados apagados na mira
A investigação trata como “grande” a expectativa sobre o que há nos aparelhos apreendidos, sobretudo nos telefones do banqueiro. De acordo com o que foi noticiado, a PF inicialmente não conseguiu acessar os dados por causa de uma camada adicional de proteção. A virada teria ocorrido após a aquisição recente de novos programas capazes de quebrar criptografias de modelos mais recentes de celular.
Com a ferramenta, peritos também passam a ter a possibilidade de recuperar informações deletadas. Isso amplia o potencial probatório do material apreendido e, na avaliação de fontes ouvidas pela reportagem, pode dar uma dimensão mais precisa das tratativas e da logística de encontros atribuídos ao investigado.
⊛ O que a PF procura nos vídeos de segurança
Segundo as fontes citadas por O TEMPO, o conteúdo que mais interessa aos agentes é o registro de visitas a Vorcaro. O simples contato, por si só, não prova crime, mas pode fortalecer um conjunto de indícios e sustentar vínculos já descritos em outras frentes da apuração.
A análise dos vídeos pode confirmar a presença de pessoas já citadas em reportagens e investigações e, ainda, expor bastidores de confraternizações e eventos privados mencionados no material apurado, inclusive festas organizadas e bancadas por Vorcaro em Minas Gerais, São Paulo, Brasília, na Bahia e em outras localidades. A investigação descreve um padrão de ostentação associado ao banqueiro, num contraste que, segundo o texto, se choca com as suspeitas sobre a origem e o uso do dinheiro.
⊛ Mansão de R$ 36 milhões em Brasília e encontros sob disputa
Um dos imóveis centrais para a análise é uma mansão de R$ 36 milhões em Brasília, localizada em um condomínio do Lago Sul, área nobre da capital federal. A escritura indica 1.700 m². O TEMPO relata que Vorcaro, que tem residência fixa em São Paulo e cumpre prisão domiciliar, comprou diversos imóveis residenciais e comerciais em várias cidades do país e no exterior — e que a casa de Brasília teria sido um espaço recorrente de recepção a convidados.
Entre os nomes associados a visitas está o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo o portal Metrópoles. O magistrado, de acordo com o texto, negou tais encontros. A reportagem também afirma que, em uma das ocasiões descritas pelo Metrópoles, Moraes teria sido apresentado ao então presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa.
Ainda segundo o que foi atribuído ao Metrópoles, esse encontro teria ocorrido em um fim de semana do primeiro semestre de 2025, período em que já vigorava um contrato de R$ 129 milhões entre o Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. A menção a esses elementos, por parte da PF, tende a elevar o interesse nos vídeos, justamente por permitir checar datas, entradas e saídas, e a dinâmica de deslocamentos no imóvel.
O TEMPO relata ainda que a mansão, antes de Vorcaro, foi alugada por Salim Mattar, então secretário de Desestatização do Ministério da Economia do governo de Jair Bolsonaro. Vorcaro teria admitido, em depoimento à PF, que a aquisição da residência na capital visava “aprofundar contatos”.
⊛ Operação Compliance e suspeita de empréstimo desviado
A compra da mansão de Brasília é descrita como ligada a um empréstimo que teria sido desviado do próprio banco, segundo investigação da PF que deflagrou a Operação Compliance, em novembro de 2025. A aquisição teria sido feita por meio da Super Empreendimentos e Participação, empresa que, de acordo com Vorcaro, tem como sócio seu cunhado, Fabiano Zettel — informação atribuída à Folha de S. Paulo.
O texto afirma que a mesma empresa comprou, em 2023, um duplex nos Jardins, em São Paulo, por R$ 30 milhões, com 600 m² e uma unidade por andar. Esse imóvel teria sido oferecido à modelo Izabel Goulart como investimento numa marca de produtos de beleza que seria lançada por ela. Por meio de assessoria, Izabel confirmou a oferta, mas disse que a negociação não avançou.
Segundo a reportagem, a Super consta em uma lista de 35 empresas suspeitas de tomar empréstimos fraudulentos do Master para alimentar uma rede de fundos que, de acordo com investigadores, desviava dinheiro do banco para laranjas e retroalimentava o próprio Master. Também é relatado que, à época do financiamento, Zettel era diretor da Super e deixou o quadro societário em 23 de julho de 2024, sendo substituído por uma funcionária.
