Reaproximação também pode favorecer o governo Lula
O avanço de uma ala robusta do centrão nas eleições de outubro projeta um cenário de incerteza para a permanência de Hugo Motta (Republicanos-PB) no comando da Câmara dos Deputados. Lideranças da Casa avaliam que a recondução do parlamentar à presidência, em eleição interna prevista para 2027, tornou-se incerta diante da reorganização das forças partidárias e do desgaste acumulado ao longo do primeiro ano de gestão, informa a Folha de São Paulo.
Motta saiu politicamente enfraquecido após um motim que paralisou o plenário por cerca de 30 horas no ano passado. Integrantes do centrão atribuem ao deputado parte do desgaste da Câmara perante a opinião pública, especialmente em episódios como a tramitação do projeto que ampliava o número de deputados federais. A insatisfação interna também resultou em atritos com seu antecessor no cargo, Arthur Lira (PP-AL).
Nesse contexto, aliados identificam um movimento de reaproximação entre Motta e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) previsto para 2026. A estratégia teria como objetivo garantir apoio político para sua sobrevivência no comando da Casa e ampliar o capital eleitoral de sua família na Paraíba. Um dos sinais dessa aproximação foi a presença de Motta em cerimônia do governo federal que marcou uma nova etapa da regulamentação da reforma tributária, em Brasília, enquanto o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), optou por não comparecer.
A mudança de cenário partidário pesa contra o atual presidente da Câmara. Siglas que já se colocaram na oposição a Motta em disputas internas, como PSD e União Brasil, trabalham com projeções ambiciosas para ampliar suas bancadas. O partido comandado por Gilberto Kassab mira a conquista de até 100 cadeiras, enquanto o União Brasil, em federação com o PP de Ciro Nogueira, calcula alcançar 120 deputados.
Segundo aliados, um eventual desequilíbrio na correlação de forças do centrão elevaria o risco à recondução de Motta em 2027. Mesmo que seja reeleito deputado, ele precisaria negociar sua permanência à frente da Câmara com legendas fortalecidas após um início de gestão marcado por turbulências. Por isso, a aproximação com Lula é vista como um caminho para assegurar o apoio da base governista na disputa interna.
O núcleo central da base lulista, formado pela federação PT-PCdoB-PV, projeta eleger cerca de 90 deputados no próximo pleito, impulsionado pelo controle da máquina pública. Para Motta, esse apoio pode ser decisivo não apenas para sua continuidade no cargo, mas também para ampliar sua influência eleitoral na Paraíba. Além de buscar a renovação do mandato, o deputado articula a candidatura do pai, Nabor Wanderley, ao Senado.
A estratégia leva em conta o histórico eleitoral do estado, que deu 64,2% dos votos a Lula no primeiro turno das eleições de 2022. A obtenção do apoio ou, ao menos, de uma postura neutra do PT poderia fortalecer a candidatura de Nabor. O principal adversário na disputa é o senador Veneziano Vital do Rego (MDB), que tenta a reeleição e também se apresenta alinhado a Lula.
Do ponto de vista do governo, a reaproximação também atende a interesses estratégicos. Em 2025, Motta impôs derrotas ao Planalto ao entregar relatorias sensíveis, como a da PEC da Segurança Pública e do Projeto de Lei Antifacção, a parlamentares da oposição. Além disso, permitiu a caducidade da Medida Provisória do IOF e pautou a discussão sobre a dosimetria das penas dos réus dos atos de 8 de Janeiro.
Interlocutores avaliam que movimentos recentes do presidente da Câmara buscam pavimentar o diálogo com o Planalto. Um dos passos foi “se livrar” da discussão sobre a dosimetria. Outro gesto foi a cassação, de ofício, dos mandatos dos deputados Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ).
Para o governo Lula, a reabertura de canais com Motta pode facilitar a tramitação de matérias com forte apelo eleitoral, como a Medida Provisória do Gás do Povo, que precisa ser votada até 11 de fevereiro para não perder a validade. O Planalto avalia que a iniciativa tem potencial de impacto direto junto ao eleitorado em um ano decisivo para a correlação de forças no Congresso Nacional.
Paralelamente, os planos partidários reforçam a pressão sobre a atual presidência da Câmara. O PSD, que encolheu em 2022 com o fim das coligações, aposta na filiação de governadores e lideranças regionais para ampliar sua capilaridade. Já a federação União Brasil–PP conta com a soma dos votos proporcionais, maior fatia do fundo eleitoral e o maior tempo de TV, fatores que devem atrair candidatos e impulsionar o crescimento da bancada.
Fonte: Brasil 247 com informações da Folha de S. Paulo
Nenhum comentário:
Postar um comentário