Alta de 2,9% em janeiro supera previsões, pressiona alimentos e tarifas e reabre crise no INDEC após renúncia do chefe do órgão
A inflação na Argentina voltou a acelerar em janeiro e avançou pelo quinto mês consecutivo, escancarando as dificuldades do governo Javier Milei para estabilizar preços enquanto aprofunda o ajuste fiscal. O índice de preços ao consumidor subiu 2,9% no mês, acima da estimativa mediana de 2,4% apurada com analistas e levemente acima do registro anterior, sinalizando perda de fôlego do processo de desinflação.
Os dados foram divulgados pelo instituto de estatísticas INDEC e reportados pela Bloomberg nesta terça-feira, com a taxa acumulada em 12 meses subindo para 32,4%. O resultado se soma a uma crise política e institucional: a renúncia do chefe do INDEC, Marco Lavagna, após divergências com Milei sobre a mudança da metodologia do indicador, adiada pelo presidente no momento em que seria implementada.
Alta recai sobre alimentos, restaurantes e serviços essenciais
A aceleração de janeiro atingiu em cheio despesas essenciais da população. Segundo os números citados, alimentos, restaurantes, hotéis e serviços públicos lideraram os aumentos do mês, reforçando o impacto direto no orçamento das famílias. Ao concentrar pressão em itens cotidianos e em tarifas reguladas, o avanço do índice amplia o desgaste social e desafia a narrativa do governo de que o choque de austeridade seria acompanhado por alívio sustentado no custo de vida.
O dado também expõe uma contradição do programa de Milei. Embora a inflação tenha desacelerado bastante desde a chegada do presidente ao poder — quando o país convivia com taxas de três dígitos —, a estratégia de cortar subsídios e recompor tarifas tende a produzir novas ondas de alta no curto prazo. A tentativa de manter superávit fiscal, ao mesmo tempo em que busca conter preços, transforma a conta de luz e o gás em combustível político e inflacionário.
Renúncia no INDEC amplia suspeitas e disputa sobre o novo índice
O relatório de janeiro veio logo após a saída abrupta de Marco Lavagna do comando do INDEC. De acordo com as informações fornecidas, Lavagna renunciou depois que Milei adiou a decisão do órgão de começar a publicar a inflação com uma nova metodologia, que passaria a valer justamente no dado de janeiro.
A controvérsia gira em torno da cesta que sustenta o índice atual, baseada em hábitos de consumo de duas décadas atrás e amplamente considerada defasada. A atualização prevista daria peso maior a serviços que ganharam relevância no período — e que, em alguns casos, sequer existiam — o que poderia alterar a fotografia do custo de vida e a forma como a inflação é percebida pela sociedade, por sindicatos e por credores.
O ministro da Economia, Luis Caputo, tentou amortecer os efeitos da crise, afirmando que os títulos atrelados à inflação não reagiram à renúncia e que Lavagna teria saído “em bons termos”. Caputo também disse que ele e Milei discordavam do ex-chefe do INDEC sobre o momento de implementar a nova cesta: a equipe econômica preferiria esperar a inflação cair mais antes de adotar a mudança.
FMI em Buenos Aires e cobrança por credibilidade estatística
A turbulência ocorre no momento em que uma missão do Fundo Monetário Internacional está em Buenos Aires para revisar o programa de US$ 20 bilhões com o governo argentino. Segundo o texto, representantes do FMI devem discutir especificamente o cronograma da nova metodologia do índice de inflação — um tema que mistura técnica e política, porque credibilidade estatística é parte do “contrato” de confiança exigido em programas com o Fundo.
O FMI ainda não teria comentado a decisão de Milei de adiar a implementação, conforme o material fornecido. Mesmo assim, o simples fato de o assunto entrar na pauta de uma revisão de programa sinaliza que a transparência e a previsibilidade do indicador passaram a ser um ponto sensível para o governo.
Bloomberg Economics vê reversão no processo de desinflação
A Bloomberg Economics tratou o dado de janeiro como um alerta sobre a trajetória recente. A economista Jimena Zuniga avaliou que o processo de desinflação pode ter perdido o sentido de queda e apontou limites para a melhora sem medidas coordenadas. Ela afirmou:
"Os dados do CPI de janeiro mostram que o processo de desinflação da Argentina estagnou — ou até entrou em reversão. Atividade fraca, moeda estável e uma economia em abertura — ancoradas por uma política monetária sensata — ainda podem ajudar a reduzir os aumentos de preços até certo ponto, mas forças inerciais sugerem que não haverá moderação significativa até que o governo introduza medidas voltadas a coordenar o ritmo dos aumentos de preços e as expectativas de inflação."
A avaliação indica que, mesmo com algum alívio macroeconômico, a inflação pode seguir alimentada por mecanismos de indexação e reajustes recorrentes, especialmente quando tarifas reguladas são atualizadas e serviços essenciais recuperam preços reprimidos.
Reajustes em fevereiro e pressões sazonais em março elevam riscos
O dado de janeiro também precisa ser lido à luz do que vem a seguir. O texto informa que Milei planeja aumentar novamente as contas de eletricidade e gás em fevereiro para preservar o superávit fiscal. Em um país onde tarifas têm forte peso simbólico e estatístico, a medida tende a pressionar o índice e ampliar o mal-estar social.
Março, por sua vez, costuma trazer pressão sazonal: educação e vestuário tendem a subir com a volta às aulas no Hemisfério Sul. Se a inflação já roda perto de 3% ao mês, choques de tarifas e reajustes sazonais podem empurrar o índice para um patamar ainda mais desconfortável, dificultando uma queda consistente.
Fonte: Brasil 247
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