Zettel foi alvo da segunda fase da Compliance, deflagrada em 14 de janeiro pela PF. Ele foi preso ao tentar embarcar para Dubai e liberado horas depois; agentes apreenderam seu celular e passaporte.
⊛ Trancoso, “Villa 21” e o rastro de festas e hospedagens
Outro ponto de interesse para a PF é a chamada Villa 21, imóvel de altíssimo padrão no condomínio Terravista Golf, na Praia dos Nativos, em Trancoso (sul da Bahia). O TEMPO descreve que Vorcaro recebia convidados em um ambiente com moderno sistema de monitoramento por câmeras — o que, agora, pode se tornar peça-chave na reconstrução de agendas e presenças.
A propriedade tem 40 mil metros quadrados, 12 suítes e cinco bangalôs de dois pavimentos, além de uma “casa central” na suíte principal, com 400 m², sala de leitura, academia, terraço e piscina privativa. O texto afirma que Vorcaro costumava ficar ali quando viajava para Trancoso em um de seus três aviões privados.
Em setembro de 2025, dois meses antes da primeira fase da Compliance, a Folha de S. Paulo revelou que um corretor de imóveis de luxo entrou com ação contra Vorcaro cobrando comissão de R$ 18 milhões pela intermediação na venda da Villa 21. Segundo o relato, o corretor disse ter apresentado o imóvel e iniciado tratativas, mas a transação teria sido concluída sem sua participação, motivando a ação. Vorcaro negou envolvimento direto e alegou não ter vínculo com as empresas compradoras — embora o texto ressalte que vários negócios atribuídos ao banqueiro envolveriam múltiplos sócios, inclusive ocultos.
O processo citado menciona que Vorcaro frequentou o imóvel em 2021 e 2022, pagando mais de R$ 760 mil por 14 dias de estadia, e que teria reservado nova estadia em outubro de 2023, de R$ 325 mil, posteriormente cancelada. Até junho de 2024, a villa pertenceria a Sandra Habib, esposa de Sérgio Habib, presidente da JAC Motors Brasil, segundo a Folha.
A reportagem também relata reclamações por avarias após festas e cobrança por danos e multas. Após ser procurado pela imprensa, Vorcaro pediu à Justiça que o processo tramitasse em segredo e que a imprensa fosse impedida de divulgar o conteúdo dos autos — pedido que, segundo o texto, foi atendido.
⊛ Miami, imóveis bilionários e origem dos recursos sob investigação
A PF ainda investiga a origem do dinheiro usado por Vorcaro para adquirir imóveis no exterior. Um deles, segundo o texto, é uma casa de 1.905 m² no condomínio Bay Point, em Miami (Estados Unidos), comprada por US$ 85 milhões — cerca de R$ 580 milhões. A reportagem afirma que o banqueiro teria outra casa de luxo na mesma rua.
O imóvel descrito tem 11 quartos, 12 banheiros, quatro lavabos, piscina e dois píeres de frente para o mar. Também em Miami, ainda segundo o material apresentado, Vorcaro alugou 26 mil metros quadrados no edifício 830 Brickell por US$ 190 por metro quadrado para instalar salas do Master. A PF, de acordo com a reportagem, ainda não obteve eventuais imagens de câmeras do condomínio e das casas.
⊛ O que está em jogo na próxima etapa
Ao reunir o conteúdo dos celulares destravados e os arquivos de vídeo dos imóveis, a PF passa a ter uma trilha documental e audiovisual com potencial de detalhar rotinas, deslocamentos e encontros atribuídos ao investigado. A apuração, porém, caminha sobre um ponto central: presença em ambiente privado, por si só, não tipifica crime — mas pode corroborar versões, contestar negativas, esclarecer cronologias e reforçar vínculos já apontados em reportagens e investigações.
É nesse cruzamento entre tecnologia forense, registros de segurança e a rede social do banqueiro que a investigação busca consolidar provas e mapear a extensão do caso Master, suas conexões e seus desdobramentos políticos, institucionais e financeiros.
Fonte: Brasil 247 com informações da equipe de O Tempo, em Brasília
